Nas Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett questionava: «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?».
No fundo, Almeida Garrett queria saber quantos pobres eram necessários para criar um rico. A resposta é zero. A economia não é um jogo de soma zero, não é um jogo de cartas ou uma partida de futebol em que para um ganhar outros terão forçosamente de perder. Também não é como as eleições, em que um voto num implica menos um voto noutro.
Para se perceber que assim não é, compare-se a economia em 1846 e agora. Não é possível termos dados rigorosos, mas as estimativas apontam para um PIB per capita mundial (ou seja, toda a produção mundial a dividir pela sua população), em 1846, na ordem dos $700-$1100. Hoje, a média global cifra-se entre $23 000 e $27 000 em termos reais, ou seja, já descontando o efeito da inflação. Estamos a falar de uma riqueza mundial por pessoa 27 vezes maior do que no tempo de Garrett. O mesmo com a pobreza extrema, que tem decaído sustentadamente desde então. Eis a economia a crescer para todos.
Em defesa de Garrett, no ano de 1846 sabia-se pouco sobre economia. O conhecimento existente era baseado numa visão prosaica e intuitiva (e errada) das relações económicas. Também nessa altura, as nações olhavam com desconfiança para aquelas com quem tinham um défice comercial, ou seja, de quem importavam mais do que exportavam. Medidas protecionistas eram então uma resposta natural num jogo em que se outros estão a ganhar, então nós estaremos forçosamente a perder. Também aqui se aplicava a visão do jogo de soma zero.
Se Almeida Garrett tinha a desculpa do air du temps, já a esquerda contemporânea não tem. Por muito que discordemos de como a economia deve funcionar e do grau de intromissão política, todos estamos perfeitamente cientes de que a economia não é um jogo de soma zero – incluindo a esquerda.
Ora, sendo esse o caso, isto levanta uma questão existencial. Se partidos como o BE, PCP ou Livre sabem perfeitamente que a economia não é um jogo de soma zero e se, ainda assim, vivem obcecados com o sucesso alheio, com os milionários, com os «ricos» (pronúncia acentuada nos ‘r’s, para ecoar Louçã) ou com os «ultra-mega-hiper-ricos» (para citar Rui Tavares), então só existe uma de duas explicações.
A primeira explicação é de que necessitam de manter artificialmente a luta de classes acesa porque esse é o seu leitmotif e sem isso perdem o seu mais importante pilar intelectual. Ou seja, sabendo que não é verdade, há que manter viva a luta entre proletariado e burguesia, por muito que esses conceitos estejam cada vez mais ultrapassados (We’re all bourgeois now! – o BE e o Livre que o digam).
A explicação alternativa, ou complementar, é mais profunda e vai ao âmago da natureza humana: trata-se de pequena inveja. A inveja é um sentimento muito humano que está bem documentado. No estudo ‘Does Your Neighbor’s Income Affect Your Happiness?’, de Firebaugh e Schroeder, os investigadores perguntam a centenas de pessoas se preferiam ser o mais rico entre os pobres ou o mais pobre entre os ricos, sendo que o mais pobre entre os ricos teria mais dinheiro do que o mais rico entre os pobres.
Sem surpresa, a maior parte dos inquiridos prefere ser relativamente mais rico do que os vizinhos, ainda que essa opção seja, em termos absolutos, pior. Isto é a resposta epidérmica, emocional. A resposta da razão deverá ser a de temperar este sentimento, não deixando que guie convicções políticas. Se a esquerda fosse capaz de o fazer todos ficaríamos a ganhar.