segunda-feira, 17 ago. 2026

Olhe, pai do Dr. Nuno, perdoe-lhe!

Deixemo-nos de hipocrisias. Uma república das bananas não pode ter leis de primeiro mundo. Se as leis têm malha fina e são para ser letra morta, então mudem-se as leis.

Onde estão aqueles, tantos, que se indignaram com o discurso de José Pedro Aguiar-Branco na sessão solene do 25 de Abril? Onde andam esses, os mesmos e muitos mais, que massacraram Marcelo Rebelo Sousa por ter reencaminhado para as entidades competentes o famigerado caso das crianças irmãs gémeas luso-brasileiras? Sim, esses imensos arautos da ética e da transparência e do caráter à prova de bala...

Marcelo Rebelo de Sousa nunca mais foi igual. A ‘cunha’ metida pelo filho, Nuno, para que as gémeas pudessem receber em Portugal o tratamento que lhes foi negado no Brasil gerou tamanha reação na classe política – sobretudo à esquerda – que transformou os últimos anos do segundo mandato presidencial de Marcelo em tempos horríveis, desgastantes, penosos para o chefe de Estado.

Marcelo Rebelo de Sousa cortou relações com o filho – «O Dr. Nuno Rebelo de Sousa» –, a quem, perante as câmaras e microfones dos media, responsabilizou pelo eventual favorecimento das gémeas que acabaram por ter o acompanhamento clínico (e receber a administração do medicamento caríssimo) no Hospital Santa Maria.

E houve comissão de inquérito e condenação pública da atuação do Dr. Nuno e do pai, o então Presidente da República.

Como se Portugal não fosse o país das ‘cunhas’, dos ‘jobs for the boys’ (‘and girls’), do favorzinho, da atençãozinha – e todos os demais diminutivos aplicáveis –, da prendinha ou da lembrança, do envelope ou da nota dobrada.

A troca ou mercadejar de favores faz parte da nossa cultura nacional, da tradição, da educação. Como o sangue que nos corre nas veias ou o oxigénio que respiramos.

Como se fosse tudo normal e os senhores representantes eleitos do povo eleitor contribuinte fossem como os demais e comuns cidadãos e não tivessem de ter especial cuidado e rigor no uso e gestão dos dinheiros e recursos públicos.

Como se não tivessem especiais e mais rigorosos deveres e obrigações do que o vulgo cidadão comum.

Longe não vão os tempos em que até era costume dos nossos tribunais os advogados e solicitadores deixarem num envelope a notinha da praxe para levantar um determinado processo para consulta – o chamado ‘confiado’ – para o escrivão e funcionários judiciais. E os senhores juízes bem sabiam que essa era a prática corrente e anuíam, mesmo dela nada beneficiando.

A questão é que o ‘confiado’ era de somenos e as más práticas são hoje muito mais e piores. A todos os níveis. Sem exceção. E o Legislador arvorou-se em puritano alardeador das regras e dos princípios, apertando a malha da transparência e da ética muito para além do que ele próprio considera exigível. Só porque é de lei nos países mais avançados e desenvolvidos, com níveis de formação, cultura e educação de patamares incomparáveis e referenciais. E, como assim, eles acham-se...

Deixemo-nos de hipocrisias. Num estado de direito democrático, o primado da lei quer dizer que as normas são para cumprir e não há quem esteja acima delas.

Ora, por maioria de razão, os titulares de órgãos de soberania têm de ser os primeiros a dar o exemplo, em vez de se arrogarem do direito – que não têm – a beneficiar de uma discriminação indevida, injustificável, inaceitável.

E voltamos ao discurso de Aguiar-Branco no último 25 de Abril ou ao de André Gonçalves Pereira nos idos tempos em que mandou a política às malvas quando se introduziram as primeiras regras mais apertadas de incompatibilidades para os políticos.

E que provocaram, já nesses velhos tempos do século passado como agora, tantas reações críticas e indignadas de quem se julga acima de qualquer suspeita, clama contra cabalas e conspirações quando há escrutínio e proclama princípios e máximas que só valem para os mais vulneráveis.

Pois é, se há quem não mereça perdão, não falta a quem sobeje impunidade. E a falta de critério é gritante.

É por isso que Aguiar-Branco tinha e tem toda a razão no que disse a propósito das regras do jogo político.

Num país de terceiro mundo, não passa de hipocrisia fingir que se acolhem e se aplicam as regras do primeiro mundo.

Elas só servem, de facto, para afastar os mais válidos da causa pública. Porque são os mais válidos quem as levam a sério e as respeitam._E, por isso, se afastam.

Os que se arrogam senhores de ética e seriedade à prova de bala, se e quando têm essa necessidade de o vir afirmar, fazem-no sem qualquer pejo contra todas as regras e princípios. Que valem e têm de continuar a valer... para os outros.

Olhe, pai do Dr. Nuno, chame mas é o filho e, com todo o seu afeto e espírito cristão, perdoe-lhe!

Neste país de suprema hipocrisia, já não se justifica o castigo.

mario.ramires@nascerdosol.pt