Começou o Mundial. Para a Seleção Nacional, o pontapé de saída é só daqui a uns dias, mas a esperança cresce à medida que os dias passam e a hora se aproxima. E também o nervoso miudinho.
Portugal já não é Cristiano Ronaldo e mais dez – são 11 e no banco há mais com valia para a titularidade.
E se nos 11 ainda há Cristiano Ronaldo, é por direito próprio, com mérito, muito trabalho e disciplina.
Nas últimas duas décadas, o capitão da Seleção repartiu com Messi o título de melhor jogador do Mundo e entrou para a elite dos lendários, com Pelé, Maradona, Cruyff, Eusébio, Puskas, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo o Fenómeno, Platini, Zidane ou Beckenbauer.
Com um dos melhores guarda-redes do mundo (Diogo Costa), quatro bicampeões europeus pelo PSG (Vitinha, João Neves, Nuno Mendes e Gonçalo Ramos), mais o melhor jogador do ano e novo recordista de assistências numa só época da Premier League (Bruno Fernandes), é quase irónico que o setor menos forte da equipa das Quinas seja precisamente... o ataque. Ou melhor, falta-nos Cristiano Ronaldo ao mais alto nível. E, porém, há Gonçalo Ramos, Gonçalo Guedes e João Félix. E ainda há Bernardo Silva e Rafael Leão, Francisco Conceição ou Trincão.
Com uma lista de selecionados fora de série, Roberto Martínez pode continuar a sonhar.
É verdade que o conjunto não corresponde à qualidade que deveria resultar da soma de cada uma das partes que o compõem.
Mas, apesar de tudo, e embora não esteja no top 3 dos favoritos, Portugal tem argumentos para chegar longe e, quem sabe, regressar da terra de Colombo com o troféu mais cobiçado.
Será um sonho, mas já Sebastião da Gama escrevia que ‘pelo sonho é que vamos’.
E, quando a coisa engata, Portugal sabe jogar muito, como já bastas vezes o demonstrou, desde aquele memorável Mundial de 1966 dos célebres Magriços de Eusébio e Coluna, aos triunfos nos escalões mais jovens da chamada ‘geração de ouro’ liderada por Carlos Queiroz, ao Europeu caseiro de 2004, que nos fugiu por tão pouco, e sobretudo àquele campeonato da Europa de 2016 em que o pontapé surpresa de Éder deixou de rastos os superfavoritos e anfitriões franceses e lançou a euforia entre os nossos emigrantes e no país inteiro.
Tal como Fernando Santos chegou com muita fé a França – e soube mobilizar os torcedores portugueses, que não regatearam apoio aos nossos selecionados – e como Luís Filipe Scolari soube criar uma onda de entusiasmo em toda a Nação – com uma bandeira de Portugal em cada casa e em cada carro – em torno daquela equipa também de sonho em 2004 (já com Cristiano Ronaldo mas sobretudo de Luís Figo, Rui Costa, Deco, Pauleta, Quaresma e companhia) é preciso acreditar e incentivar a Seleção.
Se os jogadores estão desgastados e sobrecarregados por uma época castigadora com jogos a mais e um ganancioso excesso de competições, isso é válido para todos e não só para os portugueses.
Aliás, nesse particular, Portugal até tem a vantagem de contar com um banco de luxo, que quase dá para fazer duas equipas de semelhante e elevadíssimo valor. Tenha Roberto Martínez o engenho e a arte de saber fazer uma boa e equilibrada gestão dos seus jogadores.
A estreia com o Congo e o segundo jogo com o Uzbequistão, duas seleções bem mais modestas e perfeitamente ao alcance da portuguesa, podem bem ser decisivos. Porque permitirão galvanizar e dar confiança a Portugal para um torneio em que tem uma palavra a dizer; ou não, e terem o efeito contrário, que nem os velhos do Restelo (que os há, como sempre) o desejam. Mas esperemos que os fantasmas de Saltillo 1986 – e os muitos erros cometidos nesse Mundial do México de tristes e vergonhosas recordações – não reapareçam.
Ganhar o Mundial das Américas não será fácil, mas não é impossível.
E, convenhamos, Cristiano Ronaldo – como Eusébio em 66 – também bem o merecia.