A corrida entre o sucessor natural - J. D. Vance - e o Secretário de Estado já começou. E é no plano externo que esta corrida é mais visível, com Marco Rubio a amealhar o grande sucesso da política externa americana: a “conquista” da Venezuela em poucas horas, com custos reduzidos em armas e munições e apenas 7 militares americanos feridos. Já J. D. Vance recebeu a impossível encomenda de negociar a paz com o Irão em 24 horas, com o aviso prévio de Trump: “Se falhar a culpa é dele, se conseguir o mérito é meu!”
Seguindo o exemplo do Presidente, J. D. Vance recorreu ao palco da política externa para tentar ganhar créditos na política interna. Mas Vance não é Trump e o apetite do eleitor americano por temas de política externa desapareceu num contexto de pressões inflacionistas. A arenga anti-europeia de Vance na Conferência de Munique, em Fevereiro de 2025, não lhe rendeu um voto nos EUA e alienou por completo os aliados europeus.
Rubio procura, com sabedoria, estabelecer um contraponto junto dos europeus. Na semana passada foi à reunião dos MME’s da NATO, que decorreu em Helsingborg, na Suécia. Pôs fim à sub-representação dos EUA nas ministeriais da NATO, uma nova e perigosa prática da Administração Trump II, e reconheceu os efeitos positivos do alargamento da NATO à Suécia e à Finlândia, dois Aliados com forças armadas competentes e que viveram o pós-segunda guerra mundial em regime de neutralidade activa.
Rubio conseguiu também inverter a tendência de redução de tropas dos EUA na Europa. Na sua cólera contra Merz, Trump mandou parar o movimento de 4000 GI’s destinados à Alemanha, numa rotação que já estava em curso. Com Rubio em Helsinborg, os EUA anunciaram o envio para a Polónia de um contingente adicional de 5000 militares.
Enquanto Senador, Rubio promoveu e votou legislação que sujeita o abandono da NATO pelos EUA a uma decisão de ambas as Câmaras do Congresso (sendo difícil que tal aconteça agora na Câmara dos Representantes, Câmara que os Republicanos devem perder nas eleições intercalares de 3 de Novembro) ou por dois terços do Senado (uma super maioria que depende dos Democratas). Não obstante o exacerbar do bloqueio a Cuba, Rubio surge aos olhos dos europeus, e por comparação com Trump, Vance e Hegseth, como um interlocutor mais experiente e razoável. Para evitar a inveja de Trump há que gerir com pinças estas diferenças.
No que à NATO diz respeito aproxima-se um campo minado, a Cimeira de Ancara, a 7 e 8 de Julho. Cresce o perigo de Trump aproveitar a ocasião para apoucar a Aliança e renovar os votos de abandono. Não há uma obrigação formal de periodicidade anual das Cimeiras e pelo QG da NATO já se espera que, para evitar as derivas trumpianas, não haja Cimeiras em 2027 e em 2028, os dois últimos anos do segundo mandato presidencial.
Há que garantir a Trump um triunfo em Ancara, aprovando decisões vinculativas concretizando o aumento da despesa em defesa em percentagem do PIB, passando de 2% para 3,5%, deixando o tecto dos 5% para ser alcançado com contabilidade criativa (é fácil preencher os 1,5% que faltam com benfeitorias nos sistemas rodoviários, ferroviários, portuários e aeroportuários, conferindo-lhes um potencial de duplo uso civil e militar).
O percurso para esta solução tem tido alguns soluços, como aconteceu com a proposta do SG NATO para que cada Aliado passasse a gastar 0,25% do PIB com despesa militar em apoio à Ucrânia. Reino Unido, França, Espanha, Itália e Canadá já anunciaram estar contra a proposta.
No sentido positivo os EUA deixaram cair o veto a Zelenski para estar presente em Ancara.