terça-feira, 09 jun. 2026

Não chames pela saudade, que a saudade não te quer

Internamente, podemos dizer que a canção dos Bandidos era fiel à nossa tradição, mas algo me diz que a Europa se cansou finalmente do registo habitual de canções que enviamos à Europa

Segunda-feira, 11 de maio

“O Sporting venceu a Liga dos Campeões de futsal. O Porto é campeão europeu de hóquei em patins. O Barcelona é bicampeão espanhol de futebol. Portugal conquistou mais duas medalhas nos mundiais de canoagem. O Porto conquistou o título nacional de voleibol feminino. O Benfica perdeu a final da Liga dos Campeões feminina de hóquei em patins”. Foi assim o noticiário da tarde da RTP entre as 13h35 e as 13h55 de segunda-feira da semana passada, vinte minutos dedicados a sucessos e derrotas no desporto nacional e internacional, um típico do mês de maio, em que se definem as grandes competições desportivas. A questão que coloco é: como se edita um noticiário nestas condições, quem determina que vinte minutos serão dedicados a fenómenos desportivos destes, que clubes e modalidades devem ser puxadas para alinhamento principal e quais as que devem sair?

Antigamente era tudo mais simples, a programação estava devidamente segmentada e tínhamos programas de informação geral, quase sempre com política nacional, onde raramente entravam outros temas, como desporto, sociedade e cultura, que tinham direito a programas próprios noutros horários. Hoje é um bordel, a informação passou a infotainment, e o noticiário tanto pode abrir com a crise do Irão, a Ovibeja ou as eleições do Benfica. Os alinhamentos são uma espécie de tetris de peças que o editor tem de ajustar depois de receber sugestões do cacique que porventura estiver disposto a ser diretor de informação do canal público ou privado nesse momento. Pior, numa altura em que a informação deve ser inclusiva, ou seja, agradar a tudo e a todos, o critério editorial tal como o conhecíamos é o primeiro a ser sacrificado, perdão, talvez seja o segundo, porque o primeiro, como bem sabemos, já foi a verdade. E nessa tirania da inclusão, como se define o que fica do que sai, a vitória do futsal feminino paralímpico sub15 do Sporting no Cazaquistão deve ser notícia em detrimento do empate dos juniores de parapente do Braga em Rabat, onde uma equipa portuguesa não empatava há 63 anos? Será woke continuar a incluir tudo e todos? E woke afinal é bom ou mau? Eu não queria estar no papel de quem tem de tomar estas decisões todas hoje em dia. 

Terça-feira, 12 de maio

Em 2025, a Moldávia desistiu de participar na Eurovisão depois de constatar que as canções submetidas a concurso no seu festival eram demasiado más para internacionalização. Portugal, ou a RTP, que este ano optou por não boicotar a Eurovisão, podia ter tomado uma decisão honrosa semelhante à da Moldávia, bastava ter a coragem de admitir que não havia nada de jeito no Festival da Canção, e saía à francesa, este ano desistimos, beijinhos, até para o ano. 

No entanto, não foi isso que aconteceu, os Bandidos do Cante ganharam o Festival da Canção, mas não encantaram sequer a maioria dos portugueses. E na Eurovisão nunca tiveram hipóteses, foram eliminados na meia-final, algo que não acontecia desde 2019 com Conan Osíris: os Bandidos ficaram em 12º lugar, com apenas 74 pontos, menos dezassete que a última canção apurada, a Bélgica. 

Internamente, podemos dizer que a canção dos Bandidos era fiel à nossa tradição, mas algo me diz que a Europa se cansou finalmente do registo habitual de canções que enviamos à Europa. Isso deveria bastar para tanto a RTP como os nossos artistas fazerem uma análise profunda sobre o estado a que isto chegou, mas a verdade é que, este ano, na obsessão de contrariar o boicote, esquecemo-nos de chamar a música. E, argumento à parte, convém sublinhar que a decisão da RTP de não boicotar a Eurovisão este ano também foi um acto político.

