Domingo, 2 de agosto
Com o fim do Casados à Primeira Vista, a SIC precaveu-se e antecipou a necessidade de preencher os slots de domingo de Agosto, criando um produto chamado Portugal Criminal, onde se propõe recuperar e recapitalizar as mais conhecidas histórias de crime violento dos últimos tempos em Portugal. O primeiro episódio foi dedicado ao Rei Ghob, um “excêntrico” sucateiro de nome Francisco Leitão, que mais tarde se veio a revelar um louco assassino, fazendo desaparecer três jovens na zona da Lourinhã em 2010. O modelo criado pela SIC é mais Netflix e menos peça de informação, nota-se um rigor em colar-se à construção narrativa com timeline que tem garantido o sucesso dos produtos do género do canal de streaming, particularmente os documentários da Netflix sobre crime produzidos em Espanha. O primeiro episódio de Portugal Criminal foi empolgante, mas teve algumas dificuldades em prender a atenção durante as suas duas horas de duração, não teria sido descabido a SIC partir o episódio em dois fins de semana, mas, para isso, a produção teria de ter construído dois arcos de narrativa, e isso seria uma dor de cabeça para quem concebia o guião. O episódio de estreia terminou em alta, com um dos depoimentos mais brutais e corajosos do documentário, do pai de Luís Pinheiro, namorado de uma das vítimas, que nunca ultrapassou o facto de ter sido responsável por dar a conhecer uma das vítimas, a Joana, ao assassino, Rei Ghob.
Segunda-feira, 3 de agosto
Sim, a CNN Portugal lançou para as redes sociais a informação de que um motociclista teria morrido após uma colisão com um avião na Ponte 25 de Abril. Um leitor atento ao que se passa no país teria reparado no lapso da notícia, pois em vez de um avião foi um camião a embater no motociclista, mas quem pode ser leitor atento quando as notícias são lançadas com tão pouca atenção? Já há umas semanas atrás, para não fugir do tema, o NOW tinha dado a notícia de que um “aeroporto” teria aterrado de emergência no Porto…
Terça-feira, 4 de agosto
Foi a semana da coca nas nossas televisões, com a mega-apreensão pela PJ de toneladas de cocaína descobertas num porta-contentores ao largo de Sines, para não falar de outros casos na mesma semana que envolveram o sucesso das autoridades na interrupção dos circuitos no tráfico de estupefacientes em Portugal. Mas, todas as vezes que operações destas são divulgadas pelas autoridades responsáveis, coloco-me sempre na óptica do utilizador (salvo seja), com natural curiosidade sobre o que acontece a toda esta droga depois da apreensão e antes da suposta destruição. Essas dúvidas reais passaram esta semana para alguns dos nossos jornalistas, como é o caso do pivot da RTP, Hélder Silva, que, reportando sobre as sete toneladas de cocaína que a PJ Madeira destruiu esta semana, cometeu um lapsus linguae, referindo que a “quantidade de droga distribuída, perdão, destruída está avaliada em dez milhões de euros”. Na peça, um dos responsáveis da PJ acrescentou ainda que “temos que avaliar a qualidade, perdão, a quantidade do produto”, e por momentos recuei ao célebre sketch da Porta dos Fundos, em que António Tabet tem de garantir que a cocaína é mesmo cocaína, e portanto a única forma de saber se é cocaína é snifá-la.
Terça-feira, 4 de agosto
Décima-primeira entrevista de André Ventura ao grupo CMTV/ NOW este ano, vigésima-sexta entrevista do líder do Chega a uma das nossas televisões este ano, números impressionantes para um partido tão jovem e com tão poucos escrúpulos. Há, no entanto, que enaltecer a criatividade dos nossos canais televisivos, em, todas as semanas, encontrar alguém diferente dentro do mesmo canal que possa naquela semana entrevistar novamente André Ventura, como se as perguntas e a abordagem de todos estes profissionais fosse suficientemente heterodoxa e particular ao ponto de conseguir esconder a vergonha que é um político ardiloso e manipulador como Ventura ter direito a tanto tempo de antena gratuito nas nossas televisões - e em nossas casas.
Quarta-feira, 5 de agosto
A uma semana do eclipse, os portugueses entram em pânico ao perceber que precisam de comprar uns óculos adequados para olhar directamente este evento raro que é o sol a ser tapado pela lua, fenómeno esse que acontece de cem em cem anos, ou talvez já no próximo ano. As televisões espalham o frenesim, avisando que já estão esgotados no mercado os óculos que, durante as últimas semanas, foram disponibilizados de forma gratuita nas nossas oculistas. Os portugueses entretanto querem saber se podem usar óculos escuros, ou o telemóvel, ou radiografias, ou o tanque do Luís Neves. José Alberto Carvalho, num exercício simples e revelador no noticiário da TVI, mostra a diferença entre ver o eclipse com óculos adequados, versus as restantes alternativas. Não foi preciso muito, o pivot da TVI ligou uma lanterna LED, apresentou dois filtros alternativos, e dispensou suporte gráfico ou IA para mostrar o disparate que é ver o eclipse sem material adequado. Eu, que sofri dois descolamentos de retina em menos de um ano, não vou correr riscos, mais facilmente me encontram numa sala escura a assistir à próxima entrevista ao Ventura do que a este eclipse.
