Há 15 anos, mais coisa menos coisa, atravessava o deserto de Atacama em direção à Bolívia. Já em Potosi, entre ar rarefeito e alguma dificuldade respiratória, entretive-me num belo debate filosófico, intercalado a cerveja, com um dos australianos que fazia a viagem comigo.
A questão era esta: se Einstein tivesse nascido e vivido na Bolívia, ou num outro país que não a Alemanha (onde nasceu), na Suíça (onde trabalhou) ou os Estados Unidos (para onde emigrou), teria sido o mesmo físico teórico que conhecemos, isto é, teria sido capaz de sistematizar o movimento browniano ou a teoria da relatividade?
Eu arguía que não, o australiano jurava que sim. Parece um tema menor, mas é estudado há décadas em sociologia e em ciência política também. A questão, no fundo, é esta: aquilo que somos e fazemos depende mais da estrutura (social, económica, política) onde estamos inseridos ou da agência (autonomia, escolha racional) dos indivíduos?
No entender do australiano, Einstein alcançaria o que alcançou independentemente do contexto onde estava inserido. Para mim, não. Ou seja, o brilhante Einstein não teria conseguido atingir o que atingiu se tivesse nascido num meio em que a taxa de mortalidade infantil é de 20% e a taxa de pobreza de 36.5% (dados de hoje — no século XIX era substancialmente pior). Dificilmente teria estudado, quanto mais terminar um doutoramento.
Significa isto que a estrutura tem mais peso do que a agência? Não necessariamente. Veja-se o contraexemplo: a esmagadora maioria das pessoas que vivesse a mesma vida de Einstein não teria sido capaz de fazer o que ele fez. A pessoa Einstein era única, como foi único Newton ou Beethoven. E como, em bom rigor, cada um de nós é único e irrepetível. Ou seja, na mesma estrutura vivem indivíduos diferentes, porque os indivíduos são e tomam decisões diferentes, que seguem percursos diferentes em função dessas escolhas diferentes.
Na sociologia, Durkheim, tal como Marx, consideravam que as estruturas (e as superstruturas) determinam aquilo que somos. A sociedade impõe normas, papéis, constructos sociais que determinam o que somos e o que podemos ser. Já na visão de Max Weber ou Becker, os fenómenos sociais resultam de escolhas individuais e de agregação de comportamentos (i.e., a sociedade é a soma dos seus indivíduos). Entre estes dois extremos, estou mais alinhado com Giddens: as estruturas condicionam ou potenciam a ação (tal como no caso de Einstein), mas também são transformadas pela ação e pela escolha consciente dos indivíduos.
Isto tem implicações políticas. Rousseau considerava que as pessoas são boas no seu estado puro, selvagem, e que é a sociedade que as corrompe. A base do socialismo e do comunismo é precisamente esta: a agência individual existe, mas é limitada por estruturas de classe e de poder.
Na expressão mais radical (pós-moderna) desta visão estrutural, temos a ideia de interseccionalidade, de onde resultam conceitos como machismo ou racismo estrutural. Há um conjunto de categorias – identidades – que definem e potenciam/limitam grupos: classe, sexo, raça, género. Ou seja, se for um indivíduo negro, é limitado. Se for branco, é potenciado. Esta visão é completamente alheia às circunstâncias particulares e à individualidade, fazendo com que Obama seja estruturalmente oprimido apenas por ser negro, ainda que faça parte dos 1% mais ricos e viva bem melhor do que muitos brancos pobres e marginalizados.
Radicalismos à parte, o ponto central do debate é este: a estrutura explica onde começamos; a agência decide até onde tentamos chegar. Falhar não é necessariamente demérito individual. Demérito é quando nem sequer vamos a jogo porque nos sentimos vítimas do mundo, da estrutura. Mérito é entrar num campo inclinado e conseguir jogar melhor do que as regras (da estrutura) antecipavam.
Já uma sociedade verdadeiramente justa é aquela que nivela o campo, conferindo igualdade de oportunidades, mas deixa os indivíduos livres para fazerem as suas escolhas. E, aí, o mérito (ou demérito) das nossas escolhas só pode ser imputado a nós próprios.