sexta-feira, 10 jul. 2026

As pessoas lá em casa

Passou uma semana e André Ventura não teve direito a nenhuma entrevista exclusiva pelos canais de televisão onde o homem habitualmente se movimenta. Muito bem, Portugal.

Terça-feira, 9 de junho

A TVI anunciou com grande pompa uma entrevista exclusiva a Sérgio Conceição dividida em duas partes, a primeira no noticiário da noite de segunda-feira, a segunda na terça, ambas conduzidas por Fátima Felgueiras e Rui Loura, ela para o lado emocional, ele para o lado desportivo.

Na segunda-feira, a entrevista teve zero de conteúdo, em parte porque dava a ideia que Sérgio Conceição não tinha qualquer interesse em estar ali a levantar polémicas ou criar espetáculo televisivo, obrigando Sandra Felgueiras a socorrer-se rapidamente da cartilha de emergência populista, trazendo para a conversa os temas ditos emocionais e familiares, como os pais ausentes do antigo treinador do FC Porto, numa espécie de danieloliveirização da conversa. Sandra Felgueiras tentou quebrar Sérgio Conceição, mas nem aí o entrevistado cedeu ou, como agora se diz, “quebrou o silêncio”.

No dia seguinte, a segunda parte da entrevista a Sérgio Conceição foi atirada para segundo plano, porque a TVI tinha conseguido obter o exclusivo da entrevista ao automobilista que, no fim de semana anterior, foi filmado como um louco a circular em sentido contrário na marginal do Estoril.

Não há dúvidas de que, na semana em que Sandra Felgueiras apresenta o noticiário da noite na TVI, o produto televisivo parece ter sempre mais sumo, mais sensacionalismo, mais polarização. Mas, como se viu na entrevista ao automobilista, um homem que declaradamente não estava em posse de todas as suas funções intelectuais, também dá a ideia de que os limites da decência e do rigor jornalístico são mais facilmente transgredidos.

Quarta-feira, 10 de junho

Quando a edição deste jornal sair para a rua, já Portugal terá jogado o seu primeiro jogo no Mundial 2026 com a RD do Congo, se calhar CR7 terá marcado meia dúzia de golos e Portugal terá feito uma performance estratosférica. Mas isso não significa que devam ser esquecidas as palavras assertivas do comentador da RTP, Notícias Carlos Daniel, sobre a prestação de CR7 depois do jogo particular que Portugal fez no Dia de Portugal com a Nigéria, antes de partir para o Mundial. “Ronaldo merece aplauso e gratidão, tenho dúvidas que mereça ser titular da seleção nacional. Se tivermos escolhas inamovíveis, pré-feitas, que não se alteram, vai ser difícil encontrar espaço para novos jogadores”.

São palavras que refletem a frustração e o sentimento generalizado de muitos portugueses sobre uma seleção de classe mundial que continua a viver refém de um ronaldocentrismo institucional, em que os caprichos e o narcisismo do “ubermensch” CR7 apenas servem para consolidar uma marca turística chamada Portugal.

Infelizmente, como se constata na reação pública às palavras de Carlos Daniel, a começar pelos insultos pessoais vindos da “famiglia” de CR7 ao comentador da RTP, mesmo uma observação profissional sobre a atual capacidade desportiva de CR7 será sempre vista como um ataque pessoal a CR7. Por isso, discutir o CR7 desportivo há muito tempo que se tornou irrelevante, é como se ao escrutinar CR7 ofendêssemos diretamente Portugal e todos os portugueses lá em casa.

Quinta-feira, 11 de junho

“Quão longe pode ir a seleção do México?”, pergunta a repórter da TVI, Catarina Cardoso, a um adepto mexicano em Miami que diz saber falar português. “Qué?”, responde o mexicano, obrigando a repórter a reformular a pergunta, afinal de contas, quem não tem quão caça com gato. A Catarina podia ter feito a mesma pergunta a todos os portugueses, dificilmente alguém perceberia o quão longe ela pretendia chegar.

