Houve um momento em que Portugal exigiu mais de si – não se conformou com o que era e recusou a ideia de limite, acreditando, sem reservas, que podia ser mais: mais justo, mais desenvolvido, mais equilibrado. A Revolução de Abril não foi apenas um ponto de rutura, mas um exercício exigente de imaginação coletiva sobre o futuro do país e uma afirmação clara de ambição sobre aquilo que poderíamos vir a ser.
Os países, porém, não se definem apenas pelos momentos em que se reinventam, nem pela clareza com que, em determinados momentos, identificam o caminho. Definem-se, sobretudo, pela forma como conseguem sustentar, ao longo do tempo, essa ambição – com consistência, previsibilidade e capacidade de execução.
É precisamente nesse plano que Portugal revela uma dificuldade persistente: não na definição da ambição, mas na sua concretização continuada. Ao longo de décadas, fomos capazes de projetar prioridades, reconhecer bloqueios e enunciar respostas. O que tem falhado não é o diagnóstico, nem sequer a intenção – é a capacidade de transformar essa ambição em prática consistente, acumulativa e duradoura.
Entre aquilo que, em determinados momentos, fomos capazes de imaginar para nós próprios e aquilo que conseguimos efetivamente sustentar, foi-se instalando um desfasamento discreto, mas contínuo, que deixou de ser exceção para passar a padrão – não por ausência de capacidade, mas por uma dificuldade estrutural em transformar intenção em continuidade.
É nesse intervalo que Portugal ainda vive.
Ao longo do tempo, essa distância tornou-se visível em diferentes dimensões da vida coletiva: na dificuldade em transformar direitos formais em experiências consistentes, na persistência de desigualdades entre territórios, na pressão sobre serviços essenciais – visível, por exemplo, na dificuldade persistente em garantir respostas previsíveis na saúde, na justiça ou na educação – e numa relação ainda distante entre cidadãos e instituições.
Nada disto resulta de uma falha única ou de um momento isolado. Resulta de um padrão mais profundo, que se foi consolidando ao longo de décadas: a dificuldade em alinhar ambição com execução continuada. Em Portugal, a intenção raramente é o problema. A continuidade, demasiadas vezes, é.
Mas há um ponto adicional que importa reconhecer: o diagnóstico, em Portugal, deixou de ser o problema – e não pode continuar a ser tratado como matéria ideológica. Sabemos, com bastante precisão, onde estão os bloqueios. O que falta não é análise, é capacidade de agir sobre ela.
Ao longo do tempo, o debate público foi-se fechando sobre si próprio, excessivamente condicionado por lógicas partidárias que, demasiadas vezes, pensam o país em função do seu próprio posicionamento, em vez de pensarem o seu posicionamento em função do país. Esse desvio tem um custo: reduz a ambição, empobrece a decisão e adia reformas que exigem mais do que ciclos políticos curtos.
Essa dificuldade torna-se ainda mais evidente quando olhamos para a realidade económica e social: salários que crescem pouco, níveis de poupança em queda, uma carga fiscal elevada sobre quem trabalha e investe, despesa pública crescente e uma perceção persistente de que a qualidade dos serviços não acompanha esse esforço coletivo. Este desajuste não é conjuntural – é estrutural. E não se resolve com ajustes marginais.
A dificuldade em garantir essa continuidade não é apenas operacional – é também o reflexo de escolhas políticas concretas que, ao longo do tempo, foram adiando decisões estruturais, evitando conflitos e aceitando níveis de exigência aquém do necessário. Um país não se transforma apenas com diagnósticos corretos. Transforma-se com liderança capaz de decidir, de sustentar escolhas e de assumir o custo – político e social – de fazer diferente.
Mas há também um outro fator menos explícito: ao longo do tempo, foi-se consolidando um certo conforto com a insuficiência – não apenas como consequência, mas como uma escolha implícita que se tornou socialmente tolerada. Criou-se uma cultura de baixa exigência relativa, onde o incumprimento é frequentemente normalizado e a distância entre o prometido e o concretizado raramente tem consequência.
Talvez por isso, a questão não seja apenas a falta de ambição, mas a dificuldade em lidar com o que ela exige – em termos de decisão, de prioridade e de responsabilidade.
Essa fragilidade não invalida o percurso feito. Mas impede que ele seja suficiente. Um país não se mede apenas pelo que consegue iniciar – mede-se, sobretudo, pela capacidade de garantir que aquilo que constrói funciona com previsibilidade, qualidade e ao longo do tempo.
É precisamente por isso que importa regressar à questão essencial – não ao que Abril representou, mas ao que exige hoje.
A Revolução de Abril não foi apenas um momento fundador. Foi a afirmação de uma ambição coletiva clara: a de construir um país mais justo, mais equilibrado, mais capaz de garantir oportunidades reais e consistentes a quem nele vive.
Essa ambição não desapareceu. Mas foi-se tornando menos exigente na forma como é aplicada. Entre a afirmação de princípios e a sua concretização ao longo do tempo, instalou-se uma tolerância crescente ao desfasamento – como se a intenção bastasse para validar o resultado e como se o tempo, por si só, resolvesse aquilo que depende de decisão.
Pensar Abril hoje não é revisitar o passado. É utilizá-lo como medida – como critério exigente para avaliar a distância entre aquilo que dizemos querer ser e aquilo que, de forma consistente, conseguimos garantir.
Porque um país não se define apenas pelas escolhas que faz em momentos decisivos. Define-se, sobretudo, pela forma como transforma essas escolhas em prática continuada, em funcionamento regular e em confiança partilhada.
Portugal não precisa de recomeçar. Precisa de consolidar – e, sobretudo, de se levar a sério naquilo que decide ser.
Isso implica mais do que estabilidade ou continuidade formal. Implica garantir que aquilo que se define como prioridade se traduz, de forma consistente, em funcionamento, em resposta e em confiança. Implica reduzir a distância entre o que é anunciado e o que é vivido, entre o que é prometido e o que, de facto, chega às pessoas e aos territórios.
Porque é nesse plano – menos visível, mas mais determinante – que se constrói a credibilidade de um país. E é também aí que se decide se a ambição que um dia afirmámos continua a ser um compromisso real ou apenas uma referência confortável.
É, por isso, inevitável uma pergunta mais exigente: até que ponto estamos, coletivamente, disponíveis para aceitar o nível de exigência que dizemos querer para Portugal?
Porque, no fim, o problema nunca foi perceber o que falta fazer. Tem sido, demasiadas vezes, aceitar viver com o facto de isso não acontecer.
E talvez seja esse o ponto mais incómodo: não é a falta de capacidade que nos limita – é a forma como nos habituámos a não a exigir. Enquanto assim for, continuaremos a gerir o desfasamento em vez de o resolver. Abril deixou-nos uma ambição clara. Falta-nos decidir se ainda queremos estar à altura dela.
Secretária Geral Sedes