segunda-feira, 17 ago. 2026

Carros que atropelam pessoas

Na Europa não pode haver espaço para quem defende o fim dos direitos humanos, a submissão da mulher, a perseguição de minorias sexuais ou a negação do Estado de Direito.

Uma visão muito em voga no Ocidente é a de que é possível que diferentes culturas comunguem da mesma comunidade política, mesmo que não comunguem de um chão político e social comum. Ou seja, os defensores desta visão acreditam que é possível partilhar escolas e hospitais, e sobretudo decisões sobre as regras de convivência que regem a comunidade política, mesmo que não partilhem da mesma visão sobre direitos humanos, sobre a secularidade do Estado ou sobre o primado da Lei.

Isto é, grosso modo, o multiculturalismo. O multiculturalismo tem um significado político muito claro, e não significa um espaço comum, com pertenças colectivas no que é essencial, onde convivem diferentes culturas (i.e., panculturalismo), mas sim a ideia de que não é necessária qualquer ligação entre culturas para que estas possam coexistir em paz e respeito mútuo. Pelo contrário, a preservação de diferenças e particularidades étnico-culturais é não apenas desejável, como necessária.

Ora, a realidade tem vindo precisamente a demonstrar que esta visão é não apenas lírica, como politicamente inviável. Como já aqui escrevi há uns meses, este foi o caminho escolhido pela generalidade dos países europeus, em claro contraste com outros países, como os Estado Unidos da América, onde diferentes culturas partilham o mesmo espaço porque todos (ou quase todos) os que lá vivem, de cristãos a muçulmanos, acreditam fundamentalmente num esteio comum: os valores americanos. Aliás, foi a busca por esses valores americanos que os levou, em primeira instância, a procurar os EUA.

Serve este introito para contextualizar o ataque terrorista islamista que ocorreu recentemente na Alemanha, atentando contra uma manifestação da comunidade LGBT. O ataque terrorista é islamista — não islâmico — não porque o perpetrador era muçulmano, mas porque a motivação para o mesmo radica de uma visão política e social a que os próprios chamam de Islão radical e que os impele a fazer isto mesmo.

O Islão tradicional trata a sexualidade sob a lente de quadros teológicos e jurídicos (fiqh), enquanto que o islamismo, que é um projecto político de reconstrução da sociedade com base numa interpretação fundamentalista da lei da Sharia, vai mais além. Os atos homossexuais não são apenas um pecado grave (haram), mas existe mesmo um dever absoluto de vigiar, criminalizar e erradicar a homossexualidade da esfera pública e privada. O Estado, como tal, deve servir também esse propósito.

Mais ainda, os islamistas olham para a diversidade sexual e para os direitos LGBT como uma ferramenta de depravação moral (fasaad) que é promovida pelo Ocidente. Trata-se de imperialismo cultural ocidental. Assim, perseguir a comunidade LGBT é um acto de resistência anti-imperialista. Não por acaso, existe uma resistência audível e sistémica na Palestina à comunidade ocidental “Queers for Palestine”. Não é coincidência, decorre de visões completamente distintas do mundo.

É por isso cada vez mais óbvio que estas diferentes visões do mundo são irreconciliáveis. Felizmente, uma grande parte dos muçulmanos não comunga desta visão radical do Islão, não achando, aliás, que a religião se deva estender a todas as esferas da vida. Países como a Turquia, entre outros, são um exemplo de países muçulmanos fundamentalmente seculares. Existem até países muçulmanos assumidamente anti-islamistas, e que se posicionam como inimigos declarados do islamismo político e radical, como é o caso dos Emirados Árabes Unidos e do Egipto.

Os países europeus devem adoptar exactamente a mesma postura. Na Europa não pode haver espaço para quem defende o fim dos direitos humanos, a submissão da mulher, a perseguição de minorias sexuais ou a negação do Estado de Direito. Este é um confronto entre a democracia liberal ocidental e o extremismo ideológico — e se não forem os partidos do arco da moderação a dizê-lo, serão os partidos extremistas a fazê-lo.