A escolha da lista de candidatos à eleição é fundamental para avaliar a liberdade dos candidatos e, por consequência, dos eleitores. Em Portugal as eleições para a Assembleia da República gozam de um monopólio partidário na apresentação de candidaturas, consagrado expressamente na Constituição. Por sua vez, a lei eleitoral determina a existência de listas fechadas, não sendo possível aos eleitores alterarem a ordem pela qual os partidos apresentam os candidatos (como acontece na Irlanda onde o eleitor pode exprimir uma preferência por cada candidato). Por fim, a elaboração das listas de Deputados, a eleger em círculos plurinominais de base distrital, é feita com base nas fidelidades partidárias à liderança de turno, com pouca ou nenhuma intervenção dos eleitores (o contrário do que acontece com as eleições primárias nos EUA onde se seleccionam os candidatos que terão o nome inscrito nos boletins de voto). A fidelidade do Deputado é orientada para a liderança partidária e não para o eleitor. Bastaria concretizar a previsão constitucional de círculos uninominais, com respeito pelo sistema proporcional (por via do aproveitamento de restos), para devolver aos Deputados lusos alguma independência.
Já no Reino Unido as eleições parlamentares ocorrem em círculos unimominais com recurso ao sistema maioritário. Um só voto a mais pode permitir a eleição do deputado. A escolha dos candidatos de cada partido depende da anuência das estruturas locais, não havendo monopólio partidário na apresentação de candidaturas (qualquer cidadão se pode apresentar como candidato independente).
Para quem se senta na Câmara dos Comuns a relação de fidelidade é para com os eleitores e não para com a liderança partidária de turno. Nestas circunstâncias a revolta contra a liderança partidária, materializada no Primeiro-Ministro, acontecerá sempre que os deputados considerarem que as políticas do Governo desagradam aos eleitores, pondo em risco a renovação do mandato.
A decapitação de PM’s às mãos dos deputados do mesmo partido sempre existiu e é uma nota saudável da democracia britânica. Mas recentemente assistimos a uma elevada taxa de mortalidade dos PM’s. David Cameron caiu em 2016, por ter perdido o referendo do Brexit, por si convocado. Theresa May arrastou-se penosamente por três anos de negociação do Brexit e caiu em 2019, num voto parlamentar contra os resultados do acordo sobre o Brexit. Boris Johnson durou também três anos mas, ao contrário de May, conseguiu uma maioria absoluta. Ainda assim foi obrigado a demitir-se em 2022 face à desconfiança dos membros do Governo e dos Deputados conservadores. Liz Truss durou 50 dias como PM. Rishi Sunak durou mais de um ano e meio para perder estrondosamente as eleições que, em Julho de 2024, levaram Keir Starmer a Downing Street.
A inexperiência de Starmer, o ataque aos benefícios sociais (em particular os subsídios à energia para consumo doméstico), as derrotas infligidas ao Governo pelos deputados trabalhistas e o miserável resultado nas eleições autárquicas em Maio condenaram o sexto PM nos 10 anos de Brexit.
O Brexit não é a causa desta mortandade. À semelhança do que aconteceu noutros Estados (França, Espanha, Itália, Alemanha, Portugal,…), o aparecimento de um terceiro partido de protesto a disputar o poder com os beneficiários tradicionais do rotativismo é exacerbado pelo sistema partidário maioritário. Com 27% nas sondagens o Reform UK está em condições de ganhar uma maioria absoluta em Westminster, relegando trabalhistas e conservadores para uma oposição impotente. A não ser que o Restore Britain, fruto de uma cisão recente no Reform, replique a nível nacional os 9% que obteve nas mais recentes eleições intercalares.