segunda-feira, 07 set. 2026

Os idos de julho 

Ventura cria o evento, faz a festa, cobra bilhetes, recolhe os dividendos. Sabemos que, aos dias de hoje, Ventura é capaz de tudo, não interessa aqui julgá-lo incessantemente, o que me interessa atualmente é apresentar todos aqueles que diariamente são cúmplices da sua ascensão. 

Sábado, 25 de julho

A emissão da SIC Notícias segue diretamente para Lagos, onde o ministro da administração interna, Luís Neves, fala aos jornalistas. A repórter da CNN Portugal, Patrícia Manguito, domina o direto da SIC Notícias com as suas questões, o ministro responde diligentemente, não se percebe onde está o repórter da SIC Notícias que deveria estar a fazer perguntas para o seu canal, o ministro finaliza o seu direto, e a repórter da CNN vira-se e começa a falar em direto para a SIC Notícias, o direto da SIC Notícias é interrompido e a emissão devolvida rapidamente ao estúdio para a pivot Madalena Lourenço, apanhada na curva pelo bizarro da situação. Fui ver a emissão da CNN Portugal à mesma hora, para entender o que se teria passado, pelo que depreendi a repórter Patrícia Manguito não se enganou na câmara para onde teria de virar, portanto deduzo que, por momentos, a SIC Notícias tenha estado a transmitir o sinal da CNN Portugal, alguma coisa errada ali não estava certa.

Domingo, 26 de julho

A final do Casados à Primeira Vista durou quase quatro horas, foi uma chafurdice, gostei muito. A produção conseguiu juntar quase todos os concorrentes, incluindo o Carlos, o tal concorrente de 77 anos com a “idade metabólica” de 67 anos, que teve duas oportunidades para ser feliz com duas companheiras diferentes durante o reality e conseguiu falhar as duas vezes. O Carlos fez birra durante a emissão da final, esclarecendo que apenas estava ali porque o contrato assim o obrigava. A emissão aqueceu a partir das onze da noite, quando o Rui Filipe foi apanhado numa série de mentiras, por momentos o reality tornou-se um roast ao Rui Filipe, com uma sucessão de ataques que impediram o jovem de conseguir esclarecer os seus argumentos, se é que os tinha. O ponto mais espectacular da noite, e talvez igualmente o mais desnecessário, foi a Quinita aparecer toda recauchutada, com novo rosto, nova boca, novo peito, um prémio inesperado e de certa forma injusto para uma dos concorrentes mais insuportáveis e também mais mimadas pela produção do programa. O Casados não conseguiu mudar Quinita por dentro, optou por mudá-la por fora. Seja como for, não sei como vou aguentar o mês de agosto sem a rebaldaria do Casados. 

Segunda-feira, 27 de julho

André Ventura é novamente entrevistado pela CMTV. Foi a décima-sétima entrevista de Ventura a uma televisão depois das eleições presidenciais, sete das entrevistas de 2026 foram antes das presidenciais, portanto vamos em 24 entrevistas em sete meses, com a média de quase uma por semana. É este “quase” que faz a diferença, porque as “entrevistas exclusivas” na verdade não são bem entrevistas, são quase-entrevistas, ou, se lhe quisermos chamar, são atualizações sobre as últimas novidades políticas, novidades políticas essas que muitas vezes não passam de intrigas criadas pelo Chega para dominar a narrativa da informação. Dois dias depois da entrevista à CMTV, André Ventura foi entrevistado pela CNN Portugal. Razão? O esclarecimento sobre o putativo assalto ao gabinete do Chega no Parlamento do dia anterior. Portanto, Ventura cria o evento, faz a festa, cobra bilhetes, recolhe os dividendos. Sabemos que, aos dias de hoje, Ventura é capaz de tudo, não interessa aqui julgá-lo incessantemente, o que me interessa atualmente é apresentar todos aqueles que diariamente são cúmplices da sua ascensão. 

