Quando o pão que comes sabe a lagosta

A que sabe um pão? A farinha? A fermento? A sal? A água? Um pão, simplesmente, sabe bem. E sabe tanto melhor quanto maior for a sua falta...  ou a fome.

Lá tivemos mais uma greve no setor da Saúde – desta vez dos enfermeiros – na semana seguinte ao falhanço de um entendimento em sede de concertação social sobre o pacote laboral proposto pelo Governo e anunciado como uma reforma estratégica.
E logo no dia seguinte, 1 de maio, veio a CGTP-Intersindical anunciar uma nova greve geral para início de junho – a segunda em menos de seis meses, depois do dispendioso fiasco da realizada a 11 de dezembro.

Antes, a última greve geral ocorrera há mais de dez anos, nos tempos de Pedro Passos Coelho à frente do Governo e da austeridade imposta pela troika em consequência do descalabro financeiro dos Governos socialistas de José Sócrates.

Como se, de então para cá, tudo tenha sido um mar de rosas no mercado de trabalho e na economia nacional, com o crescimento desejado e o aumento da produtividade e dos salários, com o país a convergir a olhos vistos com os parceiros europeus e cada vez menos portugueses na pobreza ou no limiar da pobreza.

Ora, a realidade foi precisamente a inversa, com a única vantagem, desta vez e contrariando a história dos últimos 50 anos, de os Governos PS de António Costa terem ao menos conseguido manter as contas públicas equilibradas.

Fizeram-no à custa do crescimento exponencial da carga fiscal, da ausência total de investimento público (sustentando o anémico crescimento económico sobretudo no turismo e no consumo) e de uma política de cativações que levou à falência generalizada dos serviços públicos, com a Saúde, a Educação e a Justiça à cabeça.

É por isso que só o dogmatismo ideológico e o taticismo político justificam que a paz social (apenas quebrada por movimentos inorgânicos como os que levaram às paralisações dos camionistas ou dos professores) tenha vigorado durante a ‘geringonça’ e em pouco mais de dois anos de Executivos AD já estejamos a assistir à preparação da segunda greve geral.

Como é por isso que esta greve geral anunciada para 3 de junho deverá muito provavelmente registar uma adesão próxima da que se verificou na de 11 de dezembro, que pouco mais foi do que uma greve da função pública.

Ainda assim, com o país a ter de pagar um preço demasiado alto para as parcas possibilidades de uma economia sem dinâmica nem perspetivas.

A greve, cada greve, na conjuntura atual, nacional e internacional, é uma irresponsabilidade.

É também por isso que as alterações às leis do trabalho não podem ser circunstanciais, mas substanciais.

Se a manifestação dos enfermeiros, nesta terça-feira, seguiu do Campo Pequeno para o Ministério da Saúde, na João Crisóstomo, o pacote laboral segue agora da Praça de Londres para S. Bento.

Sem o assentimento dos parceiros sociais mas acolhendo algumas
das alterações da sua lavra, as
alterações às leis do trabalho ficam
na dependência de um entendimento entre os partidos da coligação que suporta o Governo e as bancadas à sua direita, do IL e do Chega. Não só para garantir a sua aprovação, mas também a ratificação em caso de veto
presidencial.

A reforma laboral é imperiosa e urgente. Para o país, para as empresas e para os próprios trabalhadores.

É como o pão para a boca.

Ou como tudo a que só damos valor quando não o temos e mais ainda quando deixamos de o ter, com a saúde no topo.

Água, sal, farinha e fermento são os ingredientes bastantes para se fazer um pão. Que não sabe a água, nem a sal, nem a farinha, nem a fermento.

Um pão, simplesmente, sabe bem.

E sabe tanto melhor quanto maior for a sua falta ou quando, por falta de educação, mas sobretudo na pobreza ou na doença, nem um pão podemos comer.

Basta uns dias para se apreciar um pequenino e simples papo seco. Que sabor maravilhoso. Qual lagosta, trufa ou caviar. Sabe a saúde, recuperação, esperança...

E não sabe a mais nada, sabe bem!

É disso que o país precisa! Porque está doente, pobre, mal educado e injusto.

 

P.S. – Aos Drs. Alexandre Ferreira e Paulo Roquete e a todos os outros médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares do Hospital da Luz de Lisboa, o meu mais profundo reconhecimento e penhorado agradecimento. Não os esquecerei!

 

mario.ramires@nascerdosol.pt