Gostava de estar a contar ao estimado leitor que despertei para a política muito cedo, com precocidade a roçar o genial; que aos oito anos acabava de ler o Política de Aristóteles e que aos doze terminava um ensaio sobre o Leviatã. Estaria a mentir. Embora tivesse uma curiosidade por política, foi já tarde, durante a faculdade, que adquiri consciência política.
Consciência política no sentido mais elementar do termo: a realização de que o meu bem-estar não se esgota no plano material, e que existem princípios e valores pelos quais é necessário lutar para uma realização mais plena. Esta consciência aguçou-se num determinado momento da vida política portuguesa em que esses princípios estiveram em causa. Foi com José Sócrates.
O país não deve nada a José Sócrates, mas eu devo-lhe este despertar. Estávamos perante um político que personificava aquilo que Fukuyama chamou de megalothymia - uma sede intemperada de grandeza e de poder. E assim foi durante a sua governação: tentou controlar o sistema financeiro e o bancário, com jogadas no BCP e na CGD; tentou controlar o meio empresarial, através da PT e das ligações a Ricardo Salgado. Mais grave ainda: tentou controlar os órgãos de comunicação social, que são o quarto poder, e tentou ainda controlar o poder judicial.
A democracia não esteve em risco, mas o Estado de Direito foi para um profundo coma. Abalaram-se os pilares do regime: a justiça estava em xeque (e ainda está dado o risco de prescrição da operação Marquês), as finanças públicas depauperadas e a confiança na política profundamente minada.
Hoje, José Sócrates está fora da política, a responder na barra dos tribunais - como deve ser num Estado de Direito. Mas as ameaças ao Estado de Direito não cessaram, apenas mudaram de protagonista. Hoje, vêm de outro lado do espetro político.
Não digo isto de forma leviana, com a mesma leviandade com que as esquerdas chamaram de fascista a André Ventura, ao Chega e, por extensão, aos portugueses que votam no Chega. As esquerdas que vão do PCP ao BE, incluindo franjas do PS, alimentaram esta polarização e diabolização do Chega porque também dela retiravam dividendos políticos. Importa recordar que figuras cimeiras do PS, como António Costa ou Augusto Santos Silva, foram catalisadores desse crescimento: para Costa, um seguro de vida do PS; para Santos Silva, uma plataforma para a corrida presidencial.
Mas o Chega não precisa de ser um partido autocrático para ser uma ameaça ao Estado de Direito. Eis porquê: pauto-me por tentar trazer alguma cor à política e fazê-la com sentido de humor, mas não faço política a brincar. Levo muito a sério quando um político clama por uma 4.ª República ou por três Salazares. Ou quando defende uma concentração de poderes no Presidente da República, ao arrepio da liberal e saudável separação de poderes. Ou quando lê nomes de crianças - crianças! - em pleno Parlamento apenas porque são estrangeiras.
Não consigo relativizar isto como meros exageros retóricos, porque a política é também aquilo que dizemos, não apenas aquilo que fazemos. À mulher de César não basta ser, e Ventura assemelha-se demasiado a um César na sua forma de estar. E com base naquilo que André Ventura diz, a sua visão de país está muito mais próxima de uma democracia iliberal como a de Orbán ou a de Trump do que de uma democracia liberal europeia.
Estas são então as minhas circunstâncias. As circunstâncias não decidem, são o dilema. Quem decide sou eu, em consciência: jamais votaria em alguém que desafia o Estado de Direito, mesmo que do lado de lá esteja António José Seguro.
Curiosamente, nunca votei em José Sócrates, já André Ventura não pode dizer o mesmo. Ventura reconheceu, com registo em áudio, que Sócrates foi o único socialista que o enganou. Pudera. Convém é não nos deixarmos enganar novamente.