sexta-feira, 15 mai. 2026

O declínio do império americano

Vistos deste lado do Atlântico, os EUA são uma construção cultural romantizada pelo olhar da velha Europa.

O americano projectado na nossa retina tem 20 anos de estudos, sotaque de Boston, viajou pelo mundo, é capaz de compreender uma língua estrangeira, conhece e admira convictamente a Europa, em separado por cada nação, e em conjunto por via da União Europeia. Esse americano ideal existe, na população dos EUA, na mesma percentagem do berílio na crosta terrestre. O amor romântico não vive da efectividade mas da possibilidade, razão pela qual os europeus tardaram em descobrir a realidade dos EUA, tendo a realidade estado afastada do exercício do poder, não obstante os 250 anos de democracia que agora se celebram. Com Donald Trump o despertar dos europeus foi promovido pela via do exemplo, primeiro com as taxas alfandegárias, depois com o anúncio do desejo de anexação da Gronelândia, mais recentemente com o convite para participarmos numa guerra de agressão, se possível ordeira e organizadamente em torno da NATO.

A capacidade da Europa para atrair os americanos está há muito em plano inclinado. Fino estratega, Donald Rumsfeld dividiu-nos, entre Velha e Nova Europa e, coerente com a sua idade, preferiu a nova. Já Hillary Clinton não se perdeu em minúcias geracionais e anunciou um “pivot to Asia” que só não se traduziu num abandono da Europa pelos EUA pelo justificado desamor por Putin. Trump terá elaborado uma lista dos membros da NATO classificando-os entre bons e maus. Partilhou a tabela com Marc Rutte na sua recente visita a Washington, em preparativos para a Cimeira da NATO em Ancara, a 7 e 8 de Julho. É de esperar uma interpretação da cláusula de legítima defesa colectiva que consta do artigo 5º do Tratado de Washington dotando-a de uma condicionalidade não escrita: os EUA só darão garantias de segurança aos Estados-membros da NATO que qualifiquem como bem comportados. Reino Unido, Espanha, Itália e França são, aos olhos de Trump, prevaricadores que não colaboraram devidamente com os EUA na guerra contra o Irão.

Numa aliança defensiva baseada o regime do artigo 51º da Carta da ONU, os potenciais agressores não podem ter dúvidas quanto à efectividade da legítima defesa colectiva. Se os EUA questionam o dever de legítima defesa colectiva de um Estado-membro da NATO que seja objecto de uma agressão armada então o Tratado de Washington passa a não valer o papel em que está escrito.

Pequena dificuldade adicional: ao dia de hoje, e não obstante o aumento dos orçamentos da defesa dos restantes 30 Estados europeus e do Canadá, a NATO não se consegue defender sem os EUA. Desde logo no que respeita ao guarda chuva nuclear, curto no caso da França e curtíssimo no caso do Reino Unido. Mas também em matéria de vigilância, comunicações, defesa anti-míssil, bombardeamento em profundidade com recurso a mísseis, transporte aéreo estratégico, caças de V geração, reposição de equipamentos de defessa, sobressalentes e munições e também em efectivos treinados, projectáveis, passíveis de manutenção em combate por períodos longo e com rotação de forças.

Na melhor das hipóteses os europeus (e o Canadá) precisarão de 5 a 10 anos com um aumento muito significativo da despesa em defesa, despesa de qualidade, concentrada em novos equipamentos e novas tecnologias, para poderem dispor de uma capacidade aceitável de defesa que dispense o amigo americano.

Durante este intervalo de tempo é preciso manter o interesse de Washington pela Europa, começando por Trump até ao dia 20 de Janeiro de 2029.