O fim de Peter

Peter Benjamin Mandelson, entretanto feito Baron Mandelson, é um personagem político do calibre de Boris Johnson, com duas desvantagens competitivas: não chegou a Primeiro-Ministro e desperta ódios generalizados e persistentes.

Já Boris foi, durante muito tempo, um charmeur bem sucedido, com uma enorme capacidade de encantar os eleitores, muito para além do ecossistema conservador. Onde Boris actuava às claras, pantomineira, mas eficazmente, Peter agia por trás das cortinas, ganhando o epítome de “Prince of Darkness” por conta dos sucessos alcançados como director de comunicação do Labour (desde 1985), em particular a vitória eleitoral de 1997.

Se Boris sempre conviveu naturalmente com a elite e sempre foi por ela aceite, ainda que tenha frequentado Eton com uma bolsa de mérito escolar, Peter sempre se esforçou por se aproximar dos ricos e poderosos, pagando o bilhete em suaves prestações de favores, fornecimento de informação privilegiada, cunhas e afins. Por duas vezes a bilhética traduziu-se em pedidos de demissão: uma no primeiro Governo de Blair como Secretário do Comércio e Indústria, por via de um empréstimo não declarado, feito por um afluente colega de Governo (e que também foi arrastado na queda) e, mais recentemente, como embaixador do Reino Unido em Washington (escolhido por Starmer), por ter ocultado a continuada proximidade a Jeffrey Epstein, mesmo depois de este ter sido condenado por pedofilia.

As vendetas políticas britânicas têm muitas vezes forma literária, com memórias e auto-biografias que permitem acertar contas e fornecer versões alternativas da história. Acusado por Gordon Brown de o ter traído, por ter preferido Blair para PM, Mandelson, sempre modesto, escreveu “The Third Man: Life at the Heart of New Labour”, publicado em 2010. São 512 deliciosas páginas em que, piscando o olho ao leitor, nos tenta convencer de que um Mandelson PM teria sido muito mais interessante do que Blair ou Brown. Por vezes consegue-o. Copio uma explicação do New Labour que Mandelson atribui, dialogicamente, a Blair:

"'There are three groups in the Labour Party. There's Old Labour. There are people who are not Old Labour, and will follow New Labour, but who aren't really New Labour. And there are those who are genuinely New Labour.' Who are they?' I asked. He replied: 'Me. You. And that's about it.' "

Na praxis dos Trabalhistas todos queriam ter Mandelson, exibir Mandelson, mostrar Mandelson. Peter era um talismã, sabia como ganhar eleições e, mais importante para os Primeiros-Ministros, saberia como evitar perdê-las. Tendo Peter dito de Gordon o que Maomé não disse do toucinho, uma vez PM, Brown fê-lo Ministro (Business Secretary).

Peter tornou-se o anti-herói da classe trabalhadora. Ficou célebre a sua prestação numa campanha eleitoral num bastião trabalhista, quando confundiu, para gáudio dos jornalistas, “smashed peas” (um certificado de origem do operariado) com guacamole.

Blair identificou correctamente a dimensão do problema Mandelson, logo em 1996, numa fórmula que o Daily Telegraph popularizou: "My project will be complete when the Labour Party learns to love Peter Mandelson." Por conta desta candura, Michael Howard, um infeliz líder Tory, destruído por Jeremy Paxman num memorável Newsnight, teve um momento de glória, em 2005, numas Prime Minister Questions em que perguntou a Blair se já haveria um “Progress Report” sobre o amor do Labour por Mandelson.

Não sendo britânico, posso dar-me ao luxo de ter saudades de Boris. E não serei semítico em relação ao talento de Peter, desde logo no auto-conhecimento: "I had described myself as 'Minister for Looking Ahead.' I was clearly not particularly good at doing that for myself."