Sendo Trump sensível, por algum tempo, à lisonja, a visita a Pequim forneceu generosa dose de guardas de honra e de sorridentes jovens espigados acenando bandeirinhas dos dois Estados. A lisonja também esteve presente na escolha das referências culturais. Logo no primeiro dia Xi-Jinping – que já o tinha feito em 2014 - alertou o convidado para a necessidade de evitar a “armadilha de Tucídides”, recorrendo à cultura helenística e à sua interpretação pelos americanos. O conceito operativo surgiu, em 1980, pela boca de Herman Wouk, autor de novelas históricas, numa conferência, quando comparou, de forma crítica, a guerra fria ao conflito entre Atenas e Esparta, narrado por Tucídides na “História da Guerra do Peloponeso” (recomendo a tradução portuguesa, por Raul Miguel Rosado Fernandes e Maria Gabriela Palma Granwehr, 2ª edição, Fundação Gulbenkian que também disponibiliza online e gratuitamente o PDF da impressão de 2013). Graham Allison, um cientista político de Harvard recuperou o termo “armadilha de Tucídides” para referir o contexto em que uma potência hegemónica (Esparta) se sente ameaçada por uma potência emergente (Atenas) ao ponto de entrar em guerra e aplicou tal possibilidade às relações entre os EUA e a China. Allison retomou o tema em escritos posteriores e julgou ter encontrado numa série de exemplos históricos um tendencial determinismo.
A construção de Allison é passível de crítica, quer em relação aos conflitos pretéritos, desde logo a suposta inevitabilidade do conflito entre Atenas e Esparta, quer quanto à possibilidade de justificar, antecipando, um conflito bélico entre os EUA e a China. A globalização obriga ambos os Estados a cooperarem, à escala planetária, mais do que a “armadilha de Tucídides” permitiria. Na guerra comercial desencadeada por Trump, no segundo mandato, a vitória coube à China, por controlar a esmagadora maioria das terras raras refinadas. No presente a economia chinesa depende da exportação de bens transformados, exige comércio livre, livre navegação e liberdade de circulação de capitais. Qualquer um destes elementos seria posto em crise por um conflito armado directo entre as duas superpotências. Washington e Pequim estão condenados a prosseguir a tradição da guerra fria, praticando a guerra por procuração para testarem, estudarem e sangrarem o adversário. Aos olhos de Pequim o conflito entre os EUA e o Irão serve este propósito. O mesmo aconteceu, até ao segundo mandato de Trump, quando cessou o envolvimento dos EUA, com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, com o brinde de acelerar a dependência da Rússia como Estado cliente da China.
Tucídides mantém, infelizmente, uma maior actualidade na evocação dos perigos da Realpolitik, no diálogo dos Mélios, quando os Atenienses, sitiando a ilha de Milos (de onde a Vénus homónima recolheu ao Louvre) recusaram a declaração de neutralidade dos habitantes: “esperamos que em vez disso analiseis o que é praticável, dentro do realismo que anima o pensamento de cada um de nós, pois sabeis como nós sabemos, que o que é justo na vida humana só é avaliado em circunstâncias equivalentes, e que os mais fortes fazem o que podem, enquanto os mais fracos fazem o que devem." (História da Guerra do Peloponeso, Livro V, LXXXIX, fala dos Atenienses). […] “E os Atenieneses mandaram matar todos os homens adultos que apanharam e venderam para escravos crianças e mulheres.” (idem, ibidem, CXVI).