Ninguém sabe ao certo a origem da expressão ‘o conto do vigário’, mas há uma versão que eu acho particularmente piada. Reza então a história que, em Ouro Preto, no Brasil do século XVIII, duas paróquias disputavam uma valiosa imagem de Nossa Senhora. Não sendo possível uma solução salomónica, um dos vigários propôs uma forma de desempate: atar a imagem da Santa ao dorso de um burro e deixar que este caminhasse, por livre vontade, até uma das igrejas. Acontece que o vigário que propôs isto era o dono do animal, pelo que o burro foi obedientemente ter com ele.
As burlas continuam muito em voga, apenas mudaram os meios. Já não se atam imagens sagradas a burros, mas vigários a praticar vigarices é o pão nosso de cada dia. Vejamos alguns casos.
O clássico histórico é o da Dona Branca, conhecida como ‘A Banqueira do Povo’. A quem lhe confiasse as poupanças garantia juros de 10% ao mês (120% ao ano sem capitalização!). Um negócio muito tentador sobretudo porque, nos anos 80, a taxa de juro rondava os 10-20%. Este esquema só poderia ser assegurado de uma forma: pagando aos clientes antigos com o capital dos novos. É um esquema Ponzi, e o leitor já sabe como é que acaba.
Em 2023, uma mulher de 76 anos, em Glória do Ribatejo, foi abordada por um falso técnico da Segurança Social, que lhe prometeu um aumento da reforma caso esta entregasse as notas que tinha em casa, alegando que iriam sair de circulação. A vítima entregou 101 mil euros e ainda peças em ouro.
Já em fevereiro de 2025, foi noticiado o caso de um falso funcionário bancário que convencia idosos a entregarem cartão e PIN, alegando que os cartões estavam a expirar a tinham de ser substituídos. Esta investigação, apelidada de ‘A reforma do falso bancário’, descobriu que foram burlados velhinhos entre os 70 e os 90 anos, e gerou prejuízos superiores a 164 mil Euros.
E, claro, a burla já muito conhecida e badalada do ‘Olá pai, olá mãe’, que continua a fazer milhares de lesados pelo WhatsApp. Esta burla é particularmente eficaz porque apela ao instinto primário de qualquer pai ou mãe, que é o de ajudar um filho em apuros.
Estas quatro fraudes usam abordagens distintas, mas partilham um padrão. Chamemos-lhe o ‘ADN’ do vigarista. O burlão manipula a urgência, o medo ou do desejo de uma vida melhor, oferecendo uma solução mágica que é impossível de cumprir. Ele apela ao coração, ao cansaço, à insatisfação. Uma solução simples e imediata que tudo resolve.
Há, porém, um outro tipo de burla parecida com estas, mas que não envolve transações financeiras imediatas. Ou seja, não dá ou pede diretamente dinheiro, ainda que mexa com as emoções das pessoas e defraude as suas expectativas.
Funciona assim: imagine-se um grande reservatório de água que abastece uma cidade. Entra água das chuvas e dos rios, sai água para ser consumida. O equilíbrio é ténue: se entrar menos água do que sai, o reservatório pode esvaziar. Nos últimos anos tem chovido menos, pelo que tem entrado menos água. Por outro lado, as pessoas vivem agora mais tempo, portanto têm vindo a consumir mais água.
Chega o burlão e promete que é possível abrir mais as comportas, consumir ainda mais água. Para evitar que seque, sugere ir buscar umas garrafas de água ao merceeiro (garrafas essas que só dariam para 2 ou 3 horas de consumo, mas a maior parte das pessoas nem se apercebe).
Parece estranho alguém cair nesta burla, mas tem acontecido. Se substituirmos o reservatório de água pela Segurança Social, é isso que está em causa na promessa do Chega de baixar a idade da reforma. Tem entrado menos água/descontos (por causa da baixa natalidade) e tem-se consumido mais água/pensões (as pessoas vivem mais tempo).
No fundo, a burla consiste nisto: prometer o que só poderia ser dado com sacrifícios ainda maiores dos mais jovens, criando uma expectativa que não será cumprida. É a fórmula gasta - e infelizmente eficaz - dos burlões para enganar velhinhos. Há burlas que pedem o PIN. Esta pede o voto.