Lá se foram os ovos todos no mesmo cesto. Se a derrota clamorosa de Luís Marques Mendes nas eleições de domingo foi, também e obviamente, uma pesada derrota do líder do PSD e chefe do Governo, aguardemos para ver quais serão as suas consequências no futuro próximo tanto no partido como na ação do Executivo.
Na interpretação mais benigna para Luís Montenegro, Marques Mendes teria perdido ‘apesar’ do apoio do PSD e do empenhamento pessoal do primeiro-ministro e de membros do Governo na campanha presidencial. Isto é, a responsabilidade seria única e exclusivamente do candidato, que – para que assim fosse – ter-se-ia antecipado e imposto a sua candidatura ao partido e respetiva direção.
Ora, por muito mérito que o candidato tenha tido na forma como preparou e transformou a sua ‘candidatura natural’ praticamente sem alternativa para esta direção do partido, Luís Montenegro podia sempre ter feito outra escolha. Ou, sabendo os riscos que corria, podia ao menos ter evitado o comprometimento do próprio Governo, não se envolvendo pessoal e tão empenhadamente na campanha oficial (e por mais do que uma vez) e aconselhando os seus ministros a também não aparecerem colados ao candidato.
Assim, tendo de assumir a responsabilidade pela escolha do nome de Luís Marques Mendes como candidato apoiado pelo PSD e pela estratégia do final de campanha de associação deste candidato à estabilidade política e à sintonia entre Belém e S. Bento necessárias para uma melhor resposta aos desafios imediatos face às reformas estruturais que o país reclama e a uma complexa conjuntura internacional de incerteza e insegurança galopantes, Luís Montenegro não pode eximir-se de responsabilidades.
Por isso, a derrota não foi só do candidato e de uma campanha antiquada e retrógrada, sem capacidade de reação aos ataques dos seus adversários e sem criatividade, nem alma, nem diferença.
Foi, sim, também do partido que não se mobilizou em torno do candidato, de um Governo que continua sem implementar reformas que permitam projetar esperança para o futuro – e evitar ‘as perceções’ (para usar as palavras de Montenegro) de que tudo continua sem solução e os problemas se agravam – e de mais um primeiro-ministro sem rumo ou sem uma ideia para o país.
Ao ponto de, no rescaldo da noite eleitoral, Montenegro ter dito que ‘o espaço político do PSD ‘não estará representado’ na segunda volta destas presidenciais.
O que diria o Presidente Marcelo caso pudesse continuar em Belém e o PM assumisse publicamente que a sua base de apoio numas eleições nacionais tinham ficado reduzidas a menos de 12%?
Por mais que uns e outros tenham os seus argumentos, Luís Montenegro não precisava de ter dito o que disse para não declarar o apoio do PSD a qualquer dos dois candidatos que passaram à segunda volta. E daí ter sentido a necessidade de emendar a mão no debate parlamentar desta quarta-feira.
Seguindo o exemplo do seu antecessor em S. Bento e atual presidente do Conselho Europeu, António Costa – com quem está cada vez mais parecido na ação política (até nos apoios ‘encapotados’ com a utilização do adjetivo ‘seguro’ em discursos públicos) –, Montenegro fez a escolha menos arriscada e a única que lhe permite manter a estratégia seguida até aqui para não ficar refém nem do Chega nem do PS.
Mas tem riscos. E não são poucos.
Desde logo, porque acabou o estado de graça e a ideia de invencibilidade da AD_– não foi à toa que na noite eleitoral nem falou dela nem do seu parceiro e se limitou a dizer que é o PSD que está no Governo da Nação, da Madeira e dos Açores e na maioria das Câmaras.
Depois, porque o partido ficou completamente dividido entre os que se apressaram a manifestar apoio a António José Seguro – que, não obstante toda a taxa de rejeição inicial, não deixa de ser o candidato das esquerdas e do PS – e os muitos que, mesmo não o tornando público, acabarão a votar em André Ventura – cuja taxa de rejeição já foi muito maior no PSD e no país, como resulta da crescente votação no Chega e em particular no seu líder.
E isso pode ser dramático para Montenegro.
Claro que Seguro em Belém lhe garante uma governação mais tranquila e, sobretudo, com estabilidade até ao fim da legislatura. Mas, por outro lado, fica dependente do PS e de José Luís Carneiro, que, até ver, são os últimos interessados em eleições antecipadas com o Chega em crescendo e a constituir-se como verdadeira oposição e alternativa.
O que não deixa outra possibilidade ao PSD de Luís Montenegro que não seja assegurar uma boa governação. Com reformas efetivas e que sejam percetíveis e bem percebidas pelo eleitorado. Com crescimento económico e consequente melhoria das condições de vida das pessoas, individuais e coletivas, com respostas para os problemas mais prementes, que são muitos, da habitação à saúde, da educação à justiça.
De outro modo, o caldo vai entornar e, como alertou João Cotrim de Figueiredo num premonitório discurso desta noite de domingo, ‘há um novo caminho que hoje se abriu e que não pode voltar a fechar-se’.