segunda-feira, 14 set. 2026

Fim de verão

Engraçado no meio disto tudo, é Nelma Serpa Pinto a dada altura perguntar a Ventura sobre “quais são as linhas vermelhas do Chega”, quando antes se fazia precisamente essa pergunta a outros partidos em relação ao próprio Chega. Os tempos mudaram, as televisões não.

Domingo, 16 de agosto

Reunião da direção de informação da SIC, intervenientes desconhecidos, diálogo fictício:

- Como é que está o debate sobre as mulheres conservadoras na SIC Notícias para esta noite?

- Tudo tratado. Já temos confirmada a presença das duas convidadas.

- Quem são?

- Do lado do feminismo, temos Catarina Marques Rodrigues, jornalista, autora, licenciada em ciência política, especialista em temas de género, distinguida pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.

- Muito bem. E contra o feminismo.

- Contra o feminismo temos a Rute Sousa.

- A Rute Sousa?

- Sim, aquela influencer que foi convidada por Israel para visitar os túneis do Hamas em Gaza e dizer mal da flotilha humanitária.

- Essa Rute Sousa?

- Sim. Aparentemente é “especialista em comunicação”...

- Ela não era do PSD?

- O Ventura também não era do PSD?

- Não devíamos convidar o Ventura, então?

- O Ventura não dá, porque já está agendado para uma entrevista exclusiva à SIC Notícias na próxima terça-feira, não convém ele vir assim tantas vezes, até parece mal…

Segunda-feira, 17 de agosto

Três semanas depois de ter terminado o Casados à Primeira Vista, Júlia Pinheiro recebe a visita de Elisabete e João, o inesperado e improvável casal que nasceu depois da separação de dois casais originais durante o reality da SIC. Embora nenhum dos dois, Elisabete e João, fossem concorrentes polémicos ou polarizantes do Casados, ambos conseguiram “cultivar uma aura” e ser uma referência no modo elegante e airoso como enfrentaram noivados instáveis e casamentos desastrosos. Por isso, e como eu tenho sempre um pezinho a atirar para o chinelo, confesso que tinha alguma curiosidade em ouvi-los. Tinha, mas rapidamente perdi. O problema é que a Júlia Pinheiro é o oposto de Daniel Oliveira, enquanto ele faz duas perguntas e deixa os convidados a choramingar, a Júlia faz 385 perguntas, corta para intervalo, segue para publicidade a calcitrin ou baba de caracol, e depois regressa para mais uma linha de interrogatório intensa, neste caso a duas pessoas que, ao longo do reality, perceberam que ganhariam mais se mantivessem a discrição, o recato e o bico calado. Condição que conseguiram igualmente garantir com Júlia Pinheiro.

Segunda-feira, 17 de agosto

Na segunda-feira da última semana de incêndios de agosto em Portugal, o desgraçado do repórter Filipe Pinto da RTP fez noitada nos arredores de Torre de Moncorvo, distrito de Bragança, onde lavrava um dos maiores incêndios da época. Como tantas vezes acontece, calhou-lhe na rifa fazer um directo pela noite dentro com os habituais espectadores que passam os dias no café central da aldeia de Lousa a testemunhar as tragédias de verão acompanhado de minis e outros xiripitis. Um desses valentes, entrevistado pela RTP Notícias por volta da meia-noite, dizia repetidamente que “é muita faena, é muita faena”, e que tudo aquilo lhe parecia “incroyable”, mas não “incroyable” pela dimensão dos fogos ou as vítimas da tragédia, o homem lamentava que “antigúamente”, repito, “antigúamente havia um fogo aqui e os bombeiros de Moncorvo faziam o serviço, agora não, agora os bombeiros vêm do centro do país, c’est incroyable ça!”. Portanto o país está num estado tal de xenofobia e ódio epidérmico que até um emigrante nascido em Moncorvo sente ressentimento pela ajuda que venha de outra região do país que não a sua. Os bombeiros bem podem apagar os fogos de verão, que as chamam continuarão a consumir a cabeça de alguns muitos intolerantes pelo outono adentro.

Terça-feira, 18 de agosto

Recebi através da app da CNN Portugal a notificação sobre uma reportagem que, pessoalmente, e por razões que explicam o meu amor a Lisboa, me interessava muito ver, a de um autocarro chamado Azulinho, que percorre e transporta os moradores do bairro lisboeta de Alcântara, autocarro esse que é conduzido por um motorista a quem, na zona, chamam de Maradona. Não encontrei a reportagem na programação da TVI ou CNN (fiquei entretanto a saber que passou no dia 14 de agosto), acabei por ver uma versão online legendada incapaz de satisfazer a minha curiosidade sobre os bairros, nações e desafios que existem em Alcântara, só depois percebi que por detrás da versão em suporte audiovisual, a reportagem foi escrita e publicada no site da CNN Portugal por Cláudia Valente de Oliveira. Ou seja, há uma excelente reportagem jornalística escrita à antiga, e depois há uma versão filmada para aplicação e redes sociais que tem interesse zero, porque, entre uma e outra, é preciso editar o tempo de atenção do leitor e do espectador, e todos sabemos que a peça que terá mais tração será sempre a versão mais curta, para redes sociais e inglês ver. E, na versão mais curta não há tempo a perder, na urgência de despachar perde-se a história que Alcântara tem, o tempo que ela exige, e perdem-se os dramas que os bairros terão de enfrentar com a gentrificação, as expropriações e o futuro.