Segunda-feira, 27 de julho

Final de tarde estival, a CMTV está em alerta amarelo, com diretos de vários pontos do país em dia de incêndios, seguimos com Raquel de Sousa para Almeirim, a Raquel está num café com uma série de reformados em alegre cavaqueira, nota-se que passaram a tarde a mamar jolas, a Raquel tenta falar com um senhor que a) ou não compreende a pergunta ou b) não será capaz de verbalizar a resposta, “teve receio que o fogo chegasse perto daqui?”, e o senhor balbuciou “foi perto” enquanto tentava manter-se desperto, a Raquel concluiu que ele não seria português, mas o homem era cem por cento português e cinco por cento álcool, a atestar pela quantidade de garrafas vazias que se viam em cima da mesa ao fundo. 

Terça-feira, 28 de julho

De manhã, as imagens do gabinete do Chega vandalizado, à tarde nova polémica envolvendo a crónica de Joana Marques na Renascença, entretanto o país desperta para a flotilha de influencers portugueses convidada pelo governo de Israel para “elucidar” seguidores sobre o que se passa em Gaza. Fui ver como reagiram os principais noticiários da noite aos grandes assuntos do dia, apenas a RTP deu destaque de abertura ao Chega, nem uma palavra sobre a Joana Marques ou a flotilha de influencers pró-Israel. Em dia de incêndios, os nossos noticiários mantiveram o seu foco e souberam fugir à polarização das redes sociais. Destaco a excelente cobertura de Andreia Marques e Francisca Genésio dos incêndios no distrito da Guarda, e de Andreia Borges Pinto em Valpaços, todas elas pela TVI. 

Quarta-feira, 29 de julho

Fui ver como reagiram os noticiários da hora de almoço aos grandes temas da semana. A RTP abriu com o incêndio de Valpaços, excelente o acompanhamento pelo repórter Francisco Graça. Logo a seguir, finalmente uma peça sobre a ida dos influencers a Gaza a convite de Israel. “Isto é propaganda?”, pergunta a RTP ao especialista em comunicação, Vasco Ribeiro: “Claro que sim, a propaganda é omnipresente”. A RTP depois seguiu para os seus enviados especiais em Gironde, França, com Cristiano Costa, e Ávila, Espanha, com Ana Romeu, ambos com excelente trabalho. A SIC, mais uma vez em contenção de despesas ou a contar os tostões para os Globos de Ouro, não mandou ninguém para cobrir os grandes incêndios do país vizinho e do vizinho do país vizinho nestes dias, o que acho estranho, visto que no fim de semana anterior a SIC tinha Guilherme Monteiro na Gironde. A SIC compensou com um direto extraordinário da repórter Marta Candeias Ferreira a recapitular sem falhas a tragédia do desaparecimento do paddler Arran Strong na costa de Aljezur. A SIC não deixou passar a história dos influencers em Gaza, “para perceber as dinâmicas”, história essa que, para a TVI, nunca existiu. Mas, pelo menos na noite anterior, existiu um polígrafo extremamente interessante sobre as “frutas da obesidade” (contém sarcasmo). Muito bem a TVI a enviar equipas para os incêndios em Espanha e França: Tânia Rei em Ávila, Miguel Domingos na Gironde. A TVI fez uma peça ridícula sobre uma medida ridícula, a proibição de trotinetes e bicicletas partilhadas em Espinho, recolhendo apenas depoimentos de populares a apoiar a decisão e do político que tomou a iniciativa, mais uma vez não houve lugar ao contraditório sobre uma decisão política que merece sempre a análise de especialistas em moblidade e ordenamento urbano, para não falar dos responsáveis pelo negócio de aluguer de mobilidade suave, que saem sempre impunes destes debates.

Quarta-feira, 29 de julho

Há uns bons anos, fui enviado pela revista Volta ao Mundo em missão para a Tunísia, para escrever uma reportagem sobre a fantástica cidade e futuro património UNESCO de Sidi Bou Said. Durante a viagem, o meu fotógrafo e eu tivemos sempre a sombra de um “diretor turístico” e seu motorista, que tinham a responsabilidade de nos levar a todos os locais onde eles desejavam que fizéssemos a reportagem. Afinal de contas, a viagem era um convite da delegação tunisina, portanto só estávamos ali para visitar aquilo que eles queriam que visitássemos. De certa forma, foi isso que os influencers portugueses foram convidados a fazer em Israel este verão: visitar o território de guerra em Gaza, segundo a perspetiva e estética da propaganda israelita. 

