terça-feira, 18 ago. 2026

Não, Senhor Ministro!

Acredito na seriedade de Luís Neves, que é um bom ministro. Mas devia ter-se ficado pelo reconhecimento de uma imprudência e corrigir de imediato o que fez mal feito.

Sim, Senhor Ministro! Tem V. Exa. toda a razão quando reconhece – como o fez em entrevista na TVI e na CNN Portugal no passado domingo – que cometeu «uma imprudência» ao contratar para realizar obras numa sua propriedade um empreiteiro ao qual ao longo de anos e enquanto diretor da Polícia Judiciária (PJ) adjudicara a prestação de vários serviços à instituição.

E sim, Senhor Ministro, fica-lhe bem admitir que, «se fosse hoje, faria de maneira diferente» – como confessou numa outra entrevista no mesmo dia ao canal NOW.

Mas não, Senhor Ministro, não devia ter acrescentado nenhum ‘mas’, nem repetir a afirmação que fez «o que toda a gente faz quando tem pequenas obras em casa».

Devia, simplesmente, ter-se ficado pela confissão e pela garantia de que estava já a corrigir tudo o que fizera de mal feito.

Nomeadamente, exigindo a imediata faturação de todas as obras já realizadas, procedendo ao seu pagamento e divulgando publicamente os respetivos comprovativos.

Para acabar de vez com qualquer dúvida de favorecimento.

E, por outro lado, devia tratar de imediato dos pedidos de licenciamento de todas as obras ilegalmente realizadas e/ou em curso, como a construção de uma piscina a que chamou «tanque» – a exemplo do que também fez (e foi tão publicamente badalado) a antiga embaixadora Ana Gomes em Sintra, e foi intimada a destruí-la pela Câmara local, tal como, aliás, outro edificado que a também ex-eurodeputada socialista considerou erradamente poder dispensar a imprescindível licença camarária.

São erros de palmatória, porventura desculpáveis ao cidadão comum, mas imperdoáveis a quem desempenha cargos públicos, como o de embaixador, deputado ou eurodeputado e, em particular e por maioria de razão, o de diretor nacional da Polícia Judiciária ou o de ministro da República, ainda para mais com a pasta (pesada e poderosa) da Administração Interna.

Em última instância, diga-se que não vem mal algum ao mundo que Luís Neves tenha contratado um empreiteiro de quem se tornou amigo para realizar obras em sua casa. Nem haverá grande mal que tenha vindo a tornar-se amigo de um empreiteiro que não conhecia e a quem adjudicara um conjunto de obras da instituição que dirigia.

O problema está em ter convidado a fazer obras em propriedade sua um empreiteiro ao qual adjudicara vários serviços enquanto diretor nacional da PJ e de quem entretanto também se tornou amigo.

É claro que Luís Neves sabe que não o deveria ter feito. Tanto que, e bem, veio reconhecer a «imprudência» e assumir que, «se fosse hoje, teria feito de maneira diferente».

Quem tem no currículo o mérito de ter devolvido prestígio e competência à Polícia Judiciária não pode auto exigir-se menos do que a todos os outros, nomeadamente àqueles que mandou investigar até às últimas consequências independentemente do seu estatuto, da sua carteira ou conta bancária ou do seu poder.

Luís Neves é reconhecidamente um dos dirigentes mais conceituados de toda a história da Polícia Judiciária.

E tem sido um bom ministro da Administração Interna, como bem tem sido visível no combate aos fogos florestais pelo menos nestas primeiras e extraordinariamente difíceis semanas de calor extremo e risco máximo em quase todo o país. Basta olhar para o drama que já viveram os nossos vizinhos espanhóis, com a tragédia de Almeria a trazer-nos à memória aquele ano fatídico de 2017 em Pedrógão Grande e naquele fim de semana dramático de outubro em que tivemos meio país a arder, no centro e norte de Portugal.

No mundo insano em que vivemos, os tempos não estão para nos permitirmos dispensar os melhores.

E, por isso, será bom que Luís Neves possa ter condições para continuar como ministro da Administração Interna e a desenvolver o magnífico trabalho que tem vindo a desenvolver.

Mas, para tanto, tem de ser como a mulher de César e demonstrar, sem petulância nem arrogância, que não se contenta em ser sério, mas também que consegue parecê-lo. E as suas primeiras respostas públicas não foram as mais benéficas para a imagem de quem se pretende impoluto e tranquilo.

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Ilustração Carlos Rivaherrera

mario.ramires@nascerdosol.pt