Já fomos assim. Portugal já jogou com alma, com humildade, com raça, com uma enorme entrega e espírito de equipa. Sobretudo no tempo dos Magriços, de Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres, Águas e companhia. Mas também depois, do Chalana, do Jordão, do Gomes, do Bento, do Damas... Do tempo em que, como dizia Gabriel Alves, os nossos jogadores comiam a relva, davam tudo o que tinham e que não tinham, e jogavam à bola. Estrelámos. E esterilizámos.
A soma de um notável conjunto de extraordinários jogadores – talvez sem par na nossa história –, só por si, não chega para fazer da Seleção uma grande equipa.
E por isso saímos precocemente (nos oitavos de final) do Mundial das Américas e dos nossos sonhos. Aos pés da Espanha. Como o Brasil caiu na remada da Noruega e a Alemanha já fora corrida a pontapé (da marca de grande penalidade) pelo Paraguai.
O futebol é isto.
Confesso que, à partida, o novo modelo de Mundial alargado – com quase tantos países como a ONU – não me convenceu. Achei que os desequilíbrios eram tantos que a fase de grupos teria tanto interesse como bater em mortos. Enganei-me.
Como as novas regras da FIFA_ estão mesmo a funcionar. Não se tem visto jogadores estendidos no chão a toda a hora, nem faltas por dá cá aquela palha, nem prolongadas demoras na reposição da bola em jogo, nem antijogo feito modelo de jogo, tático ou estratégico.
Ganha o futebol e, sobretudo, o espetáculo – com a exceção das paragens para publicidade, que eles chamam de hidratação e que só quebram o ritmo de jogo.
E, claro, tirando a inacreditável anulação de um jogo de castigo ao jogador dos Estados Unidos que viu um cartão vermelho, com a FIFA de Infantino a vergar-se perante Trump e a rever uma penalização que é automática. Vergonhoso e indigno, sobretudo quanto o próprio Presidente americano assume que interferiu para reverter a suspensão de Balogun. Com êxito, pasme-se.
Trump justificou-se dizendo que Balogun não podia deixar de jogar no jogo seguinte (com a Bélgica), porque não fazia sentido impedir os melhores jogadores de jogarem. E citou os exemplos de Messi, Ronaldo ou Harry Kane. Ou seja, as regras não são iguais para todos. E a FIFA_confirmou-o.
É também por isso que a passagem da modesta seleção de Cabo Verde fica na história deste Mundial.
Sem vedetas, o guarda-redes Vozinha, quarentão sem contrato com um clube, virou a estrela da equipa com a sua experiência e o seu exemplo de capitão, as suas defesas e saídas destemidas, a sua liderança motivadora.
Mas Cabo Verde foi muito mais do que Vozinha. Jogou à bola. Com uma disciplina tática impressionante, a defender e a atacar – extraordinário como fechavam em bloco e abriam com cinco e seis jogadores nas transições rápidas e, igualmente, na recuperação das suas posições após cada perda de bola –, sem perder tempo desnecessário nem abusando das faltas, mesmo mantendo a pressão (uma única falta no jogo com a Espanha passou a constituir recorde).
Não é qualquer um que joga de igual para igual com a superfavorita e campeã mundial em título Argentina de Messi.
Cabo Verde jogou.
Bubista, discreto treinador, grande motivador dos seus medianos jogadores e ideólogo de um futebol que fez da defesa o seu melhor ataque, sem destruir mas a construir, foi o primeiro responsável.
E o golo de Lopes Cabral é a melhor prova, um hino ao futebol. Não apenas pela beleza do remate indefensável, em arco e ao ângulo mais afastado, mas por toda a jogada. Vale mesmo a pena rever (já o fiz vezes sem conta). Do primeiro toque de Vozinha na sua pequena área, a evitar a entrada do avançado argentino que já vinha de carrinho, à forma como os defesas e médios cabo-verdianos driblaram a pressão alta dos seus adversários, à variação de flanco do passe magnífico para Lopes Cabral , à receção irrepreensível, fletindo de imediato para o bico da área contrária para desferir o remate mágico, antes da corrida triunfal para a bancada para abraçar a companheira no meio da claque em euforia. E celebraram todos, como choraram todos só quando acabou o jogo e a esperança de um feito ainda maior de quem nunca desistiu.
Extraordinário!
Naquele tempo dourado dos Magriços, de Eusébio e Coluna, como nos anos prateados de Chalana, Jordão e Gomes, falava-se muito de ‘vitórias morais’. Que no mundo economicista de hoje deixaram de ter qualquer valor. O resultado podia ser desfavorável a Portugal, mas moralmente a vitória era nossa. Pelo que jogávamos, pela humildade, pela disciplina tática, pelo querer, por uma enorme entrega. Pelo futebol. E saíamos pela porta grande! Como Cabo Verde neste Mundial, em que a derrota não contou.