José Luís Carneiro, na primeira reação pública às detenções e buscas realizadas na sede do Largo do Rato, veio dizer que a ‘Operação Imergente’ nada tinha a ver com o PS mas apenas com um «funcionário do partido». Esteve mal, muito mal. Em primeiro lugar, o que está em causa não tem ‘apenas’ a ver com um ‘funcionário do PS’, mas com várias personalidades ligadas ao partido e a juntas de freguesia lideradas por eleitos nas listas do Partido Socialista. Em segundo lugar, o ‘funcionário do partido’ a que se referia - Duarte Moral -, não é um administrativo qualquer do aparelho partidário, mas, sim, um assessor do secretário-geral, que foi recuperado pelo próprio José Luís Carneiro para o Largo do Rato, de onde tinha sido corrido pelo seu antecessor, Pedro Nuno Santos.
Aliás, Duarte Moral é um ‘histórico’ assessor do PS, que designadamente acompanhou António Costa no partido, no Governo e na Câmara de Lisboa (e continua a engrossar a lista de muito próximos colaboradores do atual presidente do Conselho Europeu a braços com casos de Justiça), antes de passar a assessorar Ana Catarina Mendes, enquanto secretária-geral adjunta de Costa, na sede nacional.
Ora, quando José Luís Carneiro, eleito secretário-geral do PS há um ano, foi ‘recuperar’ Duarte Moral para o Rato já há muito (há cerca de três anos) tinha saído uma reportagem na revista Sábado dando conta do envolvimento daquele já então assessor da direção do partido nos suspeitos esquemas que agora constam dos mandados de detenção e de buscas realizados na semana passada.
Por isso, tratando-se de factos ou imputações que já eram do domínio público quando José Luís Carneiro recrutou Duarte Moral para seu assessor, não tem desculpa ou justificação o secretário-geral ter vindo dizer (também nessa primeira reação pública a estas detenções e buscas) que desconhecia o que se passava e sabia apenas o que lera nos jornais. Não pode ser. É impossível. Ou o secretário-geral do PS e candidato a primeiro-ministro nada questionou nem pediu qualquer explicação ao seu assessor quando o foi recuperar, bem sabendo - ou devendo saber - que as suspeitas de envolvimento em esquemas ilícitos já tinham sido noticiadas?
A questão é que as práticas imputadas pelo Ministério Público a Duarte & companhia são generalizadas - e enraizadas - de norte a sul do país e envolvendo girls e boys e clientelas de todos os partidos, sem exceção - casos como este ou como o do processo ‘Tuttifrutti’ são mais do que mato, tanto na administração local como na central. Assim houvesse meios para os investigar e levar até ao fim, embora a 400 investigadores por operação, tomando o exemplo desta ‘Imergente’, nem com os três ramos das Forças Armadas haveria recursos suficientes.
Por outro lado ainda, se José Luís Carneiro tivesse cumprido os mínimos exigíveis no processo de recrutamento do seu assessor Duarte Moral, certamente que tomaria a mesma posição de defesa e solidariedade que, por exemplo, João Soares corajosamente assumiu nas redes sociais.
Só que, bem pelo contrário, o secretário-geral socialista, já num segundo momento, fez saber que o ‘funcionário do partido’ em causa, Duarte Moral, se encontrava suspenso por determinação da direção do PS.
Por sua vez, Alexandra Leitão saiu a terreiro para aplaudir a iniciativa de Miguel Coelho, outro histórico autarca socialista (ex-presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior), de suspender o seu mandato como membro da Assembleia Municipal de Lisboa na sequência da constituição como arguido nesta ‘Operação Imergente’.
Claro que, com isso, Alexandra Leitão estava implícita mas diretamente a defender que todos os outros arguidos (entre os quais camaradas seus nas estruturas socialistas locais, incluindo na vereação da Câmara da capital) deviam igualmente suspender funções e desamparar-lhe a loja.
Assim se vê a solidariedade e camaradagem entre socialistas. Onde não há moral e comem todos. Ainda que, no caso emergente, mesmo havendo Moral, comem todos.