quarta-feira, 09 set. 2026

O saco de boxe

Luís Montenegro estudou bem a lição de António Costa. Quem não se lembra do tempo que o PM socialista levou para substituir um MAI amigo e ferido de morte?

Não falta quem já faça a comparação da situação – e do desgaste de vários ministros – deste Governo da AD de Luís Montenegro com a do Governo dos ‘casos e casinhos’ do PS de António Costa, que, apesar de ter maioria absoluta no Parlamento, caiu a meio da legislatura. Quem o faz lembra, porém, que António Costa e o PS da ‘geringonça’ já levavam oito anos no poder, com todos os vícios que o tempo alimenta em quem nele se instala, enquanto Luís Montenegro e a AD somam apenas pouco mais de dois anos.

Para já, e até mais ver, a comparação favorece claramente António Costa, uma vez que a degradação a que deixou chegar a sua equipa no Executivo foi ao ponto de quase não conseguir recrutar governantes senão no seu círculo mais restrito de amigos e colaboradores, quer na sede do partido, quer nos gabinetes dos ministérios, recorrendo à promoção de adjuntos e assessores a secretários de Estado e destes a ministros – era o que havia, ou o que sobrava, com disponibilidade.

Com um Governo sem maioria parlamentar e, sobretudo, sem provas dadas de capacidade para reunir os consensos necessários à aprovação, na Assembleia da República, de reformas essenciais ao crescimento e ao desenvolvimento do país, Montenegro também tem uma dificuldade acrescida em encontrar pessoas com créditos firmados e com a qualidade exigível para pastas nevrálgicas e socialmente mais impactantes.

Por isso, se o paralelismo entre Montenegro e Costa começou com as suspeições sobre a conduta do próprio primeiro-ministro – estando o ‘caso Spinumviva’ para Montenegro como a ‘Operação Influencer’ para António Costa, com a diferença crucial de um ter provocado eleições e enfrentado as urnas, enquanto o outro tentou evitá-las e aproveitou a oportunidade para zarpar para outros voos em Bruxelas –, a sucessão de insucessos, trapalhadas, escândalos ou, na expressão preferida do agora presidente do Conselho Europeu, ‘casos e casinhos’ envolvendo ministros ainda mais justifica a comparação.

Sendo certo que o nível de exigência ética e a cultura democrática, bem como o respeito pelas instituições e pelo povo, caíram a pique com a ‘geringonça’ e nunca mais recuperaram, nem com a mudança de protagonistas no poder.

Tudo somado, percebe-se por que razão Luís Montenegro segura os seus ministros para lá de todos os limites, tal como ostensivamente fez António Costa em relação a João Galamba.

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Até porque, no campo das comparações, logo surgiu, por escrito e oralmente, a ideia de que António José Seguro aprendeu a manter-se calado para marcar a diferença em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, nomeadamente para não cair na humilhação de ver um primeiro-ministro lembrar-lhe que não compete ao Presidente da República escolher os membros do Governo nem decidir quem deve ou não continuar como ministro ou secretário de Estado.

Na minha modesta opinião, o paralelismo mais óbvio deve ser feito entre o que está a passar-se com o atual ministro da Administração Interna, Luís Neves, e o famigerado ministro da mesma pasta entre 2017 e 2021, Eduardo Cabrita.

Das golas antifogo, que afinal eram inflamáveis, ao acidente mortal que envolveu o veículo em que seguia o ministro, Eduardo Cabrita manteve-se no Governo com a confiança de António Costa muito para além do que seria sustentável.

Até à inevitável demissão, funcionou como saco de boxe e, sobretudo, como almofada de proteção, não só para os outros membros do Governo mais fragilizados ou na mira da oposição, mas principalmente para o próprio primeiro-ministro.

Luís Neves está politicamente ferido de morte, tal como Eduardo Cabrita ficou quando sacudiu a água do capote no caso do acidente fatal, afirmando-se mero «passageiro» e deixando o seu motorista a responder sozinho.

Continuar como ministro pode ser útil para o primeiro-ministro, em particular numa altura crítica de fogos florestais e rurais.

Como Eduardo Cabrita foi muito útil a Costa. Ao ponto de, no momento da sua despedida, ter vindo lembrar a Marcelo Rebelo de Sousa que lhe devia a possibilidade de se recandidatar a um segundo mandato em Belém, pois, disse, fora graças a si que não se repetiram as tragédias de junho e outubro de 2017.

Costa manteve-o no Executivo até às vésperas das eleições e não se inibiu de livrar-se do fardo no momento em que julgou ser-lhe mais conveniente.

Montenegro também é um sobrevivente e, como está visto, segue a mesma bitola.

mario.ramires@nascerdosol.pt