Evitando aqui polarizações rotineiras tipo redes sociais, o que me parece que a polémica dos influencers em Gaza mais veio revelar foi a fragilidade ou a perceção do jornalismo tradicional tal como o conhecemos. Como é possível que meia dúzia de comunicadores instantâneos das redes sociais tenham atualmente mais destaque na opinião pública que profissionais de imprensa e televisão que andam há anos a fazer o seu trabalho? Pior: mais do que fazerem um exame de consciência e autoanálise sobre a perceção e alcance do seu exercício, a imprensa escrita e as televisões continuam a dar palco àqueles que, evidentemente, lhe irão sobreviver.     

Quarta-feira, 29 de julho

A polémica da crónica de Joana Marques sobre o “autismo” da influencer Mafalda Matos não chegou a polarizar os nossos noticiários televisivos, mas chegou aos programas de tricas, como a Passadeira Vermelha na SIC, com Joana Latino, que arrasou Gustavo Santos, depois de Gustavo Santos ter supostamente ofendido Joana Marques, por esta supostamente ter ofendido Mafalda Matos, por Mafalda Matos supostamente tirar vantagem do facto de ser neurodivergente, uma das palavras do ano já. Joana Latino: “Faz-me lembrar uma frase que meu pai dizia, se pensamos como um martelo, todos os problemas são pregos e passamos o dia à martelada, que é o que faz o Gustavo Santos”. 

Quinta-feira, 30 de julho

Passaram dois dias do terrível assalto ao gabinete do Chega no parlamento, mas o tema estranhamente desapareceu das notícias e da opinião pública. Aconteceu, foi encenado, vai haver investigação, que documentos comprometedores foram furtados, como foi possível a moldura da santinha não se ter quebrado ao cair no chão? Pelos vistos já ninguém quer saber. Mas Miguel Sousa Tavares no noticiário da TVI levanta uma dúvida pertinente: “o assalto à sede do Chega é que merecia uma comissão de inquérito”.  

Sexta-feira, 31 de julho

Em direto para as televisões, o Presidente da República, António José Seguro, refere que “a dignidade das instituições deve ser preservada”, afirmação essa proferida em frente a uma janela onde está uma t-shirt a secar. A sorte que foi não terem sido umas cuecas. 

Sábado, 1 de agosto

Oito meses depois de ter sofrido um AVC, o humorista Nuno Markl deu uma grande entrevista a Daniel Oliveira no Alta Definição da SIC. Não sou grande fã do modelo de falsa entrevista preguiçosa do anfitrião, mas reconheço que há alguma coisa que funciona: mesmo quando Daniel Oliveira parece não estar ali, ou a não fazer as perguntas que determinadas respostas exigem, o convidado nunca pára de falar ou de confessar aquilo que queremos saber. E, neste caso concreto, aquilo que queríamos saber de Nuno Markl era: como está a saúde do homem, como foi que tudo aconteceu, o que provocou a situação, como será o futuro. Markl, que já perdeu vinte quilos, atribuiu os AVCs à habitual negligência dos homens para com a sua saúde e à habitual obsessão dos homens para com a sua produção de trabalho (na verdade, o Markl não distinguiu sexos, isto sou eu a efabular, porque, enfim, parece-me que as mulheres trabalham muito porque têm de trabalhar muito, os homens trabalham muito porque podem trabalhar muito). A entrevista passou pelos habituais clichés associados à quase-morte, clichés esses que Markl assumiu e repetiu voluntariamente, o ponto alto do humor foi Markl receber no hospital a visita de Catarina Furtado no momento exato em que estava a fazer efeito o laxante que o paciente havia tomado. O que mais me impressionou na conversa foi o humorista confessar que começou a receber propostas de trabalho antes sequer de ter tido alta, e o facto de, mesmo depois de ter tido um segundo AVC, Markl receber mensagens de ódio, tais como: “à terceira será de vez”. O mundo está doente.

Domingo, 2 de agosto

José Gabriel Quaresma em direto na CNN Portugal exclama: “Meio-dia e cinquenta e um, o Partido dos Trabalhadores anuncia hoje a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva à presidência do Benfica”...