«Todos, todos, todos». A frase com que o Papa Francisco eternizou as Jornadas da Juventude em Lisboa podia bem ser adaptada a slogan de campanha de António José Seguro. Só neste fim de semana passado, houve o Manifesto dos 250 ‘não socialistas’ a apelar ao voto no candidato do PS, mais uma ‘prancha’ do grão-mestre do Grande Oriente Lusitano exortando os maçons a irem às urnas em defesa dos «valores da democracia, do estado de Direito e do humanismo» e ainda um outro manifesto, de católicos, professando que «a fé não é um adereço de campanha, é caminho de vida, tecido de coerência, verdade e serviço» e promovendo a mobilização ao redor da candidatura do antigo secretário-geral socialista.
Se Fernando Cabecinha tornou pública, em comunicado, a sua mensagem aos maçons, transformando-a em posição institucional da maçonaria – ou melhor, da obediência que lidera –, e se os católicos abriram o seu manifesto à livre subscrição na internet, o documento dos 250 ‘não socialistas’ juntou reconhecidos nomes da vida política, empresarial, social, cultural...
Nesse mesmo fim de semana e nos dias seguintes, tal como já acontecera na semana passada e, desde logo, na própria noite eleitoral da 1.ª volta das presidenciais, não faltaram outras destacadas personalidades a fazerem questão de revelar publicamente o seu sentido de voto no candidato «decente» (termo escolhido pelo antigo líder do CDS-PP Paulo Portas) e «honesto» (adjetivo usado pelo antigo líder do PSD, primeiro-ministro e Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva).
E a lista de nomes citáveis já vai tão extensa que, na verdade, até parece que a natureza do voto democrático passou a ser a publicidade e não o secretismo.
Que os extremos – e a extrema-esquerda em particular – o proclamem, não é de estranhar.
Agora, que democratas venham clamar, em nome da democracia, contra quem não toma posição pública em defesa do voto num determinado candidato é a grande novidade desta 2.ª volta das presidenciais de 2026.
Aliás, é o que resulta não só das tomadas de posição sucessivas a favor de Seguro como do chorrilho de críticas à ‘neutralidade’ de Luís Montenegro.
Podia o primeiro-ministro e líder do PSD_fazer coisa diferente, como reivindicam os seus adversários à esquerda e à direita e mesmo muitos dos que se incluem no seu espaço político?
Podia, claro. Mas desde que estivesse disposto a assumir todos os riscos inerentes a qualquer uma das alternativas – desde logo e em ambos os casos, a entregar de bandeja a liderança da direita a André Ventura, assim dando-lhe o poder que todos dizem querer combater.
Outra lição que também deve retirar-se das eleições de 18 de janeiro é a de que ninguém é dono dos votos de outros. A indicação de voto por um partido, uma organização, um grupo de cidadãos, uma confissão religiosa ou uma sociedade secreta tem, hoje, um valor residual, diminuto, às vezes quase nulo.
Está, agora, mais do que provado, democraticamente.
Até porque, na realidade, não há nada mais democrático do que o princípio ‘um homem ou uma mulher, um voto’.
Daí que menos se perceba o afã declarativo da escolha que cada um vai fazer no dia 8 de fevereiro.
É_evidente que, com tantos apoios e apoiantes assumidos, já só um terramoto político poderia abalar António José Seguro e desviá-lo de uma caminhada tranquila até ao Palácio de Belém.
E a sua vitória, desta vez, não será por ‘poucochinho’ – o cúmulo da ironia seria mesmo ultrapassar o recorde de Mário Soares, quem dele disse o que nem António Costa, Augusto Santos Silva ou Mariana Vieira da Silva ousaram dizer, mesmo não se tendo coibido de o desqualificarem e desvalorizarem.
Isto é, independentemente do entusiasmo que possa, ou não, gerar e ainda do que possa ter corrido ou venha a correr menos bem, Seguro vai mesmo ser eleito sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa.
Já não há margem para dúvidas.
A única que resta é a dimensão da votação de André Ventura, para quem também a vitória nestas eleições ficou assegurada na 1.ª volta, pela simples passagem à 2.ª.
Uma coisa é André Ventura chegar
ou passar dos 30% na 2.ª volta e ficar perto dos votos conquistados por
Luís Montenegro nas últimas legislativas.
Outra, é ficar aquém e bater naquele que poderá então começar a fixar-se como um teto para o Chega.
E isso é o que vai estar verdadeiramente em jogo a 8 de fevereiro. Sem mais exageros nem dramatismos. Porque é assim que funciona a democracia.