quinta-feira, 11 jun. 2026

Não há lítio no Beato

Se Merz diz que os EUA já nada têm a ver com o sonho americano, bem poderia também dizer que há um país que continua a ser o pesadelo das oportunidades perdidas.

Faz agora dez anos que o Governo liderado por António Costa ordenou a criação de um grupo de trabalho para a identificação no território nacional das zonas de possível extração de lítio, metal alcalino conhecido pelo ‘petróleo branco’, por ser matéria-prima fundamental na produção de baterias recarregáveis de alta densidade para veículos elétricos e outros dispositivos eletrónicos.

Foi há uma década e esse Grupo de Trabalho do Lítio concluiu pela existência de 12 zonas de exploração daquele precioso recurso.

Para um país com tão poucos recursos naturais e com o mundo precisado e em busca de soluções alternativas aos combustíveis fosseis – também por razões ecológicas –, o lítio passou a ser um pilar estratégico para o futuro da economia nacional.

Aliás, António Costa Silva – o ‘pai da bazuca’ que António Costa convidou a desenhar a visão estratégica para o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) antes de o chamar para ministro da Economia –, ainda como presidente da Partex, já dizia que Portugal «tem as sétimas maiores reservas mundiais de lítio» e «não pode dar-se ao luxo de não as explorar».

As cedências ao «politicamente correto» – palavras de Costa Silva –e aos populismos ambientalistas podem justificar a redução para nove das 12 zonas de extração de lítio identificadas pelo Grupo de Trabalho criado em 2016. Mas não é explicação suficiente para que, uma década volvida, ainda não ter sido aberto um único concurso para que possam iniciar-se os trabalhos de prospeção.

Foi ainda na primeira metade desse primeiro Governo de António Costa que, na sequência do relatório apresentado por aquele Grupo de Trabalho do Lítio, o então secretário de Estado da Energia Jorge Seguro Sanches, determinou a necessidade de lançamento de concursos, inviabilizando novos pedidos de licenciamento de prospeção para aquelas zonas.

Depois de Seguro Sanches, passaram pela pasta João Galamba (com a secretaria de Estado a transitar do Ministério da Economia para o do Ambiente, de João Pedro Matos Fernandes), Ana Fontoura (que rendeu Galamba, quando este subiu a ministro das Infraestruturas e já com Duarte Cordeiro como ministro) e, depois da queda do Governo PS e com o Executivo liderado por Luís Montenegro, por Maria João Pereira, entretanto substituída na secretaria de Estado da Energia por Jean Barroca, ambos sob a tutela da ministra Maria da Graça Carvalho.

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E todos eles foram anunciando para breve o lançamento dos malfadados concursos. A própria ministra prometeu-o em dezembro de 2024 para o ano seguinte. Mas já em janeiro de 2026 veio afirmar publicamente que este ano é que vai ser...

Mas nem sombra de concurso à vista.

O chanceler Merz dizia há dias numa televisão alemã, sucessivamente interrompido por aplausos do público, que hoje não aconselharia os seus filhos a investirem o seu futuro nos EUA: «Sou um grande admirador da América, mas esse sentimento não está a crescer neste momento» (aplausos) «(...) o que os jovens de alta formação podem conseguir lá não tem nada a ver com o que podiam conseguir antes» (mais aplausos).

Merz até pode ter razão, os Estados Unidos podem já não ser a terra das oportunidades e estar a desvanecer-se o sonho americano que levaram na bagagem tantos milhares de emigrantes portugueses, a esmagadora maioria dos quais sem ou com muito pouca formação.

Mas bem pior do que isso, e que Merz também podia desaconselhar aos seus filhos, é um país que leva a desperdiçar as oportunidades que tem.

E por isso está na cauda da Europa ou, repito, cada vez mais perto do corno de África.

O lítio ainda é um recurso fundamental. Mas a China já tem uma bateria alternativa em ferro (foi agora apresentada) e fez saber que está a trabalhar numa bateria a água sem os riscos associados às de lítio (nomeadamente sem perigo de incêndio) e com uma durabilidade de séculos (quando o grande problema das atuais é precisamente o seu tempo de vida limitado).

E nós por cá ainda nem sequer ousámos começar a prospeção das sétimas maiores reservas mundiais de lítio, quanto mais a sua extração.

Pode ser que um dia... não atrasemos mais, como já estamos a atrasar-nos na energia solar (Espanha já nos ultrapassou quando há 5 anos estava a milhas).

Para não falar no famigerado aeroporto internacional. Madrid já aumentou Barajas e nós ainda continuamos a discutir a localização, por mais anúncios e despachos que se façam.

Não faria mais sentido simplesmente mandar as cargas e as low cost para o aeroporto de Beja, ampliando a Portela, como já dizia João Soares há décadas, por forma a deixar de ter as contingências que dão hoje um péssimo cartão de visita a quem nos escolhe?

Assim, ainda deixam de vir cá. E nós não vamos a lado algum.

mario.ramires@nascerdosol.pt