Para nós, não há ensino digno desse nome sem uma pedagogia inteligente e que tenha como objectivo prioritário “disciplinar” o raciocínio como que ordenando e escalonando valores, para que o “espírito” perceba, compreenda e formule, “ele próprio”, uma escala de valores espirituais, que só assim aceita e selecciona como um caminho a trilhar para a sua valorização pessoal e, logicamente, da própria sociedade (Humanidade).
Ou seja, a aprendizagem só existe e só é possível quando é fruto de um acto voluntário e consciente e representa um esforço, uma exegese, para que possa “impressionar” a “película” da inteligência e da memória. E é através da memória, quando recordamos conceitos apreendidos e assimilados em determinado contexto, que os podemos questionar e colocá-los até à prova em outros contextos posteriores, resultado de uma experiência de vida, fruto da experimentação, da comparação e da crítica, que nos vai levar à dúvida persistente, para que se questione tudo, para acabar ou na permanente insatisfação ou no conformismo, fruto da aceitação e acomodação ao “status quo” vigente.
O ensino sem prática pedagógica não é verdadeiramente ensino, já que não tem “experimentação” nem a possibilidade, daquele que aprende, de se auto-corrigir. Queremos aqui elogiar e nomear a Faculdade de Motricidade Humana, futura Faculdade de Cinesiologia, como uma das escolas de ensino em Portugal mais avançadas na arte de “ensinar a ensinar”, através da prática pedagógica adaptada a várias disciplinas ali leccionadas. É que a pedagogia ali pratica-se no dia-a-dia e é de tal forma normal que, mais tarde, todos os que dali saíram ficaram chocados com a falta dela nas outras faculdades.
Maria Filomena Mónica, uma irreverente intelectual de primeira água, uma historiadora e uma verdadeira socióloga, referiu-se, em 2014, no “D.N.”, ao ensino universitário e secundário, em termos tão inteligentes, como é seu timbre, que quase se lamenta, dizemos nós, não poder (?) haver uma (melhor) articulação entre o ensino secundário e universitário para que todo o sistema de ensino tivesse maior lógica e estivesse mais bem programado de modo a que não funcionasse como dois compartimentos estanques, mas sim como dois vasos comunicantes.
Mas só uma pessoa superiormente inteligente, séria e bem preparada, como M.F.M. é, pode admitir, publicamente, que acabou por ter da “questão” do ensino secundário uma visão diferente da que tinha.
Seria pois interessante que o Ministério da Educação, com o apoio do “Conselho Nacional da Educação”, que chegou a ser dirigido por um sociólogo, tivesse a ousadia de criar um grupo de trabalho, constituído por pessoas não remuneradas, para estudar a possibilidade de haver uma articulação de métodos e processos de ensino entre os dois graus (de ensino) citados, para que não houvesse, como continua a haver, um terrível choque de adaptação à universidade por parte dos alunos, que todos os anos entram no Ensino Superior (vindos do secundário), alguns com uma mentalidade infantil e com total impreparação para compreender como funciona a faculdade e inclusive para perceber a diferença entre “apontamentos” e as “fontes” do ensino.