Quinta-feira, 11 de junho

Afonso Leitão foi expulso do Secret Story Desafio Final um dia antes de sair a edição deste semanário onde eu previa que Afonso jamais iria sair deste e do próximo reality da TVI, porque lhe daria mais jeito ficar naquela casa eternamente em vez de vir cá fora enfrentar a realidade.

Depois disso, a imprensa imediatamente se prontificou a informar que Afonso iria “quebrar o silêncio”, para juntar aos silêncios que na mesma semana vieram a ser quebrados por Mourinho, Rui Costa, Sérgio Conceição, Catarina Miranda, a mãe de Afonso Leitão, e a dona Etelvina do terceiro esquerdo.

Sábado, 13 de junho

Trinta e três graus em Monção, Alto Minho, onde a TVI depositou a sua entourage para a estreia de uma das suas grandes apostas para 2026, as Novas Sete Maravilhas de Portugal. Apesar do calor intenso, foi uma cerimónia morna, sem aquele público que habitualmente é chamado para bater palmas a troco de uns croquetes, o que se viu na plateia de mais uma daquelas praças públicas sem árvores terá sido porventura um colégio de meia-dúzia de funcionários públicos chamados a representar os monumentos e patrimónios que se encontravam a concurso neste primeiro programa.

Aos anfitriões Pedro Teixeira e Maria Cerqueira Gomes foi-lhes pedido que fizessem um milagre, garantir que as pessoas lá em casa não mudassem de canal, mas a forma atabalhoada e quase amadora como o guião foi declamado e o programa decorreu não contribuiu para o sucesso do empreendimento. O que ficou no ar foi uma mistura de Somos Portugal com a visita guiada a uma repartição de finanças de Monção. Pior, nunca consegui perceber a razão específica porque, vinte anos depois, temos uma nova atualização do conceito das Maravilhas; mas com metade do país a mendigar uns miolos de pão e a outra metade entretida em discursos auto congratulatórios, não me parece que alguém tenha questionado a razão disto tudo.

Sábado, 13 de junho

No sábado, a TVI teve “estreia mundial” de mais um daqueles concursos de sábado à noite que dificilmente farão história, Linha d’Ouro, desta vez apresentado por Cláudio Ramos, mas tanto podia ser o Pedro Teixeira como a Maria Cerqueira Gomes, os sábados à noite são o parente pobre da programação televisiva nacional, é um dia onde canais como a TVI aproveitam para rodar apresentadores, como se fosse o Benfica a experimentar mais um treinador, agora é que é.

Como eu sou suspeito e gosto muito do Cláudio Ramos, não acho que ele tenha estado mal a apresentar Linha d’Ouro, apesar da voz de cana rachada o homem aguentou o programa até aos limites do possível. Acontece que, na SIC, alguém se lembrou de fazer contra-programação à estreia da TVI, e convidou influenciadores para participar numa edição especial do Tudo em Família de César Mourão, uma boa oportunidade para ver Vasco Pereira Coutinho “despido” da habitual personagem que lhe deu fama e rápido desgaste, a Tia Bli.

Ao longo dos anos, a SIC sempre conseguiu obter uma vantagem de fidelização sobre a TVI, principalmente na capacidade de solidificar produtos e slots com respetivos apresentadores, por exemplo, quando me perguntam “que é feito do humorista César Mourão” eu respondo “está no sábado à noite da SIC”, uma realidade inabalável que pode ser vantajosa para o canal mas não é para o apresentador em questão, exceto se entretanto ele já se tiver aburguesado.

A estreia de Linha d’Ouro e o especial Tudo em Família empataram nas audiências, o que significa que a TVI ganhou, porque tinha um programa menos interessante (e provavelmente mais barato) e conseguiu não ficar abaixo do Vasco Pereira Coutinho. Também pode ter sido porque as perguntas da TVI lá para casa eram bem mais simples: “Qual o dobro da metade de oito?”.

Domingo, 14 de junho

Passou uma semana e André Ventura não teve direito a nenhuma entrevista exclusiva pelos canais de televisão onde o homem habitualmente se movimenta. Muito bem, Portugal.