Uma enxurrada de asneiras

Maria Lúcia Amaral tem com certeza muitos méritos, mas não faz a mínima ideia do papel que cabe à ministra da Administração Interna numa situação de crise como esta.

Depois da humilhante derrota do candidato apoiado pelo PSD na primeira volta das presidenciais de 18 de janeiro, o pior que poderia ter acontecido ao primeiro-ministro e líder social-democrata era mesmo uma calamidade como a provocada pela depressão Kristin seguida de uma enxurrada de asneiras de um Governo que, num repente, parece ter
ficado à deriva.

Se os avisos – ou alertas – até foram ativados, a verdade é que foram menosprezados, desde logo, pelas próprias autoridades (de outro modo, nunca o comandante da Proteção Civil poderia ter-se ausentado do país em pleno ‘olho do furacão’). Como a tempestade e seus efeitos começaram por ser desvalorizados pelo próprio primeiro-ministro, que entendeu não ser seu dever dirigir logo no primeiro dia uma mensagem ao país, nem convocar de imediato Conselho de Ministros extraordinário para decretar o estado de calamidade (foram precisos dias) e colocar no terreno todos os meios humanos e técnicos possíveis, a começar pelos militares e em particular de engenharia militar.

É certo que é preciso tempo tanto para um levantamento mais aproximado do verdadeiro impacto da tempestade e seus prejuízos, como para a elaboração do vasto conjunto de medidas de resposta no curto, médio e longo prazos que permita acorrer às necessidades mais básicas e imediatas das populações e desencadear o plano de recuperação e restabelecimento da normalidade com a brevidade possível.

Ora, foi essa resposta às necessidades mais básicas e imediatas das populações que ficaram sem telhado, sem eletricidade, sem água, sem comunicações que falhou nos primeiros dias desta crise.

E falhou clamorosamente!

Faltou comando – tem de ser central e, nestes casos, do próprio PM –, a descoordenação foi gravíssima e as populações ficaram ao desamparo.

Como se não bastasse, à enxurrada de erros de inação e omissão seguiu-se uma chuvada de ações de propaganda que só agravaram as coisas – do vídeo postado e apagado nas redes sociais com o ministro da Presidência à encenação do ministro da Defesa com as mais altas patentes e umas dezenas de militares com tenda armada para as tv’s, dos dislates engasgados do ministro da Coesão e da Economia à trapalhada do Ministério da Solidariedade e da Segurança Social com os apoios anuais  que passaram a mensais ou, ainda, à ministra da Administração Interna a dar um ensinamento ao presidente da Câmara de Leiria sobre os processos de «aprendizagem coletiva».

E há vítimas mortais e centenas de milhares de pessoas sem água, sem luz e sem comunicações durante dias e inúmeras casas, empresas e infraestruturas parcial ou totalmente destruídas. E continua a chuva e o frio e as cheias... sem tréguas.

E há mais mortos, gente que caiu dos telhados a tentar remendá-los, e outros intoxicados pelo gerador que foi incautamente instalado dentro de casa.

O Conselho de Ministros extraordinário reuniu cinco dias depois. O estado de calamidade foi prolongado. Há mais militares envolvidos nas operações e mais mobilização de meios de todo o país para as zonas mais atingidas. Os comboios estão suspensos em vários pontos do país, por danos resultantes da depressão Kristin, mas também pela chuva que continuou intensa nos dias seguintes.

Afinal, os governadores civis sempre tinham alguma utilidade. Entre muitas competências obsoletas, eram pontos focais da comunicação com o Governo central instalado no Terreiro do Paço (agora, seria antes no Campus da João XXI) e tinham peso político local para assegurar o comando e a coordenação das operações no terreno, com a proximidade que a dimensão do distrito permite.

Tal como em tragédias passadas, como nos incêndios de Pedrógão Grande e de outubro seguinte, voltaram a fazer falta.

Como faz falta, sobretudo, uma ministra da Administração Interna com peso político e voz de comando num momento tão crítico como o que o país está a viver.

Maria Lúcia Amaral refugiou-se num «trabalho invisível» para justificar que ninguém lhe tenha posto a vista em cima nos momentos cruciais, mas foi indisfarçável aquele ar de atarantada a fazer lembrar Constança Urbano de Sousa naquele terrível ano de 2017.

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Bem concluiu o Presidente Marcelo, cujo primeiro mandato ficou marcado pela tragédia naquele verão de inferno e acaba o segundo com nova calamidade num inverno negro: «Não correu bem, não correu bem, não correu bem».

Pior era, de facto, difícil.

 

Ao Miguel Vieira da Silva, com a imensa tristeza de não poder voltar a esperar pela sua companhia. Saudade!

 

mario.ramires@nascerdosol.pt