terça-feira, 18 ago. 2026

A nossa Venezuela

Mas entre esse despertar violento e a iniciativa concreta de enviar equipas portuguesas para o local da tragédia, ainda se perderam umas boas horas

No início, era apenas um sismo. Depois, percebeu-se que se tratava de um sismo de grande intensidade. Quando começaram a surgir as primeiras imagens da destruição provocada pelo sismo na Venezuela, as nossas televisões entraram em alerta. O facto de o sismo ter atingido as comunidades portuguesas da Venezuela, serviu para fazer acordar as redações e a generalidade da comunicação social, então anestesiada pelos medíocres resultados da seleção nacional no Mundial de futebol na América do Norte. Mas entre esse despertar violento e a iniciativa concreta de enviar equipas portuguesas para o local da tragédia, ainda se perderam umas boas horas.

Tendo em conta que o sismo ocorreu numa quinta-feira (25 de junho) e os repórteres só se puseram em marcha no fim de semana seguinte, podemos dizer que a reação foi tardia, mas logisticamente talvez não fosse fácil chegar a Caracas: Daniel Catalão da RTP e Tânia Laranjo da CMTV deram sinais de vida a caminho do local do sismo no domingo 28 de junho, a SIC mandou o brasileiro Anthony Wells, correspondente do canal no Brasil, e a TVI começou a trabalhar no local não com um enviado especial mas com o “enviado em serviço especial” André Ferrão, que é uma forma de dizer “colaborador”.

Só a meio da semana seguinte, portanto quase uma semana depois do sismo, é que o repórter de guerra da TVI, Sérgio Furtado, chegou a Caracas para tomar conta do recado. Foi tarde, tendo em conta a qualidade habitual do seu trabalho. De qualquer forma, até ao fecho desta edição, Daniel Catalão, Sérgio Furtado e Tânia Laranjo continuavam a trabalhar no terreno. A SIC desapareceu da Venezuela. Recapitulemos.

Segunda-feira, 29 de junho

Cinco dias depois do sismo, José Rodrigues dos Santos abre o noticiário da RTP exclamando que “já são mais de 30 pessoas resgatadas dos escombros” do sismo. O destaque já não é o número de vítimas mas as pessoas que ainda podemos salvar. As peças de reportagem são todas feitas na redação, por repórteres como Lígia Veríssimo e Manuela Sousa. É apresentada a história do cão Tsunami, que salvou treze pessoas. O enviado especial Daniel Catalão, correspondente da RTP no Brasil, entra em direto da Playa Grande via Whatsapp, mas as condições de comunicação são péssimas. Durante o noticiário, o número de portugueses ou luso-descendentes que morreram no sismo sobe de 56 para 60.

Segunda-feira, a RTP dedicou vinte e oito minutos à Venezuela, a SIC trinta e dois minutos, e a TVI treze minutos. Na SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho está ao leme. Vemos peças de reportagem sobre bebés salvos, sobreviventes que ficaram horas debaixo de escombros, equipas de resgate que vieram de todo o mundo, incluindo Portugal: “a vontade de ajudar cria linha de montagem extraordinária de portugueses para portugueses”, refere o jornalista Diogo Torres. O enviado especial da SIC, Anthony Wells, chegou ao fim da tarde a La Guaira, norte de Caracas, mas não acrescenta nada de novo. A SIC ganha pontos ao entrevistar o ministro dos negócios estrangeiros Paulo Rangel, que aparece em estúdio a sorrir.

A TVI, com José Alberto Carvalho, abriu o noticiário de segunda-feira com um cronómetro, para assinalar as horas que passaram desde o sismo na Venezuela, quase 120 horas, informação essa que tinha zero de interesse para a tragédia em questão, a não ser que servisse de alerta para assinalar as longas horas em que os nossos canais ficaram a pensar se valia a pena enviar alguém para a Venezuela ou não. As peças de Pedro Cabral de Melo, Helena Lins e Pedro Ramos Bichardo não adicionaram muito ao que já sabíamos sobre o caos no terreno, o direto com o “enviado em serviço especial” André Ferrão ainda acrescentou menos, foi apenas uma visita de médico à Venezuela. A peça mais importante do dia na TVI foi a dos 176 venezuelanos deportados pelos EUA que tinham acabado de chegar ao seu país e foram vítimas do sismo (só sobreviveram 12).

Segunda-feira, a CMTV diz que “já está na Venezuela”, o que tanto pode ser verdade como fake news. Supostamente, Tânia Laranjo (e a operadora de câmara, Inês Trovisco) já estão “com equipas de resgate de português em La Guaira”, mas o caos visual e gráfico da CMTV não nos permite confirmar se as repórteres lá estão, apenas ouvimos a voz off de Tânia Laranjo e uma série de imagens que facilmente poderiam ter sido editadas pela redação em Lisboa. Serão cerca de vinte minutos nisto.

Terça-feira, 30 de junho

Seis dias depois do sismo, a RTP e a SIC dedicam vinte minutos do seu noticiário da noite à Venezuela, a TVI dedica treze minutos, a CMTV dez minutos.

