Em 1844, na sua obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Karl Marx disse algo que ficou lacrado na política: «A religião é o ópio do povo». Queria com isto dizer que a religião anestesiava, distraía o povo da luta, adormecia a consciência de classe. Por outras palavras, Deus era uma invenção humana que mantinha o povo domesticado.
Os intelectuais comunistas levaram o aviso a sério e, para combater o ópio, criaram outro. De Lenine a Mao Zedong, atacaram igrejas, mesquitas e sinagogas, e executaram ou prenderam milhares de padres, monges, bispos e crentes. Suprimida a religião espiritual, os discípulos de Marx trataram de instituir algo que preenchesse o vazio – uma religião política. Pode parecer caricato, e para um comunista devotamente ateu poderá ser até ofensivo, mas o comunismo tem todos os traços de uma religião.
Em primeiro lugar, alimenta o mesmo culto de personalidade de tantas outras religiões. Não tem santos, mas tem grandes timoneiros. Marx, Engels, Lenine, Estaline ou Mao têm contornos quase divinos aos olhos dos seus crentes. A devoção é tal que tanto Lenine como Mao Zedong têm direito a um mausoléu aberto a devotos. E Che Guevara, o grande mártir que mandou executar centenas de pessoas, é mesmo o Santo Padroeiro das crianças em Cuba, inspirando uma prece diária que é dita nas escolas primárias. E, há, claro, imagens dos santos: bustos, estátuas, praças.
O comunismo tem também os seus livros sagrados, onde se estabelecem os dogmas sociais, políticos e económicos dos seus crentes. O Manifesto Comunista é uma espécie de Evangelho, um texto profético que traz a boa nova. Já O Capital é uma suma teológica, onde meras conjeturas – a maior parte erradas – são elevadas a leis canónicas e dogmas de fé.
A sua igreja, isto é, os detentores da interpretação correta da doutrina, é o Partido. Guiado pelas vanguardas e pelos intelectuais proselitistas, é o Partido que alumiará o proletariado e o conduzirá na marcha gloriosa do todo-poderoso materialismo histórico – a luta de classes. Marcha essa que irá triunfar no Juízo Final, quando o proletariado, munido da sua consciência de classe, fizer sua a propriedade da burguesia e do capital e desencadear, finalmente, a revolução proletária que abrirá o reino dos céus. Que é como quem diz, a sociedade comunista.
Como qualquer outra religião, esta religião política tem também os seus locais de culto. São cada vez menos, mas ainda existem. Foi a União Soviética, foi a China, foi a Coreia do Norte e chegou a ser a Venezuela durante a revolução chavista. Hoje, resta Cuba. Cuba é uma espécie de Fátima dos comunistas, com a diferença que as pessoas geralmente vão a Fátima e os cubanos tentam fugir de Cuba.
Ou era. Há duas semanas, o atual Presidente cubano disse o seguinte: «O tabelamento de preços [...] levou à escassez de produtos, a preços mais altos, a menor receita fiscal. Por isso, não vamos continuar a impor tectos». Uma ferida no sacrossanto controlo de preços. Mas não se ficou por aqui. Disse também que «a verdadeira justiça social não se constrói sobre preços artificiais que acabaram por gerar escassez, filas, salários baixos e um mercado ilegal». A heresia.
Mas talvez o mais grave, que atenta contra o coração da fé comunista, tenha sido mesmo isto: «Sem riqueza, não há nada para distribuir. Se não há riqueza, não há justiça social, e tudo o resto é um conto de fadas». Afinal não basta tomar os meios de produção e trucidar o grande capital. Um abalo de dimensão canónica.
As palavras de Miguel Díaz-Canel não são apenas um cisma na igreja comunista. Estas palavras são o reconhecimento de que a realidade, essa velha reacionária, é mais forte do que os dogmas da fé comunista. Ao fim de 67 anos, Cuba parece ter aprendido. Resta saber se as pequenas paróquias que se sentam, todas as semanas, nos bancos de São Bento terão aprendido também.