O filme das eleições presidenciais ao minuto, ao segundo, e ao terceiro

A noite não foi afinal assim tão longa, mas deixou tudo em aberto, a começar pela ferida da social-democracia e, por consequência, da democracia em Portugal. Quem tem razão é a CMTV, a contagem decrescente para o fim do mundo começou
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Domingo, 18 janeiro de 2026, seis da tarde, ainda falta uma hora para fecho das urnas e já as televisões começam a encher chouriços, dizendo que “está tudo aberto” e “vai ser uma noite longa”, como se isto fosse a noite dos Óscares. Na RTP2, Portugal ainda joga contra a Macedónia do Norte no Europeu de Andebol, é normal que as audiências ainda derivem. Os canais principais emitem música pimba, os canais de notícias anunciam que Ventura vai à missa, nas redes sociais Augusto Santos Silva está pior do que uma barata, um hacker conseguiu entrar no seu perfil e publicar um post a apelar ao voto no Almirante Gouveia e Melo, deduzo que Santos Silva ainda não tenha aprendido a apagar comentários e bloquear trolls.

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A RTP Notícias começou a trabalhar nas presidenciais desde as 18h00, com José Rodrigues dos Santos, Ana Lourenço, e a principal contratação do mercado de inverno da RTP, Maria Castello Branco. Fala-se que será a maior participação eleitoral presidencial em 20 anos, pelo menos mais do que em 2021, quando estávamos em pandemia e ainda não tinha caído a máscara a Marcelo. Sócrates é apanhado a dizer que as eleições são “a escolha entre um mal e um mal pior”, frase que define a noite. As televisões procuram soundbites dos últimos eleitores a votar, uma senhora em Coimbra diz que “vim mais tarde, achei que ia estar menos gente mas está mais gente”, excelente para levar a concluir taxativamente que “há mais gente a votar no fim do dia que pensava que ia estar menos gente a votar ao fim do dia, desde 2006 que não se via semelhante coisa”.

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A CNN anuncia o início de uma emissão especial às 18h50, são 18h50 e ainda não aconteceu nada de especial, mas às 18h51 José Luís Carneiro é o primeiro a chegar à vernissage, deve querer ir para casa cedo. Reparo então que, mais uma vez, as nossas televisões têm poucas mulheres como pivots e ainda menos mulheres a comentar, é verdade que a Maria Castello Branco conseguiu a proeza de comentar exclusivamente para a SIC Notícias, para a CNN Portugal e, agora, para a RTP Notícias em menos de dois anos, mas não há mais Marias por aí?

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São 19h00, “as urnas acabam de encerrar!” grita a CMTV, naquele tom de ansiedade e countdown para o fim do mundo, o operador de câmara persegue Catarina Martins acabadinha de chegar à sede de campanha, entretanto a realização corta para André Ventura, que chega com a esposa à missa, duas palavras e siga, há uma senhora a pedir esmola nas escadas da igreja, o casal Ventura passa por ela sem pestanejar.

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Já são sete da noite, Portugal empatou com a Macedónia em andebol 29-29, nenhum canal apanhou uma urna sequer a fechar-se, é uma pouca-vergonha, é um momento único que az lembrar as tartarugas a regressar ao mar. Seguro está nas Caldas da Rainha, Jorge Pinto em Amarante, Ventura continua na missa, parece a noite de consoada, cada um acredita no deus que quiser. A RTP é o primeiro canal nacional não-informativo a entrar no ar com as presidenciais, às 19h16 João Póvoa Marinheiro atravessa o estúdio da CNN para se sentar ao lado de Pedro Adão Silva e Miguel Relvas, Relvas sempre com aquele ar de quem acabou de sair do duche.

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A RTP Notícias faz o recap dos candidatos a votar durante a manhã, Seguro e Ventura exímios a fazerem o boneco para a fotografia mostrando o voto a entrar na urna, Gouveia e Melo, menos hábil nestes papéis, esquece-se da performance e deixa cair o voto na urna sem sequer uma pose. Manuel João Vieira só votou da parte da tarde, portanto perdeu a presença nos noticiários da hora de almoço, será que a árvore que cai na floresta faz algum som se não estiver ninguém na floresta para a ouvir cair?

