segunda-feira, 17 ago. 2026

Teremos sempre Ancara

Em todas as actividades humanas a gestão de expectativas é fundamental. O excesso é mortífero. As expectativas negativas garantem bons resultados a qualquer evento.

O princípio vale para campeonatos do mundo de futebol mas também para cimeiras da NATO. A Cimeira de Ancara seria sempre um sucesso se fosse possível sentar à mesa os 32 Chefes de Estado e de Governo, Trump incluído. Para não abusar da sorte e não maçar o Presidente dos EUA, as sessões de trabalho foram curtas e somadas não chegaram às três horas.

A Declaração da Cimeira, aprovada por consenso, chegou a estar ameaçada, tal a dificuldade em encontrar denominadores comuns para disfarçar as divergências entre Washington e as restantes 31 capitais. A solução passou por uma micro Declaração, com 6 mini-parágrafos, longe das dúzias de anteriores Cimeiras. Seguiu-se a metodologia empregue na recente Cimeira do G7, em Evian, celebrando os sucessos trazidos por Trump à renovação da NATO, pondo-lhes etiquetas de preço: mais 139 mil milhões de dólares de aumento da despesa em defesa em 2015 (um pouco menos de metade do PIB anual de Portugal em 2025), mais 50 mil milhões de dólares de investimento em defesa decididos em Ancara. Parte não despicienda desta despesa vai para os cofres de empresas dos EUA, contribuindo para manter Trump feliz e os EUA na NATO.

Mais do que a quantidade da despesa importa a qualidade da mesma e na Declaração são identificadas, fruto da experiência na guerra da Rússia contra a Ucrânia, prioridades: capacidades de projecção e de sustentação de forças em combate, de ataque de precisão e em profundidade, defesa aérea e defesa anti-míssil integradas, drones e sistemas autónomos, novas tecnologias, capacidades de detecção e de obtenção de informação, modelos de combate baseados na inteligência artificial, nuvens de combate (drones e aviões) inter-operáveis pelas forças armadas dos diversos Aliados.

A pequenez da Declaração da Cimeira de Ancara serviu ainda para identificar a Federação Russa como “ameaça de longo prazo à segurança e estabilidade euro-atlânticas” e lembrar que os Aliados Europeus e o Canadá são responsáveis pelo financiamento do grosso da ajuda militar à Ucrânia, sendo referido o recente empréstimo da União Europeia a tal destinado. Zelensky foi a Ancara como já tinha ido a Evian, em registo diplomático e sem choques com Trump.

O parágrafo de abertura não deixou de invocar o artigo 5º do Tratado de Washington, a cláusula de legítima defesa colectiva que Trump já ameaçou, por várias vezes, não cumprir ou cumprir ad lib, em função do entendimento que tenha quanto ao cumprimento dos objectivos de defesa por parte de cada um dos restantes Aliados.

Numa última homenagem ao Trump da semana passada, a Declaração apela ao Irão para respeitar integralmente a liberdade de navegação no estreito de Ormuz.

Com base nestas métricas, a Cimeira de Ancara foi um sucesso. Mas convém não abusar da sorte: o último parágrafo da Declaração, onde tradicionalmente se anuncia a data e o local da próxima Cimeira, foi decapitado, ficando pelo agradecimento da hospitalidade turca. A NATO conseguiu sobreviver ao primeiro mandato de Trump e a ano e meio do segundo. Ninguém em seu perfeito juízo quer testar em novas Cimeiras a resistência da Aliança nos dois últimos anos do segundo mandato de Trump. Para já não há Cimeiras da NATO marcadas para 2027 ou 2028. Na fila de espera dos anfitriões estava a Albânia, onde gente mal agradecida protesta contra os empreendimentos turísticos da família Trump. Tirana nada perde com a demora.