A ordem mundial vive tempos difíceis, ao ponto do Fórum de Segurança de Munique (MSC), que decorre de sexta-feira a domingo, ter recorrido ao pictograma para ilustrar a capa do relatório de segurança do ano de 2026: um elefante (símbolo dos Republicanos) pisa pesadamente (a porcelana da ordem jurídica internacional) com o título “Em destruição” (Under Destruction). Lido o relatório, há que reconhecer a intenção por parte da liderança do MSC de não ignorar “The Elephant in the Room” e dão-lhe um nome. Trump é descrito como o principal agente da devastação, possuído pelo Zerstörungslust, o prazer da destruição, pondo fim à Pax Americana, garantida durante mais de 75 anos.
O relatório não deixa de dar nota, por via de sondagens de opinião, da desorientação da população dos Estados do Ocidente e da perda de confiança nos respectivos Governos (em contraponto absoluto com a fé dos chineses no seu). A ambivalência da mudança está presente na análise: a retirada dos EUA abre caminho à afirmação europeia, assim haja vontade política, traduzida em escolhas orçamentais difíceis. A autonomia europeia em matéria de defesa custa caro e, pior, demora tempo. No entretanto dependemos do capricho americano.
Os estudiosos arregimentados pelo MSC não vão demasiado longe na cenarização das limitações europeias. Poderiam ter incluído uma síntese das sondagens eleitorais em vários Estados. No Reino Unido, Farage e o seu Reform Party estão esmagadoramente à frente em todas as sondagens, sendo muito pouca a saúde política de Starmer. Por França as eleições presidenciais de Abril de 2027 deverão dar aos franceses um (e não uma) Presidente vinda do Rassemblement National, num gaullismo populista filo-putiniano e anti-União Europeia. Por Espanha o Governo engorda, em cada eleição regional, o Vox na esperança de que tal afecte o PP, ao mesmo tempo que, como em Portugal, os partidos à esquerda da esquerda se liofilizam. Não se imagina uma federalização da Europa pela mão alemã, por mais que o Chanceler Merz anuncie investimento na depauperadíssima Bundeswehr. Merz descobriu-se keynesiano por via do aumento da despesa pública em defesa. Mas o reequipamento vai demorar tempo a produzir efeitos e são muitas as dúvidas quanto à vontade de o utilizar.
Em 2025 Munique ouviu, com surpresa, um discurso ideológico por parte de J. D. Vance: os Estados europeus teriam de deixar de oprimir os seus povos, policiar o pensamento, restringir a liberdade de expressão e libertar as forças (oprimidas) do nacionalismo iliberal.
Em 2026 a delegação dos EUA a Munique é encabeçada por Marco Rubio. Todos aguardamos pelo momento, depois da destruição da ordem jurídica internacional, da concretização do momento criativo. Não se deve escapar a ironia que une a Administração Trump a todos os críticos (BRIC’s, Sul global,...) das limitações da ordem internacional pós-1945, moldada pelos EUA, e que estaria profundamente desadequada às realidades do presente.
Rubio, que deixou crescer a imagem do talentoso e organizado raptor de Nicolás Maduro, num preliminar do desejado soft kill do regime cubano, irá anunciar em Munique quais os pilares da nova ordem mundial desejada pelos EUA. Terá de ser algo mais do que o tratado de Tordesilhas a três (EUA, China e Rússia) que resulta da prática trumpiana ou o anedótico Board of Peace que se substituiria ao Conselho de Segurança da ONU.
Para os EUA toda a política internacional é interna. Rubio quer suceder a Trump e em Munique tentará, pelo discurso, ganhar a Vance. Não será difícil.