Quinta-feira, 6 de agosto
A Ponte 25 de Abril fez 60 anos. As entidades responsáveis pela celebração anunciaram um espectáculo de drones para as 00h00 do dia 5. Ao longo da noite de dia 4, as televisões foram informadas de que o evento estaria atrasado, só iria começar às 00h30. Afinal, começou às 00h27, durou seis minutos, foi uma farsa. E que espectáculo era esse? Nada de mais, apenas 500 drones desenhando uns bonecos e logotipos da Lusoponte, Fertagus, e Infraestruturas de Portugal nos céus de Almada, ao lado do Cristo-Rei. O pessoal de Lisboa que se juntou para este evento histórico haverá um dia de contar aos netos o anticlimático que tudo isto foi, até o ministro das obras públicas, Miguel Pinto Luz, que foi ali vender os quiméricos projectos da terceira travessia do Tejo e do túnel da Trafaria, ficou desiludido por não haver música e tudo aquilo ter parecido tão estéril. A CMTV, a CNN e a RTP Notícias fizeram directos do espetáculo de drones, a SIC, mais sensata, não participou nesta palhaçada. Alguém uma vez disse, e se calhar fui eu, que este país teve o seu apogeu em 1998, esgotou-se em 2004 com o Euro, e desde então não é capaz de fazer nem um espetáculo público de jeito nem uma obra pública de referência. Pode ser que o eclipse seja melhor.
Quinta-feira, 6 de agosto
Aproveitando a boleia de cidades como Braga e Espinho, que decidiram proibir a utilização de trotinetes partilhadas nas suas ruas, a ACP lançou um recolha de assinaturas para eventualmente lançar um referendo municipal aos lisboetas sobre se a mesma opção de mobilidade suave deve ser igualmente banida de Lisboa. Numa altura em que os números de sinistralidade e mortes na estrada envergonham o país, ao ponto de há uns meses o ministro Luis Neves decidir lançar uma campanha séria para garantir mais paz nas estradas, é de desconfiar quando uma entidade civil como a ACP, que há anos trabalha directamente com os players associados à indústria automóvel, venha tapar o sol com a peneira optando por… banir trotinetes partilhadas. A reboque disto, as televisões, pouco dadas a raciocinar, passam a informação das exigências da ACP como se fossem um dado garantido ou uma realidade inquestionável. Mas, felizmente, há excepções: esta semana a CNN Portugal deu palavra à ACP, mas decidiu também falar com profissionais conhecedores da realidade rodoviária do país, bem como das soluções de mobilidade suave, trazendo para debate Mário Alves, presidente da Estrada Viva, que, utilizando palavras mais brandas que aquelas a que eu por regra recorro, explicou que a diatribe da ACP apenas serve para esconder evidências mais difíceis de gerir: é verdade que as trotinetes são um problema, podem ser perigosas, e que os seus operadores têm responsabilidades e deviam ser fiscalizados, “mas é irónico ser o ACP a fazer esta petição, porque sabemos que Portugal tem um sentimento de impunidade enorme nas estradas, somos o país da Europa com menos multas per capita por excesso de velocidade, três milhões e meio de pessoas em excesso de velocidade nos últimos dez anos, temos um elefante na sala que são os automóveis, o ACP está preocupado com as pequenas formigas que causam problemas?”. Antes de Mário Alves pôr água na fervura, tivemos de tolerar com um directo do repórter José Gabriel Quaresma na Avenida Duque de Ávila, em Lisboa, em que alertava sobre o perigo de ser atropelado por uma trotinete na “pista das trotinetes”, pista essa que não existe ali, trata-se apenas de uma ciclovia, ou seja, uma via dedicada à mobilidade suave.
Parafraseando Niemoller, “primeiro eles vieram buscar as trotinetas, mas eu não me importei porque tinha um carro. Eles depois vieram buscar-me a mim, apesar de eu ser apenas um peão”. Tudo para que as nossas cidades se transformem em auto-estradas, com regras carrocêntricas e a crescente obliteração do espaço público para o cidadão comum. Banir apenas nos impede de querer resolver.
Quinta-feira, 6 de agosto
É verdade que o Benfica esmagou o Hearts por 6-1 em jogo da pré-eliminatória da Liga Europa, mas ainda assim tornou-se incomodativo a forma sobranceira como os comentadores da SIC foram fazendo a análise de um jogo de alto risco, em que o Benfica defrontava a equipa que devia ter ganho a liga escocesa na última temporada. Quando o resultado estava em 4-0, os comentadores diziam que “a eliminatória está ganha, mas o jogo ainda não acabou, até porque o Benfica ainda pode marcar mais”, e bastou essa sugestão para que os escoceses marcassem um golo e os comentadores engolissem em seco. Depois, claro, o Benfica marcou realmente mais dois golos, e fui eu que tive de engolir em seco, mas sempre de forma humilde, característica que aliás sempre me caracterizou…
Sábado 8 de agosto
O presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas, foi convidado de honra de uma emissão especial de Em Casa d’Amália na RTP, emitida do jardim de São Pedro de Alcântara, em Lisboa. E recorrendo igualmente à modéstia com que sempre o caracterizou, salientou a importância do fado na sua vida, “que vem de ter sido emigrante durante muitos anos em França” (“emigrante” esse que foi estudante Erasmus e engenheiro numa multinacional francesa). O Moedas a descrever-se como “emigrante em França” é como eu a dizer que sou futebolista só porque me encontro com amigos para uma futebolada, vulgo sarrafada, no ringue do Campo Pequeno às quintas…