Estamos na silly season, por isso fui ver o reality show sobre a família da Carolina Patrocínio para assim vocês não precisarem de o fazer. São seis episódios disponíveis no canal de subscrição Amazon Prime, 4.99 euros por mês a assinatura, portanto cada episódio sai mais barato que um café, e, valha a verdade, também provoca menos azia.
Primeiro episódio: as manas. O patriarca Pedro Patrocínio, um patusco sexagenário, apresenta a sua família de quatro mulheres, Mariana, Carolina, Inês e Rita, todas elas fruto do seu casamento com Teresa Vieira de Almeida, ou Tatoi. Pedro e Tatoi estão separados há treze anos.
No primeiro episódio, Tatoi apresenta também as suas seis filhas, quatro do casamento com Pedro Patrocínio, duas com com um alemão, Mark Jacobi, com quem casou depois da separação de Pedro.
A série da Amazon centra-se na vida das quatro manas de Lisboa, Mariana, Carolina, Inês e Rita; as duas filhas extra, Monika e Vicky vivem fora do país, aparecem esporadicamente. São todos betos, os pais, as filhas, os genros, as crianças, os tios, os primos.
Mariana Patrocínio é a filha mais velha, tem 40 anos, duas filhas, vive num belo apartamento ali entre Belém e Alcântara, atrás das antigas instalações da Standard Electric e da Orquestra Metropolitana, um espaço brutal com vista para a ponte. Tem três filhas e dois enteados, casou com Nuno Santana, empresário do grupo Praia, a família cresceu, por isso precisam de mudar de casa. Mariana confessa que trabalha há cinco anos com a mãe no colégio, é a primeira e das poucas informações laborais que temos de Mariana e, até, de certa forma, do resto da família: dos Patrocínio sabemos que vivem bem, imaginamos de onde vem o dinheiro, Pedro é filho de um empresário benemérito no Livramento, em Mafra, Tatoi, sempre mais reservada, não dá abébias, num episódio mais à frente ficamos saber que os seus pais construíram uma herdade no Redondo à imagem do que tinham em África, assumimos que ambos se encontram confortáveis a viver as suas reformas com os filhos por perto no eixo Pedrouços-Restelo-Junqueira em Lisboa. Só se deslocam de carro, mas, como são vizinhos uns dos outros, por vezes vão a pé.
Carolina é a segunda filha da família, e é também a razão de ser da série da Prime, ela é a Kim Kardashian dos Patrocínio, tornou-se famosa trabalhando para a SIC e, mais tarde, através das redes sociais. Tem quatro filhos do Gonçalo Uva, ex-jogador de rugby.
Inês é a terceira filha dos Patrocínio, e também aquela que aparentemente tem um trabalho normal, é “analista de inteligência numa organização internacional”, que uma das filhas descreve de forma singela: é polícia!
A menina mais nova dos Patrocínio chama-se Rita, é casada com o ator Nuno Teotónio Pereira, tem dois filhos e um cadela. Apresenta-se como designer, mas nunca a vemos trabalhar, deve ter tirado uma licença sabática para o ano de filmagens da série da Prime, que vai do final da Primavera ao Natal do que deduzimos ser o ano de 2025, mas estou apenas a supor, porque a série dos Patrocínio é tão fechada sobre si mesmo que parece blindada ao que ocorre no mundo, os únicos ventos de mudança que sentimos são de um alerta amarelo na noite de Halloween, que quase impede a festa do dia das bruxas organizada pelas manas Patrocínio no Restelo.
No primeiro episódio, Carolina, ou Carol, descreve o marido Gonçalo, ou Gon, como um pai muito rigoroso. Nuno Santana, marido de Mariana, deixa queimar umas tostas de queijo que cozinha para a família, diz que está a construir uma casa “giríssima”, mas vai ser um parto difícil. Carolina prepara vestidos para a gala dos Globos de Ouro e pede conselhos à mana Rita. Nenhuma delas está satisfeita com as alternativas apresentadas pelo “celebrity stylist” Gonçalo Mello, que está ali ao lado delas a ouvir as críticas. “Pareces uma fadista”, diz Rita a Carolina, e riem-se. Quase que se ouve o celebrity stylist a soluçar.
