Miguel Albuquerque equivocou-se quando, qual instrumental da cerimónia dos Óscares, quis calar Sebastião Bugalho no Congresso da Anadia, com a advertência «Aqui não há estrelas».
Primeiro, porque é claro que há!
A maior e mais reluzente das quais o líder do partido e do Governo, Luís Montenegro, a quem os congressistas – a começar pelos seus ministros – foram à Bairrada prestar vassalagem e declarar incondicional lealdade.
E há outras, mas já lá vamos.
Depois, porque é mau presságio e tudo menos de bom tom mandar calar aquele que passa a ser precisamente o porta-voz do partido.
Mas não só.
Sebastião Bugalho, além de porta-voz, passou a ser um dos vice-presidentes do partido, colocando-se também na grelha de partida para, quando chegar o momento, entrar na corrida à sucessão de Luís Montenegro.
Na Anadia, o presidente do PSD seguiu o exemplo do secretário-geral socialista que é hoje presidente do Conselho Europeu quando chamou para a direção do partido todos os que já se posicionavam como putativos candidatos à sua sucessão – só não precisou de dizer que ainda está longe de ‘pôr os papéis para a reforma’ (embora nos últimos dias tenhamos ficado a saber que Luís Montenegro considera que a idade da reforma não deve baixar dos 67 anos).
Não pode deixar de ser lida nessa lógica também a promoção a ‘vice’ dos conselheiros de Estado e presidentes das Câmaras de Lisboa e do Porto, Carlos Moedas e Pedro Duarte, e a continuidade de Alexandre Poço – sendo que Hugo Soares se mantém como secretário-geral e líder parlamentar, enquanto estiver fora do Governo.
É por isso que Miguel Albuquerque, qual estrela cadente, ao pretender chamar a si maior protagonismo, acabou por provocar o efeito contrário e contribuir para que os holofotes mais se focassem em Sebastião, uma estrela em meteórica ascensão no partido.
Mas, para além do líder e do novo porta-voz, houve uma terceira estrela que voltou a brilhar no universo laranja: Pedro Santana Lopes, cujo regresso à militância mereceu pompa e circunstância.
Aliás, se em relação a Sebastião Bugalho, Montenegro quis deixar um claro sinal para o futuro (passando antes, ou não, pelo seu indefetível e inseparável Hugo Soares), em relação a Santana Lopes foi como que o apadrinhamento de uma eventual candidatura presidencial em 2031.
Santana Lopes sempre sonhou com Belém, sem nunca ter tido oportunidade de reunir as condições para assumir a candidatura.
Ora, 2031 e o momento de uma recandidatura de António José Seguro pode ser exatamente a sua primeira, e última, oportunidade.
E daí que o autarca da Figueira da Foz, a quem não pode deixar de reconhecer-se invulgar feeling político e a visão e capacidade de antecipação de quem não dá ponto sem nó, tenha olhado para este Congresso de Anadia como Marques Mendes olhou para a reunião magna do PSD em 2024, que tornou praticamente irreversível o apoio do partido e de Montenegro à sua candidatura presidencial.
Num caso como no outro, trata-se de um ex-presidente social-democrata que, querendo – e Santana quer tanto como Mendes o queria –, poderá contar com o apoio do líder do partido, até na perspetiva de assim resolver um problema se até lá se mantiver na liderança.
É claro que falta muito tempo e Pedro Passos Coelho pode sempre atravessar-se-lhe no caminho. Mas os horizontes de Passos continuam mais noutros palácios do que propriamente no de Belém.
E quanto ao tempo, passa num fósforo. Sendo que, para Santana, é agora ou nunca.
Ainda por cima tratando-se de umas eleições de recandidatura de António José Seguro.
Com a esquerda refém do novo inquilino de Belém e Seguro sem a ilusão de que voltará a contar com os votos da chamada direita moderada como contou agora no confronto direto com André Ventura, Santana está mais do que disposto a assumir o risco.
Ao menos , chegaria a tentar.
Já para Montenegro, seria mesmo o candidato ideal, que nem sopa no mel – Passos só engolindo um sapo maior do que o dos comunistas com Mário Soares em 1986 –, até porque uma eventual derrota (aliás, natural com um PR recandidato) seria sempre de Santana (como foi de Mendes nas últimas) e não da direção do partido, que não poderia deixar de declarar-lhe o apoio, nem que por elementar reciprocidade.
Daí a importância da Anadia para o futuro do partido de Montenegro. Mais ou menos distante.