terça-feira, 21 jul. 2026

Portugal mundial

Foi talvez a primeira vez em que fez algum sentido uma televisão entrevistar Ventura, uma vez que o líder do chega e Montenegro ainda estavam na fase de “bromance”. Uns dias depois, Ventura deu o dito por não dito e o pacote laboral caiu. De uma forma ou outra, é sempre ele que controla a narrativa.

Segunda-feira, 15 de junho

No prime time da SIC Notícias, o jornalista Diogo Teixeira Pereira entrevista a vice-presidente do Rock in Rio (RiR), Roberta Medina. Tendo em conta que a SIC é patrocinadora do festival desde a primeira edição, esperava-se o habitual lambe-botismo por parte do entrevistador da casa. Mas Diogo Teixeira Pereira não foi em cantigas, depois de deixar Medina discursar sobre o crescimento da RiR, que recebeu “visitantes de 125 países, 60 por cento deles fora de Lisboa”, whiskas saquetas, o jornalista perguntou se as pessoas iriam voltar a ter as habituais dificuldades em sair do recinto. A resposta de Medina foi tão boa como a pergunta, esclarecendo que não se pode ir de carro para o RiR, a causa dos problemas é o veículo individual, utilizem os transportes públicos. O repórter insistiu, como qualquer espectador que vai ao RiR: “mas quanto tempo é razoável as pessoas demorarem a sair do local?”. Mais à frente, o jornalista foi ainda mais longe, lançando para debate o facto de a CML isentar o RiR de taxas no valor de três milhões de euros, “a oposição critica, os lisboetas não podem sentir que isto é uma injustiça?”. Roberta Medina respondeu sempre à altura, foi um duelo rigoroso e decente, muito mais excitante que o Portugal x Congo dessa semana. Quanto a Diogo Teixeira Pereira, tem muita margem para progressão pela frente.

Terça-feira, 16 de junho

André Ventura é entrevistado pelo jornalista Diogo Martins na SIC Notícias, nas vésperas do pacote laboral ser previsivelmente aprovado na Assembleia, com o apoio do Chega. Foi a décima nona entrevista de André Ventura nas televisões portuguesas em 2026, a sétima no segundo trimestre de 2026, Ventura não vinha à SIC Notícias desde 28 de fevereiro, salvo erro. Foi talvez a primeira vez em que fez algum sentido uma televisão entrevistar Ventura, uma vez que o líder do chega e Montenegro ainda estavam na fase de “bromance”. Uns dias depois, Ventura deu o dito por não dito e o pacote laboral caiu. De uma forma ou outra, é sempre ele que controla a narrativa.

Quarta-feira, 17 de junho

No meio do frenesim das televisões portuguesas no dia da estreia de Portugal no Mundial 2026, a RTP Notícias lança um direto para a fanzone na Praça D. João I no Porto, onde a repórter Isabel Venceslau antecipa a festa que se realizará ao fim do dia, quando os portugueses se juntarem ali para assistir em direto à esperada goleada de Portugal sobre o Congo. “A estrutura está montada, a cerveja já chegou”, mas a praça por enquanto ainda está às moscas, pelo que a repórter aproveita para falar com um das poucas pessoas que ali está, entrevistando um calceteiro que, à última da hora, veio tapar um buraco na praça.

O operador de câmara, firme e hirto com o seu tripé no centro da praça, demorou algum tempo a realizar a panorâmica que nos permitiria ver a repórter falar com o calceteiro. Mas, à distância, e pela voz balbuciante e anasalada do calceteiro, qualquer espectador teria percebido que se tratava de Tino de Rans, candidato a Presidente da República duas ou três vezes. A repórter perguntou ao calceteiro onde ia ele ver o jogo de Portugal, o calceteiro respondeu “em Santo Tirso com amigos, estou convencido que é desta que vamos trazer o caneco prá varanda”. A repórter agradeceu a franqueza do calceteiro, afastou-se, o direto voltou para a pivot Vânia Pereira Correia em estúdio, ninguém desfez o mistério, era o Tino de Rans a tapar um buraco no Rivoli como podia ser o Manel dos Anzóis.

