segunda-feira, 13 abr. 2026

25 dias que não mudaram o mundo

Antes do termo do ultimato (Surrender or Else!) dado por Trump ao regime iraniano, o Presidente dos EUA anunciou, na madrugada desta segunda-feira, via Truth Social e em maiúsculas, um cessar-fogo unilateral, com a duração de 5 dias e limitado às infra-estruturas energéticas iranianas.

Foi assim promovido o desescalar do conflito, afastando, até sexta-feira, as anunciadas represálias iranianas, traduzidas no ataque às infra-estruturas energéticas e de desalinização de água dos Estados do Golfo Pérsico.

O balanço possível destes 25 dias de conflito permite algumas conclusões, nem todas negativas. A morte anunciada do Direito Internacional Público é manifestamente exagerada. A prova? Os EUA estão a aplicar as regras costumeiras em matéria de conflitos armados no mar, torpedeando uma corveta iraniana no alto mar e não promovendo a escolta armada de comboios de navios mercantes no Golfo Pérsico (o que tornaria os navios mercantes, independentemente do pavilhão, alvos legítimos das forças armadas iranianas). Foi também o respeito pelo DIP que permitiu aos Aliados dos EUA (europeus e asiáticos) recusar, em nome de alianças defensivas (como a NATO), um envolvimento directo num conflito que começou por uma guerra de agressão.

Os mercados de petróleo e de gás natural são globais, as oscilações de preços afectam todos os produtores, especuladores e consumidores, qualquer que seja a sua localização. Ainda que o petróleo e o gás natural sejam mais baratos nos EUA, a subida de preços também afecta a carteira dos eleitores daquele país.

A anunciada descarbonização da economia dos Estados-membros da União Europeia só está  meia feita e a dependência dos combustíveis fósseis é, e continuará a ser por vários anos, muito grande. A Comissão Europeia converteu-se agora, com a ajuda de Trump, ao nuclear. Com mais uma crise energética a UE descobriu ter trocado a dependência do petróleo e gás russos pelos equivalentes americanos (bastante mais caros) e, em menor grau, do Golfo Pérsico (também mais caros).

O projecto de grande Israel, com a anexação do Sul do Líbano e de parte da Síria, está de volta, de par com a consagração de Telavive como a potência regional militar hegemónica. Por menos simpatia que a maioria dos Estados árabes da região tenham por Teerão, a transformação, pela mão de Nethaniahu, dos EUA num proxy de Israel assusta o mundo islâmico e explica a coligação entre Paquistão, Turquia e Egipto para ajudar a mediar um acordo de paz.

A ausência de objectivos claros na agressão a Teerão pode ajudar a construir uma narrativa de vitória. Está afastada a possibilidade de Regime Change e Nethaniahu, em legítima defesa preemptiva, já acusou o Director da Mossad pela má qualidade da informação que a dava como possível. A destruição da capacidade iraniana de produção de materiais físseis nucleares já tinha sido declarada por Trump na guerra dos 12 dias. A guerra dos 25 dias poderá declarar, sem faltar à verdade, a perda do grosso da capacidade de Teerão produzir mísseis de médio e longo alcance, bem como a destruição e a utilização de uma grande percentagem do respectivo stock.

Com sorte haverá em Israel, junto da comunidade dos serviços de informação, uma garganta funda que revele o detalhe da manipulação de Trump por Nethanihau. E, com um pouco mais de sorte, pode ser que essa informação chegue primeiro a Trump e a alguns dos que à sua volta se preocupam com as consequências económicas e políticas (as Midterms estão marcadas para 3 de Novembro) daquela que poderá ser a maior crise energética de sempre.