terça-feira, 18 ago. 2026

Sodade des nha térra

A humildade, a disciplina tática, o querer e uma enorme entrega foi a diferença de uma equipa que se fez grande em relação às grandes que já saíram pela porta pequena.

Já fomos assim. Portugal já jogou com alma, com humildade, com raça, com uma enorme entrega e espírito de equipa. Sobretudo no tempo dos Magriços, de Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres, Águas e companhia. Mas também depois, do Chalana, do Jordão, do Gomes, do Bento, do Damas... Do tempo em que, como dizia Gabriel Alves, os nossos jogadores comiam a relva, davam tudo o que tinham e que não tinham, e jogavam à bola. Estrelámos. E esterilizámos.

A soma de um notável conjunto de extraordinários jogadores – talvez sem par na nossa história –, só por si, não chega para fazer da Seleção uma grande equipa.

E por isso saímos precocemente (nos oitavos de final) do Mundial das Américas e dos nossos sonhos. Aos pés da Espanha. Como o Brasil caiu na remada da Noruega e a Alemanha já fora corrida a pontapé (da marca de grande penalidade) pelo Paraguai.

O futebol é isto.

Confesso que, à partida, o novo modelo de Mundial alargado – com quase tantos países como a ONU – não me convenceu. Achei que os desequilíbrios eram tantos que a fase de grupos teria tanto interesse como bater em mortos. Enganei-me.

Como as novas regras da FIFA_ estão mesmo a funcionar. Não se tem visto jogadores estendidos no chão a toda a hora, nem faltas por dá cá aquela palha, nem prolongadas demoras na reposição da bola em jogo, nem antijogo feito modelo de jogo, tático ou estratégico.

Ganha o futebol e, sobretudo, o espetáculo – com a exceção das paragens para publicidade, que eles chamam de hidratação e que só quebram o ritmo de jogo.

E, claro, tirando a inacreditável anulação de um jogo de castigo ao jogador dos Estados Unidos que viu um cartão vermelho, com a FIFA de Infantino a vergar-se perante Trump e a rever uma penalização que é automática. Vergonhoso e indigno, sobretudo quanto o próprio Presidente americano assume que interferiu para reverter a suspensão de Balogun. Com êxito, pasme-se.

Trump justificou-se dizendo que Balogun não podia deixar de jogar no jogo seguinte (com a Bélgica), porque não fazia sentido impedir os melhores jogadores de jogarem. E citou os exemplos de Messi, Ronaldo ou Harry Kane. Ou seja, as regras não são iguais para todos. E a FIFA_confirmou-o.

É também por isso que a passagem da modesta seleção de Cabo Verde fica na história deste Mundial.

Sem vedetas, o guarda-redes Vozinha, quarentão sem contrato com um clube, virou a estrela da equipa com a sua experiência e o seu exemplo de capitão, as suas defesas e saídas destemidas, a sua liderança motivadora.

Mas Cabo Verde foi muito mais do que Vozinha. Jogou à bola. Com uma disciplina tática impressionante, a defender e a atacar – extraordinário como fechavam em bloco e abriam com cinco e seis jogadores nas transições rápidas e, igualmente, na recuperação das suas posições após cada perda de bola –, sem perder tempo desnecessário nem abusando das faltas, mesmo mantendo a pressão (uma única falta no jogo com a Espanha passou a constituir recorde).

Não é qualquer um que joga de igual para igual com a superfavorita e campeã mundial em título Argentina de Messi.

Cabo Verde jogou.

Bubista, discreto treinador, grande motivador dos seus medianos jogadores e ideólogo de um futebol que fez da defesa o seu melhor ataque, sem destruir mas a construir, foi o primeiro responsável.

caricatura.bubista
Ilustração Carlos Rivaherrera

E o golo de Lopes Cabral é a melhor prova, um hino ao futebol. Não apenas pela beleza do remate indefensável, em arco e ao ângulo mais afastado, mas por toda a jogada. Vale mesmo a pena rever (já o fiz vezes sem conta). Do primeiro toque de Vozinha na sua pequena área, a evitar a entrada do avançado argentino que já vinha de carrinho, à forma como os defesas e médios cabo-verdianos driblaram a pressão alta dos seus adversários, à variação de flanco do passe magnífico para Lopes Cabral , à receção irrepreensível, fletindo de imediato para o bico da área contrária para desferir o remate mágico, antes da corrida triunfal para a bancada para abraçar a companheira no meio da claque em euforia. E celebraram todos, como choraram todos só quando acabou o jogo e a esperança de um feito ainda maior de quem nunca desistiu.

Extraordinário!

Naquele tempo dourado dos Magriços, de Eusébio e Coluna, como nos anos prateados de Chalana, Jordão e Gomes, falava-se muito de ‘vitórias morais’. Que no mundo economicista de hoje deixaram de ter qualquer valor. O resultado podia ser desfavorável a Portugal, mas moralmente a vitória era nossa. Pelo que jogávamos, pela humildade, pela disciplina tática, pelo querer, por uma enorme entrega. Pelo futebol. E saíamos pela porta grande! Como Cabo Verde neste Mundial, em que a derrota não contou.

mario.ramires@nascerdosol.pt