quinta-feira, 14 mai. 2026

Cordeiro com pele de lobo

Duarte Cordeiro distanciou-se da liderança e estratégia de José Luís Carneiro. Passou a estar na corrida, na pista de fora. A distância é maior mas vai mais solto, para não se entalar.

«A liderança promoveu a ideia de que aceitar o convite da Comissão Política Nacional significava ser da equipa ou apoiar o líder. Eu não encaixo em nenhum desses perfis». Foi assim que Duarte Cordeiro respondeu e justificou a recusa ao convite de José Luís Carneiro para integrar aquele órgão de direção do PS. Mais do que isso: foi assim que se colocou na grelha da partida para vir a disputar ou a assumir a liderança do partido num futuro não muito longínquo. José Luís Carneiro – fica desde já dito – não é o ‘seu’ líder nem conta com o ‘seu’ apoio nas decisões que tem tomado e na estratégia e orientações que tem definido enquanto secretário-geral dos socialistas. Claro como água, sem margem para dúvidas ou equívocos: não se ‘encaixa’, ponto de exclamação.

Duarte Cordeiro tem uma longa história no PS, foi líder da JS, dirigiu a campanha presidencial de Manuel Alegre contra a vontade de José Sócrates e do então poder instituído no Largo do Rato, esteve sempre ao lado de Pedro Nuno Santos mas sem hostilizar António Costa, com quem também cresceu na Câmara de Lisboa.

Recusou concorrer ou candidatar-se a cargos políticos (nomeadamente à Câmara de Lisboa ou a um lugar de deputado na Assembleia da República) enquanto o mantiverem sob suspeita em processos ou investigações judiciais pendentes. Os arquivamentos que entretanto foram já conhecidos não foram suficientes para alterar as suas motivações.

Mas está entre os preferidos dos militantes e simpatizantes do partido. Sobretudo na capital, mas não só, tem muitos seguidores, ‘tropas’ como se usa dizer, ou ‘máquina’, ‘aparelho’.

Até porque, além de líder dos jovens socialistas, foi presidente da Federação de Lisboa (FAUL), membro do Secretariado, secretário de Estado e ministro, com uma rede bem oleada de ligações e contactos no partido e fora dele.

Duarte Cordeiro é um fazedor. Doutrinariamente à esquerda de José Luís Carneiro, mas longe do radicalismo da ala mais esquerdista de Alexandra Leitão ou Isabel Moreira, com as quais também não ‘encaixa’.

Mas esteve e conviveu muito melhor com António Costa e os costistas, sem nunca ter sido um deles, do que agora com José Luís Carneiro.

Com esta tomada de posição, de inequívoco distanciamento da liderança, da equipa e das opções de José Luís Carneiro, Duarte Cordeiro sinaliza aos socialistas que o seu caminho é diferente. Mas também que tenciona prossegui-lo, sem condicionamentos nem amarras.

O mesmo é dizer que está na corrida, mas a partir de agora vai passar a correr por fora e não por dentro.

Como nas pistas de atletismo, quem corre pela pista de fora tem de correr mais, por a distância ser maior, mas evita o risco de ficar entalado pelos outros ou ser atirado borda fora.

Mesmo com os alinhamentos que assumiu no passado no partido, Duarte Cordeiro sempre teve um perfil de rebeldia e um espírito livre. E se bem soube conviver com António Costa no partido, na Câmara de Lisboa e no Governo, nunca escondeu o seu apoio a Pedro Nuno Santos mesmo quando foi vice-presidente – e, nessa condição, braço direito – de Fernando Medina no executivo da capital.

caricatura Duarte Cordeiro

Os militantes socialistas – dos mais velhos (a começar pelo histórico Manuel Alegre) aos mais novos (como os promissores Miguel Costa Matos ou Bruno Gonçalves) – reconhecem-lhe todas as qualidades para vir a assumir a liderança do partido quando tiver disponibilidade e vontade.

Porque, para muitos dos que consideram José Luís Carneiro um líder de transição com os dias contados, Duarte Cordeiro há de ser líder do PS.

E tem todas as condições para o ser. Mas – como diria o outro – só não se sabe é quando.

O que não pode é deixar passar o seu tempo. Ou perder a oportunidade para a geração seguinte. Daí a importância desta tomada de posição, que é tudo menos de um carneirinho ou cordeirinho. Antes de lobo, matreiro e nada solitário.

mario.ramires@nascerdosol.pt