sexta-feira, 12 jun. 2026

Verificando se somos humanos

Só lamento que a Bumba diga “como deve de ser” em vez de “como deve ser”, mas enfim, errar é humano. 

Terça-feira, 5 de maio

Passo os olhos pelo meu reality show favorito, Casados à Primeira Vista, na SIC, que atualmente acompanho com algum distanciamento, é fácil do nosso sofá julgar os comportamentos desviantes dos casais, que começaram mal e a cada semana que passa pioram, fiquei à espera de tomar algum partido e preferência por esta ou aquela personagem, mas já cheguei à conclusão que os odeio a todos, até porque alguns deles parecem replicar alguns dos nossos próprios defeitos como humanos, seja o Rui Pedro, que sugere à mulher workaholic Elisabete que deixe de trabalhar tantas horas porque ele tem poupanças que podem ajudá-la a relaxar (sendo que ela naturalmente rejeita essa proposta patriarcal, deixando-o “atónico”, palavras suas); o João, que dá espaço à Sónia para que ela se expresse livremente, para ao fim do dia acabar por concluir que a relação deles é oitenta por cento ela a expor e esmiuçar os problemas do casal, problemas esses que, segundo ela, são todos culpa dele; para não falar do Carlos de 76 anos, um marialva snob de Lisboa que alegava ter a “idade metabólica” de 66 anos, mas que intimida a sua mulher Quinita com doses cavalares de ópera (que ela odeia), ao mesmo tempo que a censura por ela supostamente não ter dentes. Como se depreende, o melhor reality show da temporada consegue muitas vezes revelar também o pior de nós. 

Quarta-feira, 6 de maio

A RTP Notícias, através da figura de Vítor Gonçalves, convidou Ricardo Araújo Pereira, vulgo RAP, para uma Grande Entrevista a meio da semana passada. Para além de todas as coisas sábias que o RAP afirma nas dezenas de colunas de opinião que tem, e nas centenas de podcasts para os quais é convidado, um dos maiores méritos que teremos de reconhecer nele continua a ser o facto de não dar qualquer palco a André Ventura no seu espaço de humor da SIC, Isto é Gozar Com Quem Trabalha. O que significa que na maioria dos casos RAP é convidado pelas televisões para falar precisamente sobre esse assunto. 

Na Grande Entrevista, Vítor Gonçalves cometeu a ousadia de não seguir o caminho mais percorrido e conseguiu uma conversa fora da caixa, falando de tecnologia, inteligência artificial, democracia e liberdade. Foi RAP quem sacou do chavão André Ventura, mas só aos 45 minutos da entrevista, para demonstrar a liberdade criativa que lhe é providenciada pela SIC para não convidar o líder do Chega. Como sempre, RAP saiu-se com alguns aforismos dignos da sua heterodoxia intelectual, como “o humor é um exercício prático de cepticismo”, “hoje vivemos a privatização da verdade, cada um de nós tem a sua verdade”, ou “a Joana Marques é uma espécie de “desmancha-prazeres”. A justificação para a entrevista foi o novo stand-up de RAP, Verificando se Você é Humano.

O mais engraçado é que, à hora da entrevista “humanista” de RAP na RTP Notícias, André Ventura era mais uma vez entrevistado no canal NOW. Este país é movido a Ventura, o que ele diz faz mover a comunicação social, os comentadores, a opinião pública, a indústria. Seja para o negar, para o contrariar ou para o caucionar, todas as formas servem para o confirmar. Vítor Gonçalves à conversa com RAP foi a prova que felizmente há vida para além de Ventura, nem que seja durante uma hora. 