O primeiro episódio é o melhor de todos da série, depois é o dilúvio, a família está apresentada, o resto da temporada é gestão de crises e intrigas menores, memórias de infância, familiares a tratarem-se por você, e muito product placement de ginásios, escaladas, escolas de voo e ateliers de cerâmica ou pastéis de nata. Ainda assim, a série dos Patrocínio é um vício, não porque aconteça algo de relevante nos seis episódios, mas porque é sempre um consolo ver uma família da classe alta a produzir tão baixa cultura.
No primeiro episódio ficamos também a saber que Inês foi a única das manas que se divorciou, mas não há uma menção honrosa ao pai das suas filhas. A dada altura conhecemos o seu novo namorado, um instrutor de padel chamado João Barros que tem alguma dificuldade em adaptar-se à densidade populacional dos Patrocínio, já vamos em quatro avós, seis manas, doze netos, com a promessa de mais um bebé a caminho.
Depois, ficamos a saber que Mark Jacobi vive em Portugal há 27 anos, foi “event coordinator” durante a Expo 98, e já fala melhor português que Jorge Jesus. Ainda durante o mesmo episódio, Carolina revela todas as provações que sofreu quando perdeu um namorado, o ator Francisco Adam, aos 18 anos, desde essa altura passou a ter a imprensa em cima de si, descreveram-na como a “pobre menina rica”. Diz que foram as redes sociais que a salvaram, e foi nas redes sociais que a conhecemos, sempre a dar nas vistas, sempre a trabalhar, muitas vezes grávida, mas duas semanas depois do parto já estava em forma novamente. Numa revelação conjugal, Gonçalo Uva confessa que o segredo da família é o filtro.
O primeiro episódio termina com um drama durante a reunião das manas Patrocínio com a mãe Tatoi no Algarve: as irmãs atacam a mãe por ela supostamente ter uma filha favorita, a Inês, que vive ao lado da mãe e por vezes recebe mais da mãe do que as outras. Inês defende-se dizendo que trabalha do outro lado da cidade e por vezes chega a casa pelas 19h ou 20h e não tem nada para comer, o horror. Toda esta discussão sem filtros acontece na presença dos netos ali ao lado na praia. O drama atravessa do primeiro para o segundo episódio dos Patrocínio, quando Rita, a filha mais nova, exige saber da mãe quando é que se pode mudar para a casa nova do Restelo, casa essa que a mãe continua a arrendar a outras pessoas. Rita acusa a mãe de “falta de compromisso”, a mãe Tatoi chama-a de mimada. “Não vamos falar mais no assunto”. E o assunto fica por ali.
No segundo episódio, parcialmente passado no Algarve, conhecemos as filhas de Mark e Tatoi, Monika e Vicky, que se juntam às férias de família. Vicky decide fazer um TikTok com as manas, mas Inês acha tudo aquilo cringe, porque receia ser exposta no Extremamente Desagradável.
O segundo episódio termina com mais um grande drama familiar, drama esse que parece artificial ou encenado pela produção, uma vez que a origem nunca foi explicada: aparentemente Inês terá acusado as manas de serem “burras, invejosas” e de terem “trabalho de trampa”, palavras delas, não minhas, e o pater familias Pedro decide juntar as manas para uma espécie de terapia familiar, que consiste em “não fazer nada e esperar que a tempestade passe”. A tempestade não passou, bem pelo contrário, agravou-se, pois a prevaricadora não está disposta a “falar disto aqui, que isto não é o Big Brother”, Mariana então começa a chorar e a pedir para as câmaras pararem de filmar, o que nos leva a acreditar que sim, tudo isto é real, tudo isto é um reality, tudo isto é fado.
Já estou ansioso pela segunda temporada.