Benigno mais maligno não há

António Guterres deixou Portugal atolado num pântano, foi o coveiro da Internacional Socialista e tornou irrelevante a figura do secretário-geral das Nações Unidas... e a ONU.

António Guterres é uma das figuras mais consensuais da política portuguesa e não só. Com sobejas qualidades reconhecidas mundialmente.

Católico, moderado, fazedor de pontes e de consensos, foi um dos lídimos representantes da Terceira Via que Tony Blair lançou no Reino Unido e que fez caminho na Europa e no Mundo nos anos 90 do século passado e na viragem do milénio.

Por isso, foi sem surpresa que tenha conseguido ser eleito em 2016 – para tomar posse em janeiro de 2017 – secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) por uma ampla maioria, quando já se anunciava uma sucessora para o sul-coreano Ban-Kimoon.

Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados entre 2015 e 2017, Guterres foi reeleito para um segundo mandato como secretário-geral da ONU, que termina no final deste novo ano.

Caricatura guterres - ilustração Carlos Riva Herrera

E, se ainda é cedo para se poder fazer o balanço final da sua liderança, a verdade é que dificilmente conseguirá no ano que lhe resta reverter a imagem muito pouco abonatória que lhe advém da irrelevância a que deixou chegar o cargo e as próprias Nações Unidas, instituição financeiramente falida e politicamente ignorada.

«Não tínhamos sequer 20 anos. Ele era o melhor de todos nós. Era o melhor na força do caráter, no vigor da personalidade, na capacidade de sonhar, de liderar, de mobilizar. Ele era o melhor na agudeza da inteligência, na excelência da carreira académica, no brilho da oratória, na ilimitada extensão do conhecimento, no cuidado com o pormenor, na perceção dos factos, das situações, das pessoas». Estas foram elogiosas palavras que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu a António Guterres na cerimónia em que o secretário-geral da ONU recebeu o prémio Carlos V, em Cáceres (Espanha), presidida pelo Rei Filipe VI.

Marcelo foi presidente do PSD e líder da Oposição quando António Guterres era primeiro-ministro – e com ele que fez os acordos para a revisão constitucional de 1997 e para os referendos sobre a interrupção voluntária da gravidez (junho de 1998) e sobre a regionalização (novembro de 1998), que acabaram ambos com a vitória do ‘Não’.

Mas, por desinteligências com o então líder do CDS-PP, Paulo Portas, Marcelo abandonou a liderança dos sociais-democratas ainda antes das eleições (1999) que dariam a Guterres os famosos 115 deputados, já com Durão Barroso à frente do PSD e de uma Oposição que também somava 115 deputados.

Guterres ganhou as eleições mas falhou, à bica, o objetivo da maioria absoluta. Bastava-lhe, na altura, garantir os votos dos dois deputados do BE liderado por Francisco Louçã para garantir todas as condições de governabilidade.

Mas optou por não o fazer.

Aliás, preferiu chegar a acordo com o deputado eleito pelo CDS-PP, Daniel Campelo, trocando o seu voto em dois orçamentos por um punhado de contrapartidas para a região minhota.Não chegou.

O PS sofreu pesadíssima derrota nas autárquicas de 2001 e Guterres demitiu-se de primeiro-ministro e da liderança do PS com a argumentação de que o país não podia ficar atolado num «pântano político».

Jorge Sampaio convocou eleições antecipadas e Ferro Rodrigues foi eleito secretário-geral do PS, já enredado no escândalo da Casa Pia, que entretanto rebentara.

Guterres ficou apenas na presidência da Internacional Socialista, da qual viria a sair nas vésperas de assumir funções no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), em 2015.

Quando saiu, já a IS era uma mera sombra do que chegou a representar nos anos 70, 80 e ainda 90 do século XX. E não faltou quem apresentasse Guterres como seu coveiro.

Com nove anos de mandatos como secretário-geral da ONU, também não falta quem lhe aponte responsabilidades pelo estado comatoso a que chegou a instituição.

Guterres nunca conseguiu impor a autoridade da ONU em nenhum dos grandes conflitos que entretanto deflagraram. Nem fazer frente aos líderes das grandes potências mundiais. Da Rússia à China e, sobretudo, aos Estados Unidos.

Donald Trump nem sabe quem ele é. Ou sabe, e por isso faz o que quer. Como Vladimir Putin ou Xi Jinping.

É a nova ordem mundial, ou a da velha lei do mais forte.

As Nações Unidas estão mortas e enterradas.

mario.ramires@nascerdosol.pt