quinta-feira, 11 jun. 2026

Entre o cansaço e a esperança: Portugal precisa de voltar a acreditar

Um país torna-se verdadeiramente mais justo quando permite e cria condições para que mais pessoas criem, trabalhem, arrisquem, invistam, cresçam e sejam recompensadas por isso.

Há uma promessa simples que sustentou durante décadas a confiança das sociedades europeias: a ideia de que estudar, trabalhar e cumprir as regras permitiria viver melhor. Não estamos a falar de enriquecer rapidamente, nem de escapar a todas as dificuldades, mas construir, passo a passo, uma vida com mais estabilidade, mais autonomia e um horizonte melhor do que a geração anterior.

Em Portugal, essa promessa tornou-se frágil.

O país mudou muito. Modernizou-se, qualificou-se, abriu-se ao mundo, consolidou instituições, melhorou infraestruturas e tornou-se mais atrativo. Quem olha para Portugal, a partir de fora, vê hoje um país seguro, estável, interessante, competitivo em muitos domínios e com uma qualidade de vida invejável. E há muito de verdade nessa imagem.

Mas quem vive cá, todos os dias, conhece também a outra face desse progresso: a sensação de que viver exige cada vez mais para devolver cada vez menos.

O problema português não é a pobreza no seu sentido clássico. É a pressão permanente sobre quem trabalha. É a dificuldade crescente de transformar rendimento em tranquilidade. É o salário que entra e desaparece entre habitação, supermercado, energia, transportes, escola, combustível e impostos. É a poupança que deixa de ser uma consequência natural do trabalho e passa a ser quase uma miragem.

É, no fundo, o desaparecimento da margem.

Margem para poupar. Margem para ter filhos, sem medo financeiro permanente. Margem para enfrentar um imprevisto. Margem para arriscar. Margem para descansar. Margem para acreditar que o esforço de hoje abre caminho a uma vida melhor amanhã.

Quando essa margem desaparece, a sociedade continua a funcionar, mas começa lentamente a perder confiança. E esse talvez seja hoje um dos maiores desafios nacionais.

A habitação tornou esta realidade particularmente visível. Para muitos jovens e famílias, comprar ou arrendar casa deixou de ser apenas uma etapa exigente da vida adulta para se tornar um obstáculo estrutural. Mesmo com qualificações, emprego estável e responsabilidade financeira, muitos sentem que a autonomia chega tarde, custa demasiado ou fica dependente de ajuda familiar. E quando o ponto de partida familiar passa a pesar mais do que o trabalho e o esforço individual, o elevador social avaria.

Mas a questão vai muito além da habitação. Está na acumulação de custos, na lentidão dos salários, na reduzida escala de muitas empresas, na dificuldade em criar valor acrescentado e na excessiva carga que recai sobre quem trabalha e produz. Portugal valorizou-se enquanto destino, enquanto território, enquanto ativo. Mas valorizou ainda de forma insuficiente o trabalho dos portugueses.

Essa é uma das grandes contradições do nosso tempo: temos um país cada vez mais valorizado, mas muitos jovens sentem-se cada vez menos capazes de construir ou ver um futuro dentro dele.

Seria, no entanto, um erro transformar este diagnóstico numa narrativa de fatalismo. Portugal não é um país condenado. Pelo contrário: raramente tivemos tanta capacidade acumulada. Temos as gerações mais qualificadas da nossa história. Temos empresas inovadoras. Temos das melhores universidades. Temos talento reconhecido fora de portas. Temos comunidades portuguesas no mundo que mostram, todos os dias, que não nos falta competência, ambição ou capacidade de adaptação.

O que nos falta não é potencial. Falta-nos transformar potencial em prosperidade.

E isso exige uma mudança de foco. Durante demasiado tempo discutimos muito a repartição da riqueza e pouco a sua criação. Discutimos muito a gestão da escassez e pouco a libertação da energia produtiva do país. Discutimos muito medidas de curto prazo e pouco as condições estruturais que permitem aumentar salários de forma sustentável: produtividade, inovação, qualificação aplicada, investimento, escala empresarial, simplificação administrativa, estabilidade regulatória e valorização efetiva do mérito.

Um país não se torna mais justo apenas distribuindo melhor o pouco que tem. Torna-se verdadeiramente mais justo quando permite e cria condições para que mais pessoas criem, trabalhem, arrisquem, invistam, cresçam e sejam recompensadas por isso.

A justiça social precisa de crescimento económico. E o crescimento económico precisa de mobilidade social. Uma sociedade onde o berço pesa demasiado, onde o património herdado vale mais do que o trabalho, onde os jovens qualificados emigram para encontrar proporcionalidade entre esforço e rendimento, é uma sociedade que desperdiça energia vital.

A boa notícia é que Portugal ainda vai a tempo.

Ainda vai a tempo de escolher um modelo económico menos dependente de baixos salários e mais assente em conhecimento, tecnologia, indústria, serviços qualificados e empresas capazes de competir em escala. Ainda vai a tempo de fazer da educação não apenas um instrumento de qualificação formal, mas uma verdadeira plataforma de ascensão social. Ainda vai a tempo de libertar as novas gerações da ideia de que só fora do país encontrarão autonomia, estabilidade e reconhecimento.

Ainda vai a tempo, sobretudo, de recuperar uma ambição nacional que não se contente com a sobrevivência organizada.

Porque não basta sermos um país agradável para visitar. Temos de ser um país possível para viver. Não basta termos bons indicadores macroeconómicos. Temos de garantir que a vida concreta das pessoas melhora de forma sentida.

O verdadeiro sucesso de Portugal não será apenas crescer mais algumas décimas. Será voltar a criar a convicção de que trabalhar compensa. Que estudar abre portas. Que empreender vale a pena. Que constituir família não é um ato de coragem financeira. Que o futuro não é um privilégio.

É aqui que deve estar o centro do debate nacional: reconstruir a margem.

Essa margem não é luxo. É a base da liberdade e da autonomia. É o que permite a uma família planear, a um jovem arriscar, a uma empresa investir, a uma sociedade confiar. Com margem, há futuro.

Portugal tem talento, história, estabilidade e uma enorme capacidade de reinvenção. O que precisa agora é de uma ambição simples, mas decisiva: deixar de gerir apenas dificuldades e começar a construir prosperidade.

Porque uma sociedade não se mede apenas pelo que aguenta. Mede-se pelo que permite sonhar. E Portugal precisa, mais do que nunca, de voltar a ser um país onde o esforço não serve apenas para chegar ao fim do mês, mas para abrir caminho ao futuro.

Secretária Geral Sedes