Quinta-feira, 18 de junho

Plano de corpo inteiro de pivot José Alberto Carvalho no noticiário da noite da TVI revela a presença insólita de um objeto não identificado escondido na bainha das calças do apresentador. Fazem-se apostas, o que seria? Uma cópia autografada do novo calhamaço do José Rodrigues dos Santos? A primeira pedra do projeto de sonho da TVI, a Media City, o mega estúdio previsto para abrir este ano mas adiado para as calendas? A lista completa dos alvos a abater pelo grupo neonazi Movimento Armilar Lusitano? Um rádio de pilha para utilizar de emergência no próximo apagão? Nunca saberemos. O que sabemos é que, no plano seguinte, o OVNI já lá não estava.

Quinta-feira, 18 de junho

Num país com números de sinistralidade crescentes e cada vez mais trágicos, é de salientar quando uma jornalista decide perder mais do que uns minutos a construir uma reportagem atual capaz de abordar com seriedade e sensatez a maioria dos problemas rodoviários de que este país padece. A profissional Susana Bastos conseguiu-o, na reportagem que passou no noticiário da SIC na passada quinta-feira, uma peça de jornalismo que fugiu aos lugares-comuns rodoviários, desafiando as ideias feitas que subsistem sobre a caça à multa, a velocidade média de condução segura, a qualidade da infraestrutura urbana, e o efeito nefasto resultante da utilização do telemóvel ao volante. A cereja no topo do bolo foi quando a reportagem questionou o conceito de “acidente”, designação institucional e facilitista utilizada a reboque pela comunicação social, mas que apenas serve para desculpar e ilibar atos irresponsáveis cometidos por seres humanos na estrada. Foi a primeira vez que vi um canal de televisão falar sobre o conceito de “acidente”, um dos temas recorrentes em fóruns de mobilidade, mas que tantas vezes é evitado pelas nossas televisões.

Quinta-feira, 18 de junho

No meio do chorrilho de críticas internacionais ao desempenho da seleção nacional de futebol depois do primeiro jogo no Mundial 2026 contra o Congo, sobressaiu o excerto de um alegado texto de opinião de Zinedine Zidane sobre Cristiano Ronaldo e a equipa de Portugal, com frases que mais tarde se revelaram serem falsas. Ao divulgar estas fake news sem confirmar a sua autenticidade, a SIC já está naquela fase em que cria conteúdo para depois alimentar o seu próprio polígrafo.

Sexta-feira, 19 de junho

Aconteceu na SIC, mas repete-se por todos os canais, como se fosse um modelo sistematizado e instituído no atual jornalismo televisivo: na semana que passou, a praia de Santo Amaro de Oeiras foi novamente interdita a banhos após “episódio de poluição”, com descarga de químicos na ribeira da Lage. A SIC, que opera na zona, mandou uma equipa de reportagem para o local da ocorrência. Objetivo? Entrevistar populares e profissionais que ali trabalham todos os dias. Algo mais? Nada. A peça fechou sem que o repórter nos tenha esclarecido de onde veio a descarga, quem serão os responsáveis por mais este crime ambiental, que respostas legais tem a autarquia para este tipo de reincidências, não há vereadores, engenheiros, profissionais que nos possam dar uma opinião abalizada sobre o efeito destes problemas? Talvez haja, as televisões é que já não se dão ao trabalho de os procurar. Mas, como se aprende na escola, compete ao jornalista ouvir quem diz que a praia está poluída, quem diz que a praia não está poluída, e depois finalmente abrir a janela para ver se a praia está poluída e quem foi que a poluiu.

Sábado, 20 de junho

Na noite de sexta para sábado na SIC Notícias, o Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer não foi transmitido em direto, o que significa que terá sido gravado um ou dois dias antes, ou seja, antes de o Chega roer a corda ao PSD na aprovação do pacote laboral. Isso contudo não impediu que os painelistas em estúdio (e RAP remotamente) tenham arriscadamente decidido abordar na mesma a mais do que provável aprovação do pacote com maioria PSD e Chega, a chamada Cheringonça.

O Programa Cujo foi gravado numa altura em que ainda se questionava se a habitual crispação que existia entre Montenegro em Ventura poderia ser “fumaça” (palavras de Carlos Vaz Marques), sugerindo RAP um “simulacro de desavença, ou teatro do bom”, o que efetivamente haveria de acontecer, só que ao contrário.

O golpe de teatro ocorrido na sexta-feira no Parlamento tornou o Programa Cujo da SIC Notícias absolutamente datado, teria feito sentido o moderador Carlos Vaz Marques ter referido que a emissão era gravada, afinal nada o impedia legalmente de dizer. Até porque, como antecipou João Miguel Tavares de forma visionária, “no bate-boca entre Montenegro e Ventura já se percebeu que as palavras de André Ventura não significam grande espingarda”.