Terça-feira, 18 de agosto

A SIC Notícias agradece a presença de André Ventura, que, na sua habitual digressão quinzenal pelas nossas televisões, vem antecipar a rentrée política do Chega em directo para todo o país. É a terceira entrevista de Ventura à SIC nos últimos três meses, é a vigésima-sexta entrevista do líder do Chega a um canal televisivo este ano.

Esta noite na SIC Notícias, com Nelma Serpa Pinto, falou-se da rentrée política, de Luís Neves, do Orçamento do Estado, e da Segurança Social. “Temos mesmo de terminar, tem novidades sobre a vandalização do seu gabinete?”: a jornalista entretanto deixou para o fim da entrevista a pergunta sobre o grande mistério deste verão, o alegado assalto ao gabinete do Chega na Assembleia da República há apenas um mês, notícia com o qual se abriram noticiários, fizeram debates televisivos, e bloqueou-se amigos nas redes. Agora, e depois de tanto alarido, só houve um minuto para responder. Como “temos mesmo de terminar”, Ventura também não se alongou e respondeu: “agora temos de deixar as autoridades trabalharem”.

Engraçado no meio disto tudo, é Nelma Serpa Pinto a dada altura perguntar a Ventura sobre “quais são as linhas vermelhas do Chega”, quando antes se fazia precisamente essa pergunta a outros partidos em relação ao próprio Chega. Os tempos mudaram, as televisões não.

Quarta-feira, 19 de agosto

O filósofo Ayrton Senna uma vez disse que “o segundo classificado é o primeiro dos perdedores”, e isso de certa forma resume o sentimento de frustração sobre a segunda entrevista que o humorista Nuno Markl deu a uma televisão depois dos seus dois AVCs.

Embora Nuno Markl seja indiretamente um bem da RTP, por participar no Taskmaster, foi a SIC, através de Daniel Oliveira, quem primeiro o entrevistou, há duas semanas. A entrevista que Nuno Markl deu a Vítor Gonçalves na RTP Notícias esta semana, soou por isso a requentado: o entrevistado correu poucos riscos, seguiu o alinhamento de Daniel OIiveira, e, tal como Daniel Oliveira, preferiu omitir algumas das perguntas que, segundo creio, poderiam interessar a muita gente, tais como as questões sobre a saúde, a alimentação e as rotinas diárias prévias aos acidentes vasculares do humorista. Em vez disso, a conversa mais uma vez resvalou para “os projetos”, ou seja, a futura produção de trabalho, o filme que aí vem, o regresso à rádio, a nova temporada de Taskmaster, precisamente tudo aquilo que, na ausência de perguntas e respostas sobre a saúde de Markl, mais provavelmente terão contribuído para o seu acidente.

Pior: no início da entrevista, quando reconstituiu o dia em que sofreu o primeiro AVC, Markl assinalou en passant que tudo “aconteceu às 14h50, que é uma hora que agora percebi a hora exata e já te vou explicar porquê”. Fiquei a ouvir a entrevista até ao fim para saber o porquê desta “hora exata”, mas nenhum dos dois voltou ao tema, pelo que terá certamente de ser o Daniel Oliveira a voltar a entrevistar o Markl para pôr ordem nisto.

Sexta-feira, 21 de agosto

O escritor português Valter Hugo Mãe, que tem estado em digressão literária no Brasil, foi entrevistado pelo influencer brasileiro Matheus Vinicius, (@theusviniciusfc), no lobby do que aparentava ser o aeroporto de Curitiba. No story com a conversa que foi publicada no Instagram, as perguntas são ligeiras, as respostas aéreas. A dada altura, o influenciador tenta saber quais as experiências mais marcantes que o autor teria tido através da sua profissão, ao que Valter Hugo Mãe respondeu “ser convidado por alguns presidentes da República para jantar”, tais como “o Presidente de Inglaterra” e o “Presidente de Espanha”. Deduzo que o jet lag da viagem tenha suscitado o nonsense das respostas, ou então, Valter Hugo Mãe quis apenas impressionar o seu interlocutor através de uma figura de estilo chamada pleonasmo ou efabulação, já não me lembro bem qual.

Sábado, 22 de agosto

A RTP preencheu a tarde de sábado com mais uma emissão do Chefs da Nossa Terra, uma espécie de Somos Portugal da gastronomia regional, onde vários chefs nacionais são convidados a confecionar as suas iguarias típicas, num programa apresentado pela Isabel Silva que é intercalado com artistas pimba nacionais e internacionais. A edição deste sábado teve a coincidência infeliz de incluir a prestação ao vivo da dupla sertaneja Lucas e Matheus Junior, e foi provavelmente gravada uns dias antes do falecimento de Lucas em Portugal, há duas semanas. Não sei se alguém na RTP teve noção de que o alinhamento deste Chefs da Nossa Terra incluía um artista que já tinha falecido, ou se a atuação foi uma espécie de requiem ou última valsa ao intérprete que residia em Portugal, a verdade é que pareceu tudo um pouco sinistro ao espectador lá em casa, se é que havia alguém lá em casa que estivesse acordado a ver tudo isto.