Na RTP, José Rodrigues dos Santos alerta que é “uma corrida contra o tempo” para salvar sobreviventes, as expressões são iguais em todo o lado, “corrida contra o tempo”, “contra-relógio”, “rasto de destruição”, ou o clássico “o edifício ruiu como um castelo de cartas”.

O tema do dia é a tentativa de resgate de um luso-descendente por uma equipa da missão de salvamento portuguesa, e o facto de o luso-descendente ter conseguido dizer o nome de “Ronaldo”. O enviado especial Daniel Catalão volta a entrar em direto de Playa Grande em condições precárias, desta vez aproveitando um sinal de internet emprestado por uma igreja local. São cenas de um equilíbrio instável, de um lado temos o luso-descendente soterrado que não se pode mexer, do outro temos Daniel Catalão, que também não se pode mexer, porque senão fica sem rede.

Na SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho abre o noticiário de terça com a habitual “corrida contra o tempo” das operações de salvamento e resgate na Venezuela, uma vez que há um segurança português que está soterrado num centro comercial em La Guaira. Um socorrista português identificado com o nome de Rocha, refere que o sobrevivente foi descoberto há dois dias, mas ainda não houve “uma operação musculada” para o resgatar. Depois, segue o direto com Anthony Wells em Caracas, que entrevista uma Gabriela que diz que ”fala português”, mas percebe-se que fala português como antigamente o António Costa falava inglês, ou seja, não se percebe nada.

Na TVI, temos o ministro da administração interna Luís Neves a assinalar “a luta contra o tempo” e qualquer coisa “contra-relógio”. O enviado especial da noite é Emanuel Monteiro, mas está apenas no aeroporto de Lisboa. O oráculo identifica Emanuel Monteiro como “Repórter +TVI”, não se percebe bem porquê. Depois, o “enviado em serviço especial para a TVI”, André Ferrão, entra em direto de Catia La Mar, mas sem grandes manchetes.

Terça-feira no noticiário da noite da CMTV, Tânia Laranjo volta a entrar em direto da Venezuela, mais uma vez apenas por telemóvel ou Whatsapp, não se percebe. O mais importante do resgate do luso-descendente é ele ter referido em conversa o nome de “Ronaldo”. “Mais uma vez é o andar para a frente e depois o andar para trás” sobre o resgate, esclarece a repórter, que confirma que se trata de um venezuelano de 43 anos, não de um português. A informação concreta que nos chega da Venezuela nestes dias há muito que também ruiu como um castelo de cartas.

Quarta-feira, 1 de julho

No sétimo dia após o sismo, os nossos noticiários abrem com o calor tórrido que se aproxima de Portugal, portanto a Venezuela é empurrada para segundo plano.

A RTP dedica catorze minutos à Venezuela, a SIC nove minutos, a TVI oito minutos, a CMTV quinze minutos. No caso da TVI é estranho, porque finalmente o canal tem no local um enviado especial e não um enviado “em serviço especial”: Sérgio Furtado. O destaque da TVI é finalmente dado ao resgate do luso-descendente Hernan Gil, de 43 anos, que Furtado diz ser um homem “na casa dos 74 anos”.

A SIC acrescenta que o “português Hernan Alberto Gil, segurança soterrado no terceiro andar do shopping em La Guaira está a ser alimentado”. 40 mil pessoas continuam desaparecidas, incluindo o enviado especial da SIC, Anthony Wells, ausente da emissão a partir do dia 1 de julho.

A RTP mostra uma peça interessante de Daniel Catalão sobre o ruído associado ao regresso à normalidade da vida na Venezuela, e o silêncio que se impõe cada vez que há esperança em encontrar alguém vivo, nem que seja o Anthony Wells da SIC.

Na CMTV, José Carlos Castro diz que continua a haver um “ambiente de grande tensão na Venezuela”, Tânia Laranjo traz uma boa entrevista com uma portuguesa desalojada na Playa Grande que perdeu o marido e mãe no sismo, confessando que tem tido mais apoio da embaixada do Vietname do que da portuguesa. A repórter depois assinala que o resgate do português luso-descendente de 43, 44 ou 74 anos “voltou à estaca zero”.

Quinta-feira, 2 de julho

Oito dias depois do sismo, a tragédia da Venezuela é substituída pelo incêndio em Vouzela. Na TVI, a Venezuela só tem direito a dez minutos de emissão, meia hora depois da abertura do jornal. A SIC dedica sete minutos à Venezuela, vinte minutos depois da abertura do jornal. A RTP furou o cerco dos canais generalistas, abrindo o noticiário com o miraculoso salvamento do português Hernan Gil pela equipa portuguesa de resgate presente em La Guaira.

Na CMTV, Tânia Laranjo refere que o “salvamento contornou as leis da física”, uma frase que resume de forma certeira o contorcionismo das regras da informação e do jornalismo em tempos de guerra e catástrofe.