quarta-feira, 22 jul. 2026

Três bengaladas na cartola, três beijos e um pontapé

Passou tão pouco tempo e já voltámos a gostar de ouvir o que Marcelo tem para dizer. Como o elogio ao discurso do seu sucessor no 10 de Junho. Quem sabe, nunca esquece.

António José Seguro devia parar um bocadinho no seu frenesim discursivo e olhar para o exemplo do seu antecessor. Se há mal de que Marcelo Rebelo de Sousa tenha padecido no exercício dos seus mandatos presidenciais foi mesmo o de ter falado demais, banalizando a palavra do chefe de Estado e, assim, retirando-lhe poder e eficácia.

E Marcelo, professor universitário de cátedra, tem o dom da palavra e sabe medir cada sentença, sobretudo nos discursos escritos ainda que com acrescentos de improviso meticulosamente pensados ou de incontida e irresistível cedência a tentação maior do momento ou da circunstância.

Seguro não. E as frases redondas somam-se aos clichés e lugares comuns que predominam em intervenções muito pouco interessantes e nada impactantes.

Também por isso, devia poupar mais nas falas, para sua salvaguarda e para que seja ouvido quando tiver algo a dizer.

Marcelo deixou-lhe, aliás, o aviso, ou conselho, quando interrompeu a sua prometida abstinência de pronúncia política de ex-Presidente para classificar de «excecional» o discurso de Seguro na cerimónia do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Um elogio que o seu sucessor devia saber interpretar e só depois agradecer.

António José Seguro foi eleito, à segunda volta contra André Ventura, com a maior percentagem de votos da história das presidenciais em democracia. Muito mais pela rejeição do eleitorado em relação ao seu oponente do que por convicção e empatia com a sua candidatura.

Pelo que deveria aproveitar o estado de graça dos primeiros tempos no cargo para conquistar e consolidar aqueles que nele votaram.

E para tanto nada contribuiu o veto político da lei que proíbe hastear bandeiras ideológicas ou de causas em edifícios públicos, mesmo na véspera do Dia de Portugal, permitindo que câmaras como a de Évora tenham substituído a bandeira de Portugal pela bandeira LGBT no dia 10 de Junho. Pode convencer uma minoria de radicais, bloquistas e afins, mas mais ninguém de bom senso e razoabilidade.

Marcelo começou nos píncaros mas rapidamente desbaratou a sua popularidade junto do seu eleitorado de origem pelo colinho que decidiu dar ao Governo de_António Costa e da ‘geringonça’, mas conquistou essa esquerda. Ao ponto de ser reeleito sem dificuldade por a esquerda ter-se-lhe convertido e a direita não o ter querido penalizar.

Já Seguro nunca convenceu a esquerda e acabou por ver o centro-direita assegurar-lhe a vitória.

Ora, com o resultado que obteve, dificilmente conseguirá ser reeleito em 2031 com uma percentagem superior à da sua primeira eleição, como aconteceu com todos os seus antecessores.

Mas tem é de cuidar em não defraudar as expectativas que nele depositam os chamados ‘moderados’, para não correr o risco de poder ser o primeiro Presidente do pós-25 de Abril a cumprir apenas um mandato.

Não vá voltar a atravessar-se-lhe pelo caminho alguém que ache que a sua prestação em Belém seja ‘poucochinha’ ou que tenha passos mais seguros para a maioria do eleitorado.

Para já, e a pensar no seu futuro, é melhor que ouça Marcelo naquilo que diz e que... não diz.

E arrepiar caminho.

O elogio de Marcelo ao discurso do 10 de Junho está para Seguro como as três bengaladas na cartola, os três beijos e o pontapé no rabo que o agora ex-Presidente deu a estudantes de Coimbra durante a Queima das Fitas num restaurante em que entrou por acaso na ‘cidade do conhecimento’.

Diz a tradição que dá sorte às vítimas para a sua vida profissional.

A Seguro, que sirva de aviso.

mario.ramires@nascerdosol.pt