Quinta-feira, 7 de maio

À hora do almoço, o canal NOW dá tempo de antena ao fanático Ireneu Teixeira, que o canal designa como “analista internacional”, apesar de ele ser essencialmente um ex-jornalista desportivo. Ireneu faz lembrar um pouco a história do jornalista José Rodrigues dos Santos, que por acaso estava de serviço na RTP na noite da primeira guerra do Golfo nos anos 90, e a partir daí tornou-se uma referência pop deste país. Ireneu Teixeira é casado com uma ucraniana, estava em Kiev quando a Rússia invadiu a Ucrânia, e portanto ele agora, por redundância, é analista internacional. Há uns anos, entrevistado pelo Correio da Manhã, Ireneu referia que “a minha preocupação, além de informar, é humanizar este conflito”. Na altura, Ireneu estava preocupado em humanizar o conflito da Ucrânia, com o passar do tempo acabou a humanizar todo o tipo de conflitos, desde Ucrânia a Gaza, Anjos vs Joana Marques ou o eterno conflito entre a fritadeira e a airfryer. Frases que revelam a humanidade, equilíbrio e ponderação com que Ireneu comenta, por exemplo, a situação no Irão: “Este regime mata toda a gente”, “todos de negro, sempre os mesmos desfiles, não precisamos de importar isto para nossa Europa”, “no Irão não há eleições”, “são terroristas, assassinos, criminosos”, “o Irão tem sempre apoio de Partido Comunista Português”, “qual a profissão dos ativistas, eles descontam?”, “os antissemitas são racistas, querem exterminar a raça judaica”. No final, conclui acertadamente: “a doença ideológica é horrível e mata”. Ireneu é daqueles casos que parece ter entrado sem bilhete no comboio errado desde a origem, e como o revisor entretanto ainda não chegou, ele também ainda não saiu. 

Sexta-feira, 8 de maio

Uma excelente reportagem no noticiário da SIC levanta um pouco do véu sobre o mistério da jovem de 18 anos Carolina Torres, ou Noori, que foi dada como desaparecida em Outubro de 2025 em Almada e encontrada morta um mês e meio depois na praia da Leirosa, na Figueira da Foz. Apesar de o caso de polícia ainda não ter tido um fecho e de a investigação não estar encerrada, porque a PJ ainda não apresentou os resultados da autópsia, a reportagem conseguiu ser suficientemente esclarecedora e elucidativa sobre o que aconteceu à jovem Noori, muito contribuindo para isso os reveladores depoimentos dos pais separados, um militar e uma enfermeira, ambos com uma linha de raciocínio clara e insuspeita, contando friamente os acontecimentos que podem ter contribuído para o afastamento da menina, filha de uma família funcional, e a inevitável revolta dos pais por saberem que metade da história ainda poderá estar por contar. Uma intensa peça de jornalismo da jornalista da SIC, Ana Paula Félix. 

Sábado, 9 de maio

A história dos negócios da antiga militante do Chega, Mafalda Livermore, revelada há umas semanas pela Prova dos Factos na RTP, continua a dar pano para mangas, desta vez com o canal NOW a usurpar o exclusivo da RTP, investigando outras suspeitas e “novo escândalo” da ex-vogal de Moedas na CML, que há um ano alegadamente conseguiu “infiltrar-se” no gabinete de Luís Montenegro, sendo inclusivamente vista a participar nas celebrações do 25 de Abril no Palácio de Belém na Primavera de 2025. 

A peça de Ana Leal para o Repórter Sábado no canal NOW é muita parra e pouca uva, com a história rocambolesca a centrar-se em mais uma das inúmeras vítimas dos esquemas da falsa advogada Livermore, sendo que as vítimas que agora sobem a palco parecem ser anteriores protagonistas das fraudes de Livermore que entretanto decidiram aproveitar-se da tração da história para fazerem uma espécie de justiça popular revanchista.

Não se pode negar algum mérito à jornalista Ana Leal por ter conseguido chegar pessoalmente a Mafalda Livermore à saída da sua casa nas Marquesas em Palmela, obtendo dela apenas os habituais depoimentos contorcionistas negando a natureza das acusações que lhe são feitas. Ainda assim, e porque televisão é tanto forma como conteúdo, é de questionar a abordagem informal com que Ana Leal se relaciona com a suspeita, dirigindo-se a  Livermore com um “Mafalda, temos de falar!” digno de dois namoradinhos que fizeram ghosting no Whatsapp, mas ainda têm assuntos pendentes por resolver. 

Domingo, 10 de maio

Um dos posts mais pertinentes e provocadores da semana nas redes sociais foi o de Mariana Cabral, vulgo Bumba na Fofinha, na sua página do Instagram, sempre naquele tom jocoso mas sério mas leve mas relevante que tão bem a caracteriza, desta vez a expor a perversidade com que os casinos e casas de apostas online dominam o mercado publicitário e patrocinam a “independência” da maioria dos influencers deste país triste, garantindo assim uma espécie de silêncio cartelizado e zero escrutínio sobre um sistema de jogo que contribui para a adição de muitos jovens e garante um retorno cínico ao sistema que o alimenta e valida. Só lamento que a Bumba diga “como deve de ser” em vez de “como deve ser”, mas enfim, errar é humano.