Me sonda que eu gosto

Quarenta anos depois das eleições presidenciais de 1986, as únicas pós-25 de Abril que tiveram direito a segunda volta, estamos prestes a assistir a uma nova manifestação do fenómeno.

Desta vez a divisão à esquerda é irrelevante porque o segundo, terceiro e quarto candidatos de esquerda têm intenções de voto próximas, ou mesmo abaixo, da já reduzida expressão parlamentar dos partidos que os apoiam (Bloco, PCP e Livre).

Desta vez é o voto à direita que está dividido, com quatro candidatos a terem hipóteses de, a 18 de Janeiro, passarem no buraco da agulha. Mas, ao contrário do que aconteceu em 1986 à esquerda, nem todos os votos obtidos na primeira volta pelos candidatos de direita serão transferidos na segunda volta para o candidato sobrante. Isto admitindo que a segunda volta, como vaticinado pelos adivinhos, por via da leitura das entranhas dos portugueses, será disputada entre um candidato de esquerda e um candidato de direita. Também não é certo que num duelo esquerda-direita em 8 de Fevereiro, sendo André Ventura o destro, não haja transferência de votos por parte dos que na primeira volta votarem nos três outros candidatos de direita ou até por parte dos que se abstiverem em 18 de Janeiro. Ventura, que não tem qualquer interesse pessoal ou partidário em ser Presidente da República, tem feito uma campanha suave, capaz de piscar o olho ao eleitorado do centro-direita e aos Cotrins deste mundo. Ventura não quer ganhar a segunda volta mas, quanto mais votos amealhar, mais robusto regressará à corrida para Primeiro Ministro.

Sendo Portugal pobre, pobres são as sondagens, por redução da amostra e tratamento ligeiro dos sondados e dos seus dizeres. Práticas contrárias custariam o dinheiro que os órgãos de comunicação social e as campanhas dos candidatos não têm. Por essa razão as sondagens continuam, a poucos dias das eleições, a indicar valores estratosféricos para os indecisos, chegando algumas aos 19%…

Os crentes no sondagismo gostariam de substituir as eleições pelas sondagens, a ciência dos inquéritos telefónicos para o possuidores de telemóveis pelo arbítrio do eleitor descarregado em urna. Os candidatos presidenciais e as suas equipas alimentam este sonho, na esperança de que uma boa sondagem se transforme em resultado. Os portugueses querem o mesmo de sempre: acertar no totobola à segunda-feira e, lá chegados, andar para trás no tempo: todos querem saber o quanto antes quem é que ganha as eleições para tomarem as suas providências, se possível votando no vencedor. Nas democracias avançadas do Leste da Europa o eleitor, no conforto da cabine de voto, fotografa o boletim devidamente preenchido com a chave vencedora para poder trocar a fotografia por uma recompensa cívica.

Neste contexto, os sondados talvez escondam as suas escolhas, como aconteceu em anos recentes com o voto do Chega, cujo crescimento muitas sondagens não detectaram. Sondagens contraditórias, com diferentes amostras e diferentes metodologias, integram a categoria das trovas de Bandarra: cada um lerá numa determinada sondagem a verdade que lhe dará mais jeito. A dificuldade na escolha e funcionamento das lideranças era, já na primeira metade do século XVI, um problema metodologicamente bem colocado pelo sapateiro de Trancoso:

“Vejo tanta misturada

Sem haver Chefe que mande:

Como quereis que a cura ande

Se a ferida está danada”

[000-022, Profecias do Bandarra, Edições Ecopy, Porto, 2010, citada a edição de 1603, pp. 51 e actualizada por mim a grafia]