São 19h30, a SIC e a SIC Notícias iniciam em simultâneo a longa noite de todas as decisões, com Rodrigo Guedes de Carvalho, Clara de Sousa e Bento Rodrigues. Clara Ferreira Alves estreia-se nestas andanças de comentários eleitorais, e Sebastião Bugalho será uma espécie de Maria Castello Branco mas de calças (a bem da verdade desportiva, eu não sei se a Maria Castello Branco usa saias, nem sei se Bugalho não as usa).

A SIC entretanto confirma que Seguro ficará em casa até ter necessidade de sair, e “só sai quando tiver resultados claros”. E, diriam os portugueses, quando tiver resultados seguros. Às 19h33, a CNN apresenta o seu painel com Margarida Davim, Pedro Santos Guerreiro, Anselmo Crespo e Helena Matos; Helena Matos começa por dizer que “votar dá trabalho, mas temos de discutir a forma como votamos”, talvez tenha sido a primeira e única vez na vida em que eu concordei com ela. A CNN, sempre com aquela mania de inovar, insere então uma barra lateral vertical, tipo timeline de redes sociais, onde profissionais podem publicar posts sobre a noite eleitoral, mas a barra vertical da timeline choca com o oráculo horizontal do canal, e a emissão visual acabou por ficar com muito “clutter”, ou barulho, como dizem os designers.

A TVI inicia emissão da noite às 19h45, numa linha editorial diferente da CNN, com José Alberto Carvalho e Sandra Felgueiras a moderar os painéis, por momentos dá a ideia que a TVI está em directo do Palácio de Belém (claro que não estava, mas na dúvida o trompe d’oeil beneficiou o canal). Boa a introdução por parte da TVI dos profissionais que acompanharam a campanha dos candidatos, sendo sempre de destacar Carla Moita, jornalista que eventualmente terá feito um pacto com o diabo, uma vez que parece nunca envelhecer.

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Sara Pinto sentou-se a uma mesa desproporcional que era pequena demais para tantos convidados presentes, parecia que o staging tinha sido feito por aquela malta das novelas que enche as mesas de pequeno almoço de pães e bolos e depois ninguém come nada.

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São 20h00, Seguro é anunciado em uníssono em todos os canais como vencedor da primeira volta das presidenciais, Marques Mendes tem derrota histórica, a dúvida reside sobre quem fica em segundo lugar, quem vai à segunda volta, a “longa noite” do “está tudo em aberto” permanece em aberto, mas a pergunta para queijinho é de Pedro Benevides, “para onde foram os votos da AD das legislativas?”.

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As televisões seguem em directo para as Caldas da Rainha, Seguro sai formoso de casa a caminho da sede de campanha, ainda não disse nada e já perdeu a voz, mas conseguimos ouvi-lo sussurrar o seu apreço pelos portugueses que hoje sacrificaram o magnífico dia de sol e de praia para ir votar. A SIC entretanto divulga um número que coloca Manuel João Vieira à frente de António Filipe, dando a entender que os portugueses afinal ainda têm esperança de poder vir a ter vinho canalizado. “Por um lado é uma vitória, por outro lado uma desvitória”, comentou o candidato Vieira.

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Às 20h26, Ventura sai da missa directamente para o seu culto de personalidade, sendo perseguido pelas televisões como se já tivesse ganho a terceira volta. “Vamos ter luta entre socialismo e não-socialismo”, proclama o extremista. Miguel Morgado na SIC é o primeiro a assinalar a derrota copiosa do PSD, que pela primeira vez abdica de liderar o seu próprio espaço político. No Twitter, Zé Pedro Silva comenta que o derrotado Marques Mendes ainda vai a tempo de comentar na SIC esta noite o seu resultado político. O que parece uma brincadeira acaba por tornar-se realidade: antes das nove e meia da noite, Marques Mendes anuncia que não é “dono dos votos de quem em mim votou”, pelo que os seus votos podem ir na boa para Ventura na segunda volta, que ele, ou sequer Montenegro, não querem saber.

A noite não foi afinal assim tão longa, mas deixou tudo em aberto, a começar pela ferida da social-democracia e, por consequência, da democracia em Portugal. Quem tem razão é a CMTV, a contagem decrescente para o fim do mundo começou.