O desamor ao saber, o erigir da preguiça em métrica do sucesso e a delegação do pensamento nas placas de silício condena a humanidade a uma nova servidão, sem novidade quanto à luta de classes, porque subsistem os exploradores da inteligência artificial e os explorados por ela. Mesmo quando todos tenham acesso à inteligência artificial, haverá os que a controlam, desenvolvem e comercializam e os que se limitam a utilizar o modelo que conseguem pagar, inferior, em qualidade e resultados, aos modelos mais caros. E se o controlador da IA deixar, a curto prazo, de ser humano não será menor a servidão dos humanos utilizadores.
Neste Verão Portugal distingue-se, como sempre, pelo elevado potencial para atingir o sucesso, com e sem bola. Mas, em 2026, estamos, finalmente, na antecâmara de uma verdadeira reforma do Estado. O Ministério da Educação demonstrou, de forma definitiva e irrefutável, a inutilidade da actividade a que se dedica. Gongórico, fez prova do feito por via da demonstração pública da frivolidade do processo de avaliação dos cidadãos alunos não universitários. 11,5 milhões de residentes em Portugal ficaram a saber aquilo que qualquer professor já sabe desde há uns poucos de anos: ensinar os portugueses não é difícil, é inútil.
Uma verdadeira reforma do Estado não se confunde com uma mera reacção ao triunfo do acaso, mesmo que agrafado. Há que promover, com esmero, vontade e organização, os resultados desejados. Há muito que os nossos melhores especialistas alertam para os terríveis perigos que ameaçam os portugueses pela acumulação de material combustível nas florestas, campos e estradas de Portugal. Salvo melhor opinião, os perigos em áreas urbanas são muito maiores. Nelas se acumulam, livros, jornais, revistas, publicações, cartazes, panfletos, fotografias e uma pletora de material impresso em suporte de papel. Muita desta acumulação ocorre em estabelecimentos ditos de ensino, alguns dotados de assustadoras e sinistras bibliotecas. Este perigo de incêndio deve ser combatido preventivamente, com fogo activo. O Ministério da Administração Interna, se necessário (e será necessário!) com recurso a Parcerias Público Privadas e com outorga de concessões, deve promover a queima de livros e outros materiais impressos, capazes de incendiar as mentes dos mais incautos, em particular os jovens e, neste grupo, aqueles que se identificam como estudantes. Com esta nova missão por-se-á fim à maldição que assombra aquele canto do Terreiro de Paço e que faz perder o rumo ao mais determinado Ministro da Administração Interna, mesmo quando, em contexto de invisibilidade, investe na aprendizagem colectiva ou no alojamento local, acabando por se sentir prisioneiro no Governo de turno que, em má hora e fruto de uma vida inocente e despreocupada, decidiu integrar.
O Ministério da Presidência deverá prover à proposta legislativa que estabeleça o quadro normativo de referência para a verdadeira reforma do Estado: a queima de todo e qualquer material impresso. Deixo como subsídio legislativo (propondo, ousadamente, a futura Lei HTTP 451 Unavailable for Legal Reasons), parte do diálogo entre Clarisse McClellan e Guy Montag, que, sem esforço, trago na memória, prevenindo assim qualquer perigo de incêndio:
“Do you ever read any of the books you burn?”
He laughed. “That's against the law!”
“Oh. Of course.