terça-feira, 18 ago. 2026

Estado de Estagnação

Falta capacidade de implementar as reformas que o país precisa, indo contra interesses instalados, contra a máquina do Estado, contra o imobilismo, contra os velhos do Restelo - mas ao encontro do país que os portugueses merecem e um dia irão ter.

Há um ritual anual em que se debate no Parlamento, com a devida pompa, o estado da nação. Convém antes olhar para os números, porque os números revelam outra coisa: um estado de estagnação.

Comecemos pela promessa fundadora do regime: convergir com a Europa. Em 2000, o nosso PIB per capita valia cerca de 85% da média europeia. Em 2024, anunciavam 82%. Hoje, deverá rondar os 77%, segundo estimativas com base na revisão dos números da população. Não convergimos. Ao contrário do que António Costa e Mário Centeno anunciaram de forma despudorada, divergimos ainda mais.

E há aqui um truque estatístico que importa desmontar. A economia até cresceu, é certo, mas a população cresceu também, sobretudo por via da imigração, ultrapassando os 11,4 milhões. Mais gente a dividir o mesmo bolo. O PIB agregado aumentou, mas o PIB por cada português recuou. Trabalhamos mais, somos mais, e cada um de nós continua mais pobre. Países como a Eslovénia, a Chéquia ou a Lituânia, que partiam de bem mais atrás, ultrapassaram-nos ou colaram-se a nós. Éramos mais ricos do que eles. Já não somos.

O resto do quadro conhece-se de cor, porque se repete há anos. Na saúde, um SNS em rutura permanente: urgências que fecham, listas de espera que não fecham e médicos que emigram para serem bem pagos noutro sítio qualquer. Na educação, o debate é surreal: em vez de elevarmos os alunos à fasquia, baixamos a fasquia até aos alunos. Na habitação, uma geração inteira faz contas e percebe que não chega: casas impossíveis de comprar, rendas incomportáveis, o velho sonho de ter uma vida para lá da sobrevivência é cada vez mais isso, um sonho. Não admira que tantos dos melhores façam as malas e zarpem por país.

O denominador comum é um: falta de reformas. Faz-se sempre o mais fácil, que é gerir o dia com pensos rápidos, e adia-se sempre o mais difícil, que é reformar em profundidade. Foi assim durante os oito longos anos de António Costa, e o cenário não parece ter mudado muito com AD. Volvidos dois anos desde a sua eleição, só uma reforma digna do nome foi apresentada: a reforma laboral, que acabou chumbada graças a um partido situacionista (PS) e a outro incapaz de aprovar algo que possa ser impopular (Chega). Dois partidos que contribuem para o marasmo que assola Portugal.

Segurança social, Estado, justiça, fiscalidade - tudo espera, tudo se empurra para o mandato seguinte. Entre o situacionismo confortável e a decisão desconfortável, o país escolheu a segunda.

É fundamental derrotar esta ideia de que isto é o nosso destino. Não tem de ser assim. Não é uma fatalidade geográfica nem uma maldição de nascença. Não é o nosso fado. Portugal não está condenado a ser o parente pobre da Europa, a despedir os filhos no aeroporto e a envelhecer à espera de uma reforma que talvez não venha. Já fomos capazes de coisas grandes e é mesmo possível voltar a sê-lo.

Falta o de sempre e o mais raro: coragem. Coragem para reformar quando reformar dá menos votos e muito mais trabalho. Coragem para nivelar o campo e deixar as pessoas correr. Mas para isso são necessários políticos de coragem, que vejam a causa pública como uma missão e não como um posto. Políticos abnegados, que vejam o poder como um meio, nunca como um fim. E, sobretudo, a capacidade de implementar as reformas que o país precisa, indo contra interesses instalados, contra a máquina do Estado, contra o imobilismo, contra os velhos do Restelo - mas ao encontro do país que os portugueses merecem e um dia irão ter.