O que se esperava da semana a seguir à primeira volta das presidenciais seria um período de reserva, ponderação, serenidade e debate sobre os resultados eleitorais, sobre a forma como a direita se fragmentou, sobre a oportunidade que se criou para a esquerda se arregimentar, sobre a humildade dos vencidos e as propostas dos vencedores. Mas não, o que se viu nas nossas televisões foi bem diferente, as nossas televisões quiseram começar por ouvir André Ventura, uma, duas, três vezes em apenas três dias. Três dias em que estive em loop colado aos nossos noticiários, para ver o que saía de tanta sofreguidão democrática.
Segunda-feira, 19 janeiro
RTP, SIC e TVI abrem noticiários com rescaldo de vitória de Seguro e possíveis respaldos de eventuais aliados e/ou alianças. A RTP perdeu quatro minutos com o vencedor das presidenciais (um senhor chamado António José Seguro) e seguiu a correr para uma “entrevista exclusiva” a André Ventura, onde o entrevistado que tem o mundo a seu favor se queixou de que está tudo contra ele.
A SIC abriu com acidente ferroviário em Córdova, destacou a vitória de Seguro na sua terra natal, Penamacor, e ainda foi a tempo de fazer um bom debate sobre as presidenciais, com Ricardo Costa e Bernardo Ferrão.
A SIC perdeu o Polígrafo para a TVI, mas rapidamente o substituiu por uma rubrica chamada SIC Verifica, também com João Moleiro. No alinhamento da noite, SIC Verifica começou 45 minutos antes de a TVI estrear o seu Polígrafo, e, como o grafismo é praticamente igual nos dois canais, nenhum espectador percebeu a diferença. Portanto, 15 a zero para a SIC.
Melhor momento do noticiário da TVI foi o Pedro Benevides a fazer contas de merceeiro no monitor da sofisticadissima magic wall…
Terça-feira, 20 janeiro
A melhor abertura, ou pelo menos a abertura mais incendiária dos noticiários da noite de terça-feira, foi da TVI, que mandou o João Póvoa Marinheiro para Davos, no dia em que Emmanuel Macron apareceu a discursar de óculos escuros, tipo Top Gun. A imprensa referiu que o líder francês estaria talvez com um problema ocular, mas acredito que Macron só usou óculos escuros para ter mais estilo que o Póvoa Marinheiro. E, ainda assim, nem chegou perto.
Os canais aproveitaram para dar uma ligeira pausa à ressaca das presidenciais, algo que deve ter custado horrores à RTP, foi o primeiro dia pós-presidenciais em que o canal do Estado NÃO entrevistou André Ventura. E, se calhar, só não o entrevistou porque Ventura na terça-feira estava ocupado a espalhar o evangelho na CMTV.
A SIC pareceu tão desinteressada do mundo em geral que abriu o seu primeiro intervalo (o habitual break de 17 minutos) aos 20 minutos de emissão. Portanto, à meia-hora de emissão, metade do noticiário tinha sido publicidade.
O tema que uniu as redações dos nossos canais foi a Operação Irmandade da PJ, com a detenção de mais de trinta membros do grupo neonazi 1143, alguns deles com ligações políticas ao Chega. Teria sido uma óptima ideia a RTP ter confrontado alguém do Chega nesta terça-feira, mas infelizmente o Chega só tem uma pessoa disponível para esclarecimentos à RTP às segundas e quartas, terça-feira é dia descanso do pessoal.
A RTP, salvo erro, foi o único canal que não vi entrevistar o português sobrevivente ao acidente ferroviário de Córdova, mas ganhou alguns pontos ao transformar em notícia o discurso hermético do Montenegro em Sines, onde o primeiro-ministro referiu a palavra “seguro” seis vezes. Eu diria que é fina a ironia de Montenegro, não se desse o caso de, dois dias depois, o mesmo Montenegro ter decidido processar o perfil satírico de Volksvargas nas redes sociais, acusando o influencer de um “acto de desinformação com elevada difusão pública”. Qual o “acto de desinformação” em causa? Um post falso onde Trump agradece a Montenegro a sua dedicação e apoio às causas imperialistas de Trump na Europa.´
Também uns dias depois, na TVI, Miguel Sousa Tavares dispensou a ironia e a sátira para atacar o Governo de Montenegro, dizendo que, ao não esclarecer se está contra ou a favor do imperialismo de Trump, ele está tanto a alinhar-se como a aninhar-se com Trump. Bom jogo de palavras, mas cautela que Montenegro pode processar.
Quarta feira, 21 janeiro
André Ventura esta semana em campanha exigiu pelo menos três debates a Seguro. Seguro prometeu-lhe um. As televisões, em contrapartida, garantiram a Ventura três entrevistas em apenas três dias. Ou seja, as pessoas riem-se quando o homem diz que Portugal precisa de três Salazares, mas a verdade é que as televisões conseguem cumprir esse desígnio, Portugal esta semana teve três Salazares em três dias, o terceiro deles na “grande entrevista” de Vítor Gonçalves a André Ventura quarta-feira.
Créditos para Vítor Gonçalves, por ter aberto a entrevista a Ventura com a notícia da detenção pela PJ de elementos do Chega, e por ter insistido na pergunta sobre se Ventura reconhecia estas pessoas como seus eleitores. O jornalista não largou o tema, mesmo depois de Ventura ter apresentado uma série de subterfúgios para poder fugir à questão, desde “porque é que não fazem a mesma pergunta a Seguro”, a “isto é uma luta contra o socialismo”, passando por “o Chega tornou-se uma partido muito grande”, a qualquer coisa “Ferro Rodrigues”, finalizando com a habitual vitimização de “vocês não me deixam falar, tenho de começar a falar rápido, senão vocês não me deixam falar”.
Três entrevistas em três dias, e o que lhe resta dizer é que “vocês não me deixam falar”. Não é defeito, é feitio.
SIC e TVI não entrevistaram Ventura, mas lá chegarão. Trump falou em Davos, confundiu Gronelândia com Islândia, disse que “se não fossem os americanos vocês estariam a falar alemão” num palco da Suíça, onde curiosamente se fala alemão.
Excelente a peça da SIC sobre o grupo 1143, que se apresentava como “equipa desportiva” ao mesmo tempo que filmava simulações paramilitares algures em Palmela e tinha o sonho húmido de se tornar milícia armada do Chega.
Seguro fez uma pausa na campanha, portanto desapareceu dos noticiários. Se não fossem os apoios dos vários quadrantes políticos que entretanto começou a receber, as televisões tinham-se esquecido de como o homem se chamava. Castro Almeida, confrontado com a opção de escolha na segunda volta das presidenciais, disse que Seguro é “um melão por abrir”, uma citação da frase de Marcelo sobre o pacote de habitação do Governo há três anos. Isto é só intelectuais.
Muito bem a TVI a destacar o discurso de Marcelo sobre os 40 anos de Portugal na CEE, em Estrasburgo: “Não há portugueses puros”. José Alberto Carvalho abriu as hostilidades para o tema central das notícias dos próximos dias, referindo que “vem aí um comboio de tempestades”. Como se viu pelo impacto da depressão Ingrid nos dias que se seguiram, parece-me que este foi o primeiro comboio em Portugal a chegar pontualmente ao seu destino nos últimos anos.
Domingo, 25 janeiro
O canal NOW, ou seja, a CMTV com fato e gravata, entrevista o líder do Chega, André Ventura.