É pena. A tradicional descida da Av. da Liberdade comemorativa do 25 de Abril já não é o que era. Uma festa de celebração da liberdade está transformada numa arruada político-partidária dos que se julgam donos da democracia, mas com ideias, conceitos e práticas em tudo incompatíveis com o ‘poder do povo’ – como a definiram os gregos da Antiguidade.
Então os liberais não podem também celebrar a liberdade?
Por que razão hão de ouvir todo o género de impropérios só porque também fazem parte do povo que adere ao cortejo entre a Praça do Marquês de Pombal e a do Rossio?
Ou será que os liberais não são do povo?
Ou será que só podem descer a Avenida aqueles que os que se julgam donos do 25 de Abril acham que são do povo?
Os mesmos que carregam ou aplaudem cartazes insidiosos ou vilipendiadores de adversários políticos, como André Ventura?
Democratas, proclamam-se.
Arautos da liberdade, da democracia, e ainda dizem que o povo é quem mais ordena.
Há uma retórica construída à volta dos partidos que defendem os valores democráticos e a Constituição e os ‘outros’... os antidemocráticos, os fascistas, os radicais de extrema-direita.
Para esta linha de pensamento, só há esquerda e extrema-direita.
E a esquerda é democrática e a direita, porque é extrema, não.
E o 25 de Abril é da esquerda e contra a extrema-direita.
O problema é enquadrar o conceito de liberdade nesta retórica.
Há 50 anos, o único partido de direita com assento parlamentar autoproclamava-se de ‘centro’: Centro Democrático Social. De Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Adriano Moreira... Na altura, eram eles os ‘fascistas’.
Como lembrou Tomás Moreira em recente entrevista na página ao lado (SOL 17.4), se até «Sá Carneiro e Mário Soares foram apelidados de fascistas»...
Para os novos donos do 25 de Abril, da democracia, da liberdade, que descem a Avenida de braço dado carregados de cravos vermelhos, os liberais são fascistas, os cheganos são fascistas, os defensores da reforma laboral são fascistas, os eleitores que votaram numa maioria parlamentar de centro-direita são fascistas.
O povo, que não é fascista, ofende os liberais, ergue bem alto cartazes com obscenidades contra André Ventura, faz manguitos ao Governo.
Em nome do povo, da liberdade e da democracia.
Mas na verdade vira-lhes as costas.
Como Pedro Delgado Alves, no seu teatral, rude e antidemocrático gesto de protesto contra o discurso inconformista e de alerta de José Pedro Aguiar-Branco.
O presidente da Assembleia da República escolheu a sessão solene do 25 de Abril porque assim se fez ouvir. Tudo o que disse já o tinha dito e até de forma mais crítica e assertiva.
E, sim, faz falta gente de qualidade à política.
Qual é a dúvida?
Pedro Delgado Alves foi um dos deputados socialistas que entrou no hemiciclo com um bouquet de cravos vermelhos ao peito, como se não bastasse um, alinhando nos jogos florais que tanto critica a André Ventura e ao Chega – que mal se deu com os cravos verdes que o Público logo lembrou ter sido símbolo da luta contra a criminalização da homossexualidade no final do séc. XIX, princípios do séc. XX.
À parte o folclore, Delgado Alves veio justificar-se com artigo no mesmo jornal, qual paladino da transparência.
Voltar as costas à opacidade é o título do artigo de Delgado Alves, que só pode ter sido tolhido pela cegueira ideológica na sua interpretação do que foi dito por Aguiar-Branco.
Já André Gonçalves Pereira usava dizer que o ordenado de ministro de Negócios Estrangeiros (no início dos anos 80) não lhe chegava para os charutos.
E há quase 20 anos dizia numa interessante entrevista de vida: «A classe política baixou ainda mais que as outras classes. É hoje péssima».
Foi em 2008 e de então para cá não deu sinais de melhoras. Bem antes pelo contrário.
Pedro Delgado Alves é um jurista qualificado, com carreira académica, dotes oratórios e capacidade de argumentação.
É uma pena deixar-se enredar nas grilhetas do sectarismo e do radicalismo que apoucam e diminuem a tal ‘casta’ ou ‘bolha’ a que Aguiar-Branco se referiu, com a superioridade democrática de dar o peito às balas e não virar as costas.