O país estava avisado, vinha aí uma tempestade catastrófica, uma “ciclogénese explosiva”, diziam os especialistas. Mas, como tudo se iria passar apenas durante a noite, ninguém levou muito a sério. As autoridades ficaram de alerta, as televisões mantiveram as suas rotinas, sem qualquer alteração de programação. Excepto a CMTV, claro, que aproveitou para fazer a diferença, enfrentando olhos nos olhos a depressão Kristin de norte a sul do país com uma valente equipa de profissionais. O mote tinha sido dado ao início da noite, com José Carlos Castro a perguntar a Tânia Laranjo se ela achava que o mar iria galgar, e, quando o mar efectivamente galgou, a repórter reagiu: “Queres fazer isto em directo e ver-me a apanhar água no focinho?”. José Carlos Castro não respondeu, mas a sugestão estava dada, e foi água no focinho que os repórteres da CMTV levaram.
00h30
A hora prevista da chegada do Kristin a Portugal continental era a meia-noite, depois atrasou para as três da manhã. À meia-noite, já Débora Carvalho estava a coordenar a emissão da CMTV, sempre naquele registo de jornalismo e apocalipse, com chavões hiperbólicos, informação circular e diretos “em permanência”. Débora passa o directo a Gustavo Santos em Algés, depois a emissão segue para Sónia Cardoso, que está na Figueira da Foz, depois passa a bola a Denise Pereira Rodrigues, que está em Faro, depois segue para Sofia Vaz, que está no Estoril, televisão em movimento, mas sem sair do sítio. É cedo para relatar grande coisa, mas não é cedo para antecipar o pior, vem aí um comboio de tempestades e nós temos bilhete na primeira classe.
00h51
Como a tempestade atrasou, a CMTV abriu espaço para um dos seus programas de mexericos, a Noite das Estrelas, com Teresa Guilherme e um painel de convidados de vão de escada. A emissão é em directo e a mitomania também: José Castelo Branco, a falar desde Nova Iorque, diz que vai marcar uma audiência com o “novo mayor de Nova Iorque”, e um dos painelistas, Leo Caeiro, critica a festa dos 50 anos da actriz Paula Lobo Antunes, aparentemente “foi péssima”, deduzo que não tenha sido convidado.
01h54
Uma hora depois, a CMTV segue em directo para a Foz do Douro, com Ana Inês Baptista, e pela primeira vez temos uma informação concreta sobre a tempestade, com a repórter a dizer que a barra está fechada, incluindo “acesso aos farolins de Felgueiras”. Seguimos para Viseu, com Paulo Jorge Duarte, para Setúbal, com Madalena Simões, e para Coimbra, com Mário Freire. Ainda não são duas da manhã e já passámos por dez repórteres da CMTV no terreno, mas a informação mais concreta que recordo da noite é de que a festa dos 50 anos da Paula Lobo Antunes tinha sido péssima.
02h20
O carrossel de profissionais completou a primeira volta, a emissão CMTV regressa a Sofia Vaz, no Estoril, que se esqueceu de levar uma elástico para prender o seu cabelo, as imagens valem por mil palavras, até porque a informação da CMTV é sempre escassa, há um claro desaproveitamento de meios, de que adianta ter uma dezena de repórteres no país se eles não têm nada para nos oferecer para além de “agitação marítima”, “ventos fortes” e “autoridades aconselham as pessoas a que fiquem em casa”, logo agora que são três da manhã e eu queria ir comer um gelado ao paredão de Algés.
03h00
Mário Freire em Coimbra diz que Mondego “está a galgar”, nota-se que recebeu o memorando de José Carlos Castro. Por falar nisso, onde anda a Tânia Laranjo, há muita água a cair mas ninguém para levar no focinho. Mário Freire acrescenta que as autoridades vão “monotorizando” o que se passa na noite. Em Faro, Denise Pereira Rodrigues alerta para o perigo da agitação marítima, referindo que o mar está próximo, mas na verdade o que testemunhamos é que a repórter se aproximou do mar, portanto não é o mar que está a subir, é a CMTV que continua a descer.
03h15
Da Figueira da Foz à Foz do Douro, a chuva não dá tréguas, a tempestade Kristin já se faz sentir, ”já se faz sentir” é uma das expressões mais repetidas ao longo da noite. A esta hora já trato os repórteres da CMTV por tu. A Madalena em Setúbal está com ar miserável de quem preferia estar em casa. A força do vento arrancou folhas de palmeiras, há lençóis de água na estrada, acrescenta. O Gustavo em Algés descreve mais intensidade do vento, ou seja, a mesma intenção do directo, ou seja, nada de concreto. “Está difícil realizar este trabalho a partir daqui” é a frase mais emblemática da noite.
03h30
O registo da CMTV é presencial e circunstancial, o testemunho é civil e não especialista, é tipo “está a chover e pode piorar”, não há análise ou investigação, há um tremor constante mas não há qualquer movimento, explicação ou desenvolvimento da história, isso é para os canais intelectuais, e os canais intelectuais, como se viu nesta noite, preferiram nem sequer sair de casa. A CNN e a SIC Notícias fizeram emissões completamente ao lado, é como se a depressão Kristin fosse uma corrente de ar, a CNN com Sara Melo Rocha, a SIC Notícias com Guilherme Simões. Melhor a RTP Notícias, com Núria Melo, mesmo que em registo poupança, com recurso a beachcams, e apenas quatro repórteres no terreno, com destaque para Susana Barros Pacheco, que, salvo erro, começou no Furadouro, foi a Aveiro, voltou ao Furadouro, e acabou a sul, em Vagos. Sozinha ela deslocou-se mais do que todos os profissionais da CMTV juntos.
03h35
Horas depois, a CMTV chama finalmente Tânia Laranjo a partir de Aveiro. Agora sim, o ciclo está completo, o país está em Alerta Laranjo! O directo dela é curto, sereno, há uma eminência na presença de Tânia Laranjo que a CMTV não se pode dar ao luxo de dispensar. Mas a verdade é que a Tânia esteve uns minutos no ar e voltou a desaparecer, só regressando à emissão hora e meia depois, a partir de Mira.
04h58
Paulo Jorge Duarte entra de Vouzela, Viseu, como se não estivesse a acontecer nada. O facto de estar com uma santinha ao lado deve ter contribuído para a tranquilidade dos seus directos.
05h00
Débora Carvalho termina o seu turno, e é substituída por Francisca Laranjo, filha de Tânia Laranjo. Os vários directos da CMTV asseguram que o pior parece ter passado. Mas a realidade confirmou que as nossas televisões mais uma vez passaram ao lado de tudo. Como se viu horas mais tarde, foi um amanhecer violento que “se fez sentir”.