segunda-feira, 17 ago. 2026

Por que te calas?

António José Seguro não quererá – nem, mesmo querendo, poderia – ser como Marcelo Rebelo de Sousa. Mas manter-se mudo e quedo, com o que se está a passar, também não pode.

Quase ninguém deu importância à notícia do assalto ao restaurante Belém 2 a 8, ali paredes meias com o palácio que é Residência Oficial do Presidente da República e mesmo em frente à esquadra da PSP que fechara dias antes para obras.

A verdade é que esse roubo – com arrombamento da porta de vidro do estabelecimento – é um sinal dos tempos e da falta de segurança à vista de toda a gente, sendo que se trata de edifício vizinho da Presidência da República. Sim, como é possível que o perímetro do Palácio de Belém esteja completamente vulnerável e sem vigilância? Ao ponto de um qualquer larápio poder sentir-se com todas as condições para partir o vidro da porta, introduzir-se no restaurante, apoderar-se do que quis e pôr-se em fuga?

Por mera coincidência, dias depois, o gabinete do líder da Oposição no Palácio de S. Bento, no andar mais nobre da Assembleia da República, foi também violado e vandalizado por alguém até hoje não identificado. Garante André Ventura que houve documentos em suporte de papel e digital que foram furtados. Mas não faltaram as vozes que, de imediato, alvitraram a possibilidade de tudo não passar de uma encenação.

Seja como for, estaremos sempre perante mais um caso grave de absoluta insegurança e falta de vigilância no interior da sede de um órgão de soberania.

Não há câmaras de vigilância nem nenhum tipo de controlo – para além dos mais básicos nas portas de acesso do exterior – no interior do Palácio de S. Bento, seja nos Passos Perdidos, seja noutras áreas comuns ou até nas mais reservadas, como as salas dos partidos ou os gabinetes dos deputados.

Sem câmaras nem, que se saiba, testemunhas, provavelmente ficaremos sem saber o que realmente se passou naquele gabinete. Aliás, o mais provável é que o inquérito entretanto aberto acabe arquivado como todos os outros que o Ministério Público considerou inconclusivos e sem mais diligências passíveis de poderem contribuir para o apuramento da verdade. Enfim...

É no mínimo estranho que não haja qualquer tipo de vigilância e de segurança no interior da Assembleia da República. Ao ponto de um deputado que se queixa de ali ter sido vítima de furto de um computador portátil – Duarte Pacheco (PSD) – assumir que até para ir ao WC deixa a porta do gabinete fechada à chave.

Pode relativizar-se a importância de todos estes casos. Mas não deve. São demasiado graves.

Quando as falhas de segurança são clamorosas em Belém e em S. Bento, como confiar que ela existe no resto da capital, nos arrabaldes, noutras cidades e vilas e aldeias, nos campos e nos descampados?

O povo é sereno e de brandos costumes, ainda é verdade... mas já não é o que era e convém atalhar caminho.

O pior que pode acontecer é continuar a assobiar para o lado, fingir que está tudo bem e que a lei e a ordem imperam.

Ora, quando os exemplos que vêm de cima são o que são e assistimos ao que temos vindo a assistir nos próprios órgãos de soberania, não pode haver complacência, conivência ou tão pouco silêncio comprometido ou cúmplice.

Porque vai acabar por descambar. E depois de casa arrombada de nada vale pôr as trancas na porta. Já será tarde.

O mesmo vale para outros silêncios.

Luís Neves quebrou-o, finalmente, depois de semanas a prometer explicações.

Já não era sem tempo. As primeiras entrevistas televisivas não lhe tinham corrido bem – mais lhe valera ter-se ficado pela assunção dos erros e garantia da respetiva correção – e a demora estava a tornar-se insustentável.

Disse o que tinha a – e podia – dizer.

Ora, perante tudo o que se sabe e já foi dito, impõe-se que o Presidente da República diga agora de sua Justiça.

Não pode continuar calado, a só aparecer ao lado de Cavaco Silva, em visitas de cortesia, com discursos circunstanciais ou a fingir que não tem nada a ver com nada.

O ministro da Administração Interna não é um governante qualquer, comanda as polícias e a proteção civil, não pode manter-se sob permanente suspeição e fragilizado na sua autoridade.

António José Seguro não quer – nem poderia – ser igual a Marcelo Rebelo de Sousa. Mas também não pode refugiar-se atrás das cortinas de Belém.

Tem de tomar uma posição.

caricatura antonio josé seguro

A bem do regular funcionamento das instituições e do restabelecimento da confiança dos cidadãos nos seus mais altos representantes e governantes. Não há outro caminho. De outro modo, fica atrelado ao descaminho.

mario.ramires@nascerdosol.pt