quarta-feira, 09 set. 2026

O declínio moral do Reino Unido

Hoje sabe-se que grande parte desta história pessoal e académica é charlatanice, e que Jason Arday se revelou menos um prodígio e mais um mitómano, desde logo porque, alegadamente, terá plagiado uma boa parte da sua tese de doutoramento.

Jason Arday tornou-se internacionalmente célebre por ser o mais jovem negro de sempre a ascender a professor na Universidade de Cambridge. Ganhou fama por ter chegado a Cambridge tão novo, e mais fama ganhou com o que se soube a seguir.

A sua história, por assim dizer, é de facto impressionante: foi-lhe diagnosticado autismo aos 3 anos de idade, não falava até aos 11 (e ainda foi abusado fisicamente pela terapeuta da fala, alega) e só começou a ler e a escrever aos 18. Filho de imigrantes, usava roupa feita em casa e jogava snooker para ajudar a pagar as contas. Contra todas as probabilidades, consegue ir para a universidade, licenciar-se em Educação Física, fazer o mestrado, fazer um doutoramento em Educação e tornar-se professor de, imagine-se, Sociologia.

Não fizesse já esta história de vida arrefecer o inferno de Dante, alega também ter corrido 30 maratonas em 35 dias, ter ficado em coma durante meses, estar prestes a suicidar-se até ouvir uma música dos Eagles, sobreviver a um tumor cerebral, entre outras peripécias do livro que será publicado em breve.

Enfim, hoje sabe-se que grande parte desta história pessoal e académica é charlatanice, e que Arday se revelou menos um prodígio e mais um mitómano, desde logo porque, alegadamente, terá plagiado uma boa parte da sua tese de doutoramento. Mas esta crónica não é sobre Arday, é sobre algo bem mais grave e estrutural: as instituições que lhe estenderam a passadeira vermelha, validando a mentira porque a narrativa servia na perfeição a ideologia que professam.

Na verdade, o caso Arday é apenas o sintoma do longo e lento declínio moral do Reino Unido. A polícia foi uma dessas instituições severamente afetadas por esta crise moral. Quando um jornalista do Times Higher Education começou a investigar a fraude e enviou perguntas a Arday, a Metropolitan Police passou quatro meses a investigar o caso - não o de fraude académica, mas a investigação jornalística de Jack Grove. Encerrado o caso, a polícia ainda ligou ao jornalista a recomendar-lhe que não voltasse a incomodar o professor. A polícia britânica transformada em secretariado emocional.

Esta é a mesmíssima polícia que, a soldo de leis abstrusas, deteve, em média, 12 mil pessoas, entre 2021 e 2023, por posts ou mensagens privadas em redes sociais. São mais de 30 casos por dia por delito de opinião. A fúria persecutória atingiu cidadãos como Lucy Connolly, condenada à impensável pena de 31 meses de prisão. Por crimes de sangue? Não. Por publicações nas redes sociais. E, para as opiniões que não chegam a violar a lei, o Estado britânico inventou uma figura digna do britânico Orwell: os ‘non-crime hate incidents’ (incidentes de ódio não-criminais). Não são crimes, mas ficam no cadastro se alguém se sentir ofendido.

Infelizmente, não se esgota na polícia. A BBC noticiou a fraude de Arday em surdina, isto depois de o ter promovido à exaustão. Só surpreende os distraídos: esta é a mesma BBC que se recusou a chamar de terroristas aos terroristas do Hamas do 7 de outubro.

E tudo isto acontece no país que durante anos encobriu ou recusou investigar casos de exploração sexual de menores (grooming gangs). Décadas em que milhares de meninas vulneráveis foram violadas porque polícias, assistentes sociais e autarcas temiam mais ser apelidados de «racistas» do que intervir contra criminosos de origem paquistanesa. Inacreditavelmente, só em Abril deste ano o inquérito arrancou.

Chegados aqui, constatamos que a mais velha democracia parlamentar do mundo, farol civilizacional, berço do fair play, de Newton ou de Shakespeare, da excelência académica, do pragmatismo e do rigor, degenerou numa sociedade onde quem diz importa mais do que aquilo que é dito. As instituições britânicas mais seculares e respeitadas (Cambridge, BBC, Scotland Yard, o NHS cuja deriva ideológica o relatório Cass diagnosticou), assim como o poder político que as tutela, decidiram que a ideologia, os sentimentos e o apaziguamento de diferenças identitárias se sobrepõem à verdade objetiva, ao rigor e ao Estado de Direito. Em suma, o Reino Unido abdicou das suas próprias crenças e convicções para acomodar as dos outros, aliás estranhas à sua própria matriz civilizacional.

Esta crónica, porém, não é só sobre o Reino Unido. O declínio moral britânico é o canário na mina que nos deve alertar para que rumo queremos seguir - mas sobretudo, para citar José Régio, por onde não queremos ir. E não queremos ir por aqui.