Terça-feira, 12 de maio

Primeiro eram os frente-a-frente, com Ventura a ser entrevistado pelo melhor profissional do canal disponível nesse dia. Depois passaram a ser dois os entrevistadores para um só entrevistado, com Ventura a enfrentar dois jornalistas e/ou comentadores. Agora, como se viu na CNN Portugal, o debate é com quatro comentadores e um moderador, ou seja, já não é uma entrevista mas uma “espera”, como aquelas que se faziam no recreio. A solução das televisões para entrevistar o Ventura atualmente faz-me lembrar as opções políticas com as autoestradas, vamos abrir mais uma faixa para resolver o problema. O problema, como se vê nestes casos, não é a autoestrada, mas a abordagem que se tem ao pensar em abrir uma autoestrada. 

Quarta-feira, 13 de maio

O noticiário da hora de almoço da SIC apresentado por Bento Rodrigues segue em direto para Fátima, onde a repórter Marta Sobral entrevista Carla, uma emocionada peregrina, que fala com lágrimas nos olhos da sua estreia nestas andanças, referindo que sai da procissão do adeus de “coração cheio”, Fátima é um “local de muita emoção”, entretanto lá atrás vê-se chegar o emplastro, aquele senhor pitoresco que se atrai pelas câmaras de televisão como inseto pela luz, e não é que o emplastro, como é sua natureza, tenta aproximar-se das luzes da SIC e do sucesso, mas é impedido por dois peregrinos que, fiéis ao espírito de amor, da emoção e da paz que se comunga em Fátima, empurram o pobre do emplastro; enquanto a Carla discursa sobre a união dos peregrinos, que se protegem uns aos outros, os “porteiros da Carla” ameaçam de coração cheio quem se interponha na entrevista da SIC, e o direto termina com o emplastro de cabeça perdida pela Cova da Iria, numa cena triste que revela a distância que vai entre aquilo que professamos e aquilo que realmente praticamos.

Quinta-feira, 14 de maio

Fim de tarde na CMTV, o jornalista Paulo Catarro convida quatro profissionais para comentar os grandes temas desportivos do dia, com o apoio incontornável do engraçadinho que habitualmente redige os oráculos e rodapés dos programas desportivos do canal. Um dos temas é o interesse de CR7 nos negócios da transmissão de futebol em streaming e redes sociais, tema este que leva o painel a comentar e censurar a forma desinteressada como os espectadores hoje consomem produtos televisivos. “Os jovens não vêem televisão”, confirma um dos comentadores, Pedro Sousa, que só larga o telemóvel quando é a sua vez de intervir. Depois dele, o comentador Vítor Pinto diz a mesma coisa, larga o telemóvel para falar, regressa ao telemóvel depois de perorar. Idem aspas para os restantes comentadores, que deixam de se ouvir uns aos outros, afundando a sua atenção nas redes sociais. Como sempre, o único profissional acordado na CMTV é o engraçadinho que continua apaixonadamente a escrever oráculos como se fossem haikus, se alguém merece receber um aumento no final do ano é ele.

Sexta-feira, 15 de maio

A RTP2 transmite a entrega dos Prémios Sophia em direto de uma sala meio-vazia no Centro Cultural de Belém sob o lema Projectar o Presente, Imaginar o Futuro . É bom ver nestes anos o cinema português arregimentado num património comum, a cultura nacional, é bom ver os profissionais juntos num evento que os une e os reconhece inter pares, é bom ver o cinema português finalmente a saber comunicar e divulgar os seus projetos, a juntar-se numa festa em família que se orgulha do seu desempenho profissional. Por isso mesmo, é triste ver uma cerimónia amadora destas ser transmitida em directo num canal nacional, mesmo a Inês Lopes Gonçalves, que foi a host da noite, parecia estar num live do YouTube, a sala vazia parecia fazer eco, não haveria forma de encher esta sala com alunos de escola de cinema, com amigos e família dos profissionais de cinema, ou a ideia era esta sala ser tão vazia como muitas das salas de cinema onde se “projeta o presente” do cinema português?

Sábado, 16 de maio

Final da Eurovisão. Montenegro dá 12 pontos à Sérvia. Chipre dá 12 pontos à Grécia. A Grécia dá 12 pontos a Chipre. A Polónia dá 12 pontos a Israel. Israel mais uma vez apresenta uma canção igual a tantas outras, mas estranhamente recebe um volume invulgar de pontos do público que vota em toda a Europa, é como se aqueles que votam na canção israelita estivessem demasiado ocupados ao telefone para sequer ouvir a canção da sua escolha, o público português, por exemplo, deu 12 pontos a Israel e 10 à Ucrânia, mas, enfim, como se sabe, na Eurovisão